Naval: navegando há 101 anos

Foi uma comemoração rápida, para os amigos mais próximos e que invariavelmente estão no Naval. Alguns há algumas décadas, outros nem tanto tempo assim, mas todos com o mesmo amor pelo bar que já virou uma lenda de Porto Alegre. Como sempre acontece nos aniversários do Naval, a casa ofereceu rodadas de chopes grátis aos presentes e a noite teve uma especial participação do cantor Ari, que mandou ver alguns clássicos da música brasileira, algumas inclusive de um dos grandes frequentadores do Naval, o imortal Lupicínio Rodrigues.

Diálogo registrado nas comemorações dos 101 nos do Naval, entre Antônio Branco, filho de Antonio Lopes Branco, que comandou o Naval até 1961, antes de João Fernandes.

Antonio Branco (referindo-se a Paulo Naval): O cabelo dele era puxado para trás, tipo Tony Curtis, era galã!

Paulo Naval: Comecei aqui numa segunda feira, 9 de janeiro de 1957. No sábado seguinte conheci ele, Antonio, e dali em diante a amizade se perpetuou. Porque o amor termina, mas amizade se perpetua.

Branco: Quando ele chegou aqui foi unanimidade, porque meu pai, minhas irmãs, todo mundo se encantou com ele, ele  captava simpatia.

Paulo – E o seu Antonio Lopes Branco, o pai dele, era de regime ditador, não brincava com qualquer um. (imita sotaque português) “Primeiro mêssss trazzz tua carteira”, dizia. Eu ficava parado e ele atirava rolhinhas na cabeça. Ele ficava parado, pá, mais rolhinhas, bem sério, eu fazia que não via, mas sabia que era ele. Naquela época eu só tomava guaraná e todo funcionário tinha direito a tomar um chope ou um clarete de Castelo. Mas eu não bebia. Aí ele disse pra dona Maria, que era gerente na época: “Mas este menino é “fresco”! Aí comecei a tomar chope, vinho e até me tornei um grande borracho. Agora dei um tempinho…”

Branco: Eu trabalhava aqui aos sábados e metade das minhas férias, porque trabalhava noutra empresa, e o meu pai nunca quis me puxar para cá. Era um movimento muito grande isto aqui. No verão, era no mínimo, 250 litros de chope por dia. Era a segunda casa que mais vendia chope, a primeira era o Chalé. Teve uma véspera de natal que ele vendeu 12 barris, uma coisa inacreditável. Cada barril de 50 litros durava 40 minutos!

Paulo: Eu chegava e pedia: 12 chopes, 6 chopes, 18 e 24 chopes! O falecido pai dele era um exímio tirador de chope. Naquela época tinha os autênticos tomadores de chope, alemães. Chegava sexta-feira eram 42 alemães. O que tomava menos tinha a minha idade (72 anos), tomava 12, 14 chopes. O Alberto Funck era 38, 40 chopes os outros, 16, 18 chopes. O sinal de que tinham parado era quando botavam a bolacha do chope em cima do copo.

Branco: Sempre que venho no Centro, venho tomar um chope no Naval para matar para a saudade.

 

Registro: gente da noite do Naval

Mauro Silva – 40 anos de Naval

O Naval é uma família, uma grande convivência com os amigos, os parceiros. Toda a vida fiz amizades aqui, tenho que passar aqui, assinar o ponto, tomar a água benta.

 

Danilo Caniz – Freqüentador

Venho no Naval há 10 anos. Fiz grandes amizades aqui. Parcerias bacanas, além de ser amigo do Luciano, do seu Paulo, e do Mauro.

 

Agapito – 50 anos de Naval

Estou com 85 anos. Freqüento desde 1957, fui estivador, vinha aqui quase todas as noites. Gostava do ambiente, tinha muita mulher linda naquele tempo, sentavam quatro, cinco delas, numa mesa. O Naval, naquela época era freqüentado por gente mais elitista, as mulheres, professores. Tinha conta corrente aqui, pagava no fim do mês, trocava cheque – o Paulo já era garçom aqui. Do que eu tenho saudade? Da minha juventude! Tinha parado de freqüentar porque vinha aqui e não encontrava mais gente do meu tempo. Eu só tomo da “forte”, não tenho muito interesse por cerveja. Tomando da “forte”  a gente fica embalsamado!

 

 

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