Museu de Percurso do Negro, os passos da memória negra em Porto Alegre

Fotos: Emílio Chagas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Centro Histórico, por Emílio Chagas

 

Pedro Vargas, historiador e um dos idealizadores do Museu do Percurso do Negro, trabalha atualmente na Pinacoteca Rubem Berta, depois de passagens por equipamentos culturais da cidade, como o Museu de Porto Alegre e o Memorial do Mercado Público, entre outros.  

 

Ele começa informando que a proposta, surgida como uma demanda da Temática da Cultura do Orçamento Participativo, passou a ser discutida em 1997. No início, não era exatamente o Museu, mas o Centro de Referência Afro-Brasileiro (CRAB), que agregaria todas as atividades artísticas e a documentação do negro em Porto Alegre. “Então, a Secretaria da Cultura, onde eu trabalhava na época (no Museu de Porto Alegre), me designou para contribuir na organização desses debates.” A demanda do CRAB, sistematizada pela então Coordenadoria do Povo Negro, sob o comando de Luiz Alves Bittencourt, o histórico militante negro “Lua”, partiu de várias entidades do movimento negro. Pedro lembra que foram realizados alguns debates – e, já no primeiro, ele próprio sugeriu que uma das ações iniciais do CRAB deveria tratar da questão do patrimônio cultural negro, porque na época estava se apagando a memória negra na cidade. “Não havia nenhum registro, como placas, monumentos, e os mais antigos estavam morrendo. Todas as entidades participantes acharam que isso era um assunto relevante, devendo ser a ‘política da memória’ uma das principais atividades. Poderia ser um livro relatando a memória de pessoas mais velhas, mas eu insistia que teria que ser uma coisa dentro do patrimônio material, já que a nossa tradição é conhecida só pela cultura imaterial.” A partir daí, segundo ele, se avançou na ideia de marcar pontos na cidade, registrando as referências negras. Ele cita o exemplo do Parque Farroupilha (a popular Redenção), sobre o qual se falava muito na época. Era um ponto crucial, que fazia a ligação entre os territórios negros Areal da Baronesa com a Colônia Africana (atual Bairro Mont’Serrat) – duas tradicionais áreas habitadas por negros. “Todo mundo chama de Redenção, mas poucos sabem a razão deste nome”, diz, acrescentando que, em 1884, se chamava Campos da Várzea, até que o Partenon  Literário passou a fazer atos no local para arrecadar dinheiro para a carta de alforria dos escravos, quatro anos antes da Lei Áurea. Em função disso, passou a ser denominada de Campos da Redenção. “Até hoje lá tem recantos budista, grego, oriental, mas do negro não tem nenhuma referência, a não ser uma pequena placa que foi colocada mais tarde. Nem na Colônia Africana, não tem nenhuma referência, como se os negros não existissem no espaço urbano da cidade”, registra Pedro.

Os marcos negros na cidade

A partir destas constatações, concluiu-se que era necessário construir marcos físicos, como monumentos, para delimitar estes pontos. Assim, surgiu a ideia do Museu de Percurso. Anos mais tarde, a arquiteta Helena Machado, junto com outros grupos, reivindicava que a proposta fosse encaminhada na Temática da Cultura com um pedido de verba para viabilizar o Museu – mas isso também não ocorreu. O projeto ficou muito tempo parado, até que, a partir 2002, com a vinda do Programa Monumenta para Porto Alegre, ele começou a ser viabilizado. O Programa fez levantamentos com grupos da população e entidades na região central da cidade para traçar um mapa estratégico de ações. E encontrou a proposta do Museu nos Congressos da Cultura de 2003. “A demanda foi apresentada novamente por alguns técnicos e representantes do movimento negro e entrou nas medidas do plano estratégico.” Novos entraves, porém: para a sua realização, seria necessário uma série de ações, como contratar pessoas, artistas, historiadores. Surgiram ideias, como chamar a UFRGS ou a PUCRS, por exemplo. Mas, segundo Pedro, o movimento negro foi contra, pois poderia perder a liderança do processo. “Então foi criado um conselho gestor, formado por seis secretarias da prefeitura e seis entidades do movimento, responsável pelos contratos e definições.”  O projeto cresceu, incorporando outros valores civilizatórios, como o Projeto Griô, gerando uma pesquisa antropológica feita pelo professor Iosvaldir Bittencourt Jr, onde foram mapeados 10 pontos importantes da sociabilidade negra do século XIX até a história contemporânea. O conselho escolheu quatro deles, que a seguir foram construídos: primeiro, o Tambor, localizado na praça Brigadeiro Sampaio, área de grande simbolismo negro, remontando aos tempos da escravização, depois a Pegada Africana, na Praça da Alfândega (reduto negro, das quitandeiras), o marco do Bará do Mercado Público, símbolo máximo das entidades religiosas de matriz africana e, por último, o Painel Afro-Brasileiro, junto ao Chalé da Praça XV.

 

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