Necessária visibilidade

Da série sobre as culturas formadoras do RS, finalizo nesta edição a abordagem sobre as culturas negras. Presente desde o início da ocupação e com ampla influência no RS, a população negra chegou ao estado escravizada pelos colonizadores e foi, em muitos momentos, invisibilizada na história. O momento atual é de fortalecimento da memória e cabe, então, retomar o episódio do Massacre de Porongos.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

Aconteceu em 14 de novembro de 1844 este que foi um dos momentos mais devastadores da Guerra Farroupilha. O corpo de Lanceiros Negros, acampado no Cerro de Porongos, foi desarmado pelo general David Canabarro e então atacado pelos imperiais, tendo que se defender sem o auxílio do seu próprio comandante.

Uma carta, reconhecida como autêntica pelo Arquivo Histórico do RS, registra a ordem de Barão de Caxias ao coronel do Império Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, instruindo o ataque e informando a combinação com Canabarro para eliminar os Lanceiros Negros.

“Até onde se sabe, um dos pontos que trancava a pauta de negociação de paz era justamente esse: todo o país era escravista e havia o medo da revolta ao ter um ponto do país com negros livres”, resume Pedro Vargas, historiador e museólogo. Estima-se que 1/3 do exército farrapo era de negros, muitos escravizados, que se tornaram soldados estimulados pela promessa de liberdade.

Foto: David Whittaker/Nappy

Não era possível a paz sem a abolição dos Lanceiros, mas ela colocava em risco toda a estrutura social e econômica do país, escravocrata. Havia uma divisão entre os próprios farroupilhas, ainda que a maior parte dos líderes fosse favorável à abolição. Canabarro não era. Já em 1850, Domingos José de Almeida, comandante farrapo, questionou a conduta de Canabarro levantou o debate sobre ter sido um acordo.

Há uma corrente que defende que a carta foi forjada por Moringue e Caxias para enfraquecer os farroupilhas, mas a versão mais aceita e com maior embasamento é a da traição de Canabarro. “Assim, centenas foram atraiçoados, mortos pelas lideranças beligerantes em questão. Outros igualmente morreram em batalhas subsequentes e os que sobreviveram retornaram para o regime servil a serviço do governo imperial”, conta Lúcia Regina Brito Pereira, historiadora, professora e escritora.

 

Espaços na cidade

Após a abolição, em 1888, muitas pessoas permaneceram no interior, ocupando terras de difícil acesso, mas várias foram expulsas por supostos herdeiros de terra e migraram para as cidades. “O período pós-abolição é complexo, porque não houve nenhum projeto de aproveitamento da mão de obra ativa dos negros que eram escravizados, nem do ponto de vista de educação, nem do trabalho”, observa Pedro.

“Essa população negra só conseguiu, no início, lugares subalternos, em trabalhos que ninguém queria, como em empresas de expansão de linha de trens e no porto. Nos anos 1930, começou uma pequena incorporação na polícia, ajudando a constituir a primeira linha de classe média-baixa negra. Nos anos 40, os filhos destes puderam começar a estudar.”

Em Porto Alegre, existem lugares emblemáticos da história negra, como a Redenção, onde houve um movimento do Partenon Literário para libertação dos cativos em 1884, e os bairros Mont’Serrat e Rio Branco, ocupados por negros libertos e chamados por muito tempo de Colônia Africana.

Mas em nenhum desses espaços há registros sobre isso. “Há um apagamento muito grande da memória negra na questão histórica dos lugares”, diz Pedro, que, pensando em ampliar o acesso à história negra, foi um dos idealizadores do Museu do Percurso do Negro em Porto Alegre, que conta hoje com quatro obras no Centro Histórico.

 

Cultura na capital

Porto Alegre vive um momento de valorização da diversidade do povo negro, apesar do preconceito ainda existente. As religiões de matriz africana têm grande papel na preservação da cultura, memória e tradições negras — em instrumentos, músicas, gastronomia e na língua africana yorubá dos cânticos, como destaca Cláudio Knierim, professor de História e pesquisador da área. “A cultura afro-gaúcha é resultado da luta travada por negras e negros que chegaram aqui desde muito tempo”, diz Lúcia.

“Na atualidade, ela tem um caráter político incisivo, ou seja, há um enfrentamento contra o racismo institucional e por ações que contribuam para a melhoria das condições da população negra. É um momento de reflexão e ação política.”

 

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