Na encruzilhada do Mercado Público, a Pedra do Bará*

Reza a lenda que existe uma pedra, “assentada” no centro do Mercado Público, onde se cruzam os caminhos, que é invisível e intocada.
“Essa pedra é o elemento mais sólido que aqui existe. É ela o cimento que agrega gerações de negros e negras, que aqui passaram como escravos, alfor­riados, marítimos, boêmios, artistas, políticos, cidadãos e que não possuem monumentos nem tão pouco nomes de ruas”, escreveu o historiador Pedro Vargas em um dos banners da exposição “O Bará do Mercado”, realizada pelo Memorial do Mercado.
Bará é o protetor dos templos e dos mercados, “o sopro de vida que anima os homens, o tradutor que dá aos humanos o discernimento para entender a palavra dos orixás”.

 

O assentamento na encruzilhada do Mercado Público

Ainda segundo textos da exposição, “assentar significa fixar o orixá em determinado objeto, geralmente pedras, e usando rituais específicos. Esse objeto também chamado de ocutá foi assentado bem ao centro do Mercado onde este forma uma encruzilhada. O orixá assentado é o Bará, que rege os caminhos, o trabalho, a fartura e o início de todas as coisas. Por este motivo, no Mercado Público é feito um dos rituais mais importantes: a iniciação dos filhos de santo na religião afro, que também recebe o nome de “passeio”. Neste, os religiosos cumprem o traçado do prédio entrando pelo Largo Glenio Peres e saindo pelo lado oposto, na Av. Júlio de Castilhos (que antigamente era próximo do Lago Guaíba, o que permitia fazer oferendas para o orixá das águas). Seguindo, entram, novamente, pelo portão da Av. Borges de Medeiros e saem pela Praça Parobé, simbolizando a busca por novos caminhos. Este traçado acima relacionado foi levantado a partir 16 entrevistas com pais de santo, realizadas entre 1991/92 com depoimentos diversos e até mesmo contraditórios. Porém, para fins de pesquisa, foram considerados os relatos que apareceram com maior freqüência.

O Mercado Público é o primeiro lugar onde são realizados os rituais em função de ser o Bará o primeiro orixá a ser cultuado/reverenciado no “panteon” africano. Estando “enterrado” no Mercado, o orixá pode ser visitado, cultuado e receber oferendas dos adeptos do batuque, “religião peculiar no RS.” Além do “passeio”, muitas pessoas fazem visitas ao Mercado para receber a força mística ou axé, que está no seu centro. Este axé ou energia se renova a cada visita, sendo considerado o mais forte da cidade por ser mais antigo. Quando os pais-de-santo compram no Mercado, os produtos necessários para a prática de rituais religiosas, tais como peixes vivos, mel, azeite de dendê, entre outros, dizem que estão levando junto a força mística ou o axé do Bará que está assentado.

 

O ritual do passeio no Mercado

“As pessoas entram no mercado, “passeiam” os quatro pontos. Dependendo de cada nação tem lá o seu ritual próprio”, segundo depoimento de Ademar Silva. Já o pai de santo Lindomar Alves informa que o primeiro lugar que o religioso visita, depois que “levanta do chão” é no Mercado. Os babalorixás prontos fazem um reforço espiritual para o seu anjo da guarda, para o seu orixá, segundo ele. O “passeio” é feito entrando pelo Largo Glenio Peres, saindo pela Av. Júlio de Castilhos para reverenciar o orixá das águas. Retornam pela Av. Borges de Medeiros e saem, novamente, pela Praça Parobé que antigamente, era o Caminho Novo (Av. Voluntários da Pátria), justamente para abrir novos caminhos.

 

Os mercados no Brasil e na África

Na África o mercado representa, nas aldeias, um ponto central de convergência, onde as pessoas se reúnem para trocar idéias e abordar temas variados. As trocas efetuadas nos mercados dizem respeito à vida comum como intrigas, amizades, novidades, o que significa movimento e assim se subordinam ao Bará, segundo informa Pedro. Já o número quatro é sagrado para os africa­nistas. No próprio Mercado podem ser encontradas constantes referências na arquitetura do Mercado: quatro fachadas, quatro aberturas. Seu corpo principal é constituído por dois quadrados sobrepostos, quatro são as entradas que lhe dão acesso, quatro são as vias em que circulam os freqüentadores. Detalhes importantes que evidenciam a possível interferência africana na sua concepção, segundo informações de Adalberto Pernambuco Nogueira no artigo “Os Mercados e as Religiões Afro-Brasileiras no livro “Mercado Público: 1869-1996”.

 

O BARÁ – ALU-PÔ

Bará é o dono dos caminhos e dos cruzeiros, ou encruzilhadas, simbolizando movimento. Dependendo de como é tratado pode abrir ou fechar os caminhos das pessoas. Seus símbolos são a chave, a foice, a corrente de ferro. Em sua oferenda se colocam moedas. Animais: galo vermelho, cabrito escuro novo, pombo escuro. Vegetais: fumo, quebra-tudo, cravos vermelhos. Cor: vermelha. Colar: corrente de ferro. Saudação: alu-pô.

 

*Baseado em textos da exposição
“O Bará do Mercado”, do Memorial do Mercado

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