Arnelio de Paoli: “No Mercado só tenho amizades”

Aos 73 anos, Arnelio de Paoli, conhecido por todos como seu Arno, ainda comanda a Agropecuária De Paoli. Depois de uma trajetória vitoriosa, mas dura, no Mercado, tem saudades “lá de fora”, dos tempos que o pai só dava uma tossida para avisar que estava na hora de levantar, cedinho, para tratar os bichos. Dos bailes domingo de tarde e de andar a cavalo pelos os lugarejos em de Boqueirão do Leão. E também dos amigos de juventude do Mercado, quando não havia brigas, assaltos, “e se podia até dormir na Praça da Alfândega”.

 

 

 

 

       Ele lembra bem do primeiro dia no Mercado: 15 de fevereiro de 1959.  “Vim sem saber nada”, diz. Chegando no Mercado foi direto na Banca 15, sem saber que um primo, Ido Salami, trabalhava lá. Junto com ele estava Nilo Borsoni, com quem trocou informações sobre Boqueirão. Coincidência: Arnelio conhecia o sogro de Nilo Borsoni que, pelas referências em comum, foi anunciando: “Já estás empregado, então. Quer começar hoje?” Arno pediu uns dias para voltar para a sua cidade e se preparar para a mudança. “Fui em casa, faceiro, contei para todo mundo. Lá era novidade uma viagem para Porto Alegre”, diz. Uma semana depois estava trabalhando na banca 15, onde ficou de 1959 a 1964 com os patrões Ido Salami e Nilo Borsoni. Hoje avalia que esse período foi muito bom. Com vontade de crescer, em agosto de 1964 ele e Aquilino de Paoli entram de sócios na Banca 46. “Trabalhava-se muito naquela época, não existia supermercado. Em quatro meses pagamos a nossa parte na banca”, diz. O primeiro “dinheirinho” veio na Páscoa. Mas ficaram decepcionados porque era muito pouco. “Fizemos as contas e chegamos à conclusão que como empregados a gente ganhava mais. Só não largamos porque a gente recém tinha casado”. Mas, mesmo “desacorçoado”, seguiu trabalhando. O mesmo não aconteceu com Aquilino, que tomou outro rumo.

 

 

 

 

 

       A hora da virada

 

       A vida seguia, até que em 1985 a esposa, Gladis Rodrigues de Paoli, falecida há quatros anos, disse: “Arno, tu trabalha toda a vida e não conseguiu nada, vamos vender nossa casa e comprar alguma coisa para nós”. Então ele anunciu a casa. Imediatamente Nilson Possi, seu sobrinho, se interessou pelo negócio. Até hoje Arno treme quando se lembra do episódio. A mulher sempre encorajando: “Nem que a gente vá morar debaixo da ponte, mas vamos comprar uma casa comercial para nós”. Mas em seguida o sobrinho desiste da compra, se prontificando a emprestar um dinheiro para que ele compre uma banca. Resultado: logo Arno anunciava para Darci Salami, o sócio: “Ou compro a tua parte ou tu compras a minha”. De noite, Salami respondeu que o negócio estava fechado. E, assim, Arno passou a ser sócio do sobrinho. E mais: no mesmo dia compraram também a Banca 1, de produtos religiosos. Para cuidar dela, levaram o seu irmão, Leonel de Paoli, que trabalhava na banca 15. Quando fala da ajuda do sobrinho, que ele ajudou a trazer “lá de fora”, Arno se emociona. “Se eu fiz futuro, foi graça a Deus e a ele”. Para conseguir o dinheiro, Nilson Possi vendeu carro, apartamento e a fruteira que tinha. “Me tirou do fundo do poço. Não fosse isso não sei onde estaria hoje”, reconhece. 

 

 

 

 

 

       Mudando de ramo, até chegar na agropecuária

 

       No ano seguinte compraram, em sociedade, mais uma banca, a 14 – que acabou ficando com o sobrinho. Leonel ficou com a banca 1 e ele com a 46. Trabalhou com vários ramos: secos e molhados, fruteira, artigos religiosos e açougue. Diz que naqueles tempos era comum mudar de ramo, ao contrário de hoje. Finalmente, em 1977 ele parte para a agropecuária. O novo negócio foi muito bem, vendendo ração e animais como pomba, cachorro, gato, galinha, rato branco, coelho, galo, porco da índia, periquito e canários. Mas parou com essas vendas por dois motivos: o Ibama começou a pressionar e limitar as condições da venda de pássaros e o cheiro que os bichos produziam. Diz que muita gente falava para ele sobre o mau cheiro. Até que resolveu mudar tudo. Em 15 dias de faxina, arrumações, se desfazendo dos bichos, gaiolas e utensílios, tinha uma nova loja, mais limpa e bonita. E, se antes a freguesia era de compradores de passarinhos, alpistes e gaiolas, depois da mudança 90% das vendas passaram a ser de produtos para cães e gatos. Quando começou, a banca era uma das pioneiras no gênero no Mercado e na cidade.

 

 

 

 

 

       As dificuldades passadas e a vida tranquila hoje

 

       Mas como ele diz, não são só flores. Tem espinhos também. E uma fase espinhosa foi a da reforma quando, segundo ele, houve muita injustiça, principalmente com mercadeiros que já tinham 30, 40 anos de Mercado, como Luís Salami. E outros que acabaram sendo retirados da área central e colocados em lugares menos privilegiados. Ele mesmo diz que “apanhou” 10 anos do lado de fora. Mas, felizmente hoje está bem, com bons produtos para animais e uma clientela boa, antiga e nova. Sente-se muito bem e com todo o vigor, melhor “do que antigamente”. E se precisar, diz que faz o que tiver que fazer, até carregar sacos. E nos fins de semana fica “louco que chegue segunda-feira” para voltar ao Mercado. Mas hoje já pega mais leve. Ali pelas quatro horas da tarde se retira. Vai fazer esteira, academia – se cuidar. “Aqui no Mercado só tenho amizade, me dou bem com a turma toda. Nunca briguei com ninguém. Com os clientes é uma amizade comercial, brinco, cumprimento. Não gosto de entrar na vida de ninguém e não discuto futebol, religião e política. Valeu a pena, começaria tudo de novo. Posso me considerar feliz, tenho saúde, não tomo nenhum remédio, sempre trabalhei, 53 anos no Mercado, mais 10 anos na roça. E sempre honestamente”.

 

 

 

 

 

       O Mercado de outros tempos e a família

 

        “Nos tempos antigos não tinha carro aqui, só encostava carroça, trazendo sacos de arroz, feijão, batata, cebola, alho. Nos fins de semana se vendia até 15 sacos de batata de 50 quilos. Hoje não se vê mais disso. E salgado de porco é o que mais se vendia, Deus o livre! Era costela, pé de porco, courinho do porco, orelha, rabo, ossinho. E não é porque não tinha supermercado, era o hábito da feijoada mesmo”. Realizado, hoje gosta de ir para o interior passar uma semana, ir no potreiro, matar um porco, um cabrito, principalmente quando tem festas. “A vida de colono é boa. Naquela época, não. Não tinha luz, nada. Hoje está tudo asfaltado, com parabólica, TV, microondas, computador, ônibus”, diz. Do casamento, duas filhas, um homem – Ione, que toca a loja com ele e o irmão Eduardo, e Miriam, formada em enfermagem. Também a neta Rafaela de Paoli, que foi criada como filha. “Tive uma família boa, consegui dar estudo para quem quis estudar, não tenho nenhuma queixa. Claro que pretendo sair, de uma maneira de outra, a gente sai. Espero que os filhos continuem o negócio. Quando se pode fazer o que se gosta não tem nada melhor na vida”. E esta é a filosofia que ele sempre seguiu na vida.

 

 

 

 

 

 

 

Foto: Fabrício Scalco

 

 

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