Mulher gaúcha

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Como a mulher é representada pelo tradicionalismo gaúcho? Das letras de canções ao papel histórico, da definição da prenda ao atual protagonismo feminino, uma breve reflexão sobre a representação da mulher na cultura gaúcha – a partir de conversas com Clarissa Ferreira, violinista, etnomusicóloga e autora do blog Gauchismo Líquido, e Nairioli Callegaro, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).

A questão da representação feminina na cultura gaúcha ficou em evidência depois de uma postagem da apresentadora e cantora Shana Müller sobre o machismo presente em certas letras de músicas – muitas bastante recentes, várias “coisificando” e outras até incentivando a violência contra a mulher, como a canção “Morocha” (Mauro e Roberto Ferreira). Longe de ser brincadeira, elas carregam um posicionamento que coloca a mulher em lugar menor e incentiva o preconceito. Mesmo frente a tantas obras do cancioneiro gaúcho que são belas e nada ofensivas, e que não eram o alvo das críticas de Müller, diversas pessoas bradaram que ela estava sendo contrária à tradição. Isso levantou a questão: como é esta representação feminina no tradicionalismo e por que sua mudança é tão atacada? Com tantas mulheres em posição de liderança e escolhendo seus rumos fora dos papeis preestabelecidos, a figura da prenda já foi há muito atualizada no dia a dia de muitas gaúchas – mas acontece que sua representação formal ainda não foi. E continua influenciando formas de pensar e de agir no tradicionalismo.

 

NO INÍCIO

Ilustração: Iuri Lang

“O tema era um tabu no ambiente da cultura gauchesca pela imaginável represália advinda de pensamentos conservadores e retrógrados, que desconhecem o conceito de cultura como algo em constante transformação”, comenta Clarissa Ferreira. Em seu mestrado, ela pesquisou a música gaúcha tradicional dos festivais. “Pude concluir que a cultura gauchesca foi construída e alicerçada a partir das representações do masculino. Logo, a ausência da mulher na representação da identidade gauchesca nos fala mais sobre esta identidade do que sua presença”, observa. É fácil comprovar: quando se fala “cultura gaúcha”, o que vem à mente? Fundado por homens numa época em que mulheres não tinham voz, o tradicionalismo tem como temas recorrentes atividades disseminadas como masculinas, como feitos em guerras e trabalhos no campo. Para as mulheres, restaram as esperas das guerras e a beleza.

 

MÃE E ESPOSA

Citando Roberto Da Matta, Clarissa explica que a figura masculina é predominante em locais que tiveram suas identidades forjadas por questões políticas – exatamente o caso do Rio Grande. É só pensar que a Revolução Farroupilha é um marco-base desta cultura. A integração da mulher ao movimento aconteceu um ano depois de sua fundação, após visita à sociedade uruguaia Elias Regule, da qual elas participavam: “Ao voltarem ao Rio Grande, os fundadores agregaram ao processo esposas, mães, namoradas e irmãs, enfim, todas. Podemos notar que isso foi logo na largada do movimento, portanto, as mulheres foram agregadas e começaram, de forma tímida, mas participativa, a construírem as bases. A partir deste ingresso, efetivamente, o movimento transforma-se em um grande movimento familiar, graças à participação da mulher”, conta Callegaro. Assim, ela recebe destaque quando assume o papel de mãe e esposa, tanto que a família foi a base para sua representação no tradicionalismo através da figura da prenda [quadro].

 

TRADIÇÕES SÃO DINÂMICAS

Mudanças, ainda mais quando se trata do tradicionalismo, não são rápidas. “Seguimos um modelo adotado na época, o tradicionalismo como um todo tem muitas questões ‘inventadas’. Seguimos as pesquisas e os complementos deste processo de criação e descoberta do movimento. Nada é absoluto, somente o que foi pesquisado e comprovado”, esclarece o presidente do MTG. “Talvez em um dado momento o vestido e outras questões como estão postas fiquem desta forma – por outro lado, podem ser revistas algumas questões, conforme é o nosso método: discutindo, debatendo e combinando. Como digo, a mulher vem continuamente implementando sua vontade e mudanças necessárias, e isto é extremamente saudável para o movimento”, declara Callegaro. Pesquisas históricas, aliás, vêm revelando mulheres que fogem da figura-padrão pensada e estabelecida para a prenda.

 

MULHERES HISTÓRICAS

“Sabemos, através da historiografia, que a atuação das mulheres foi fundamental para a formação do estado. Apesar do Rio Grande do Sul estar alicerçado em uma cultura patriarcal, sabemos da atuação das mulheres nas organizações administrativas e econômicas em períodos intensos de guerra, além das atividades relacionadas às mulheres como maternidade e criação dos filhos”, resume Clarissa. Para ela, trazer a público o protagonismo feminino ocultado ao longo do tempo ajudaria na reconstrução da representação da mulher na cultura gauchesca – e ela cita como exemplo os casos narrados por Antônio Augusto Fagundes no livro “As santas prostitutas”, que despertaram devoção popular por mulheres que viviam marginalizadas devido a seu comportamento fora dos padrões sociais esperados.

 

TOMANDO POSIÇÕES

Dentro do próprio movimento tradicionalista, a participação feminina tem crescido, incluindo na patronagem de CTGs. “De apenas figurante aos dias atuais, em funções de liderança e cargos diretivos, tomando posições e desenvolvendo atividades que ora só eram feitas por homens. Temos hoje, por exemplo, um número crescente de mulheres laçadoras nos rodeios”, exemplifica Nairioli. “Acredito que este processo de participação, e falo em funções de liderança, deveria ser maior e mais efetivo. Mas acompanha o quadro evolutivo de nossa sociedade da participação da mulher”, diz. Um quadro com grandes transformações culturais e sociais, que inclui a conquista da mulher em diferentes espaços, do mercado de trabalho às artes. “Creio que o evidenciamento dos temas a respeito do feminismo nos últimos anos trouxe à tona o pensar sobre essa questão e problematizar o lugar da mulher em nossa sociedade e também na cultura gauchesca”, diz Clarissa. “A reflexão e o conhecimento sobre o que está por trás dessas representações é, sem dúvida, o passo inicial para uma mudança no paradigma cultural do Rio Grande do Sul.” Mudança para evidenciar o papel social da mulher, que é ativo e histórico. Assim, cada vez mais jovens poderão sentir-se parte de uma tradição que as representa hoje. Afinal, a prenda é mais que a companheira do gaúcho – é gaúcha, protagonista de sua própria história.

 

 O comportamento associado à prenda está ligado a delicadeza e recato. “E com vestimentas que colaborem com esta imagem, como os vestidos e saias longas, que também representam um tempo passado, como damas da sociedade do século XIX”, sublinha Clarissa. O processo de escolha da vestimenta-padrão das prendas é narrado por Barbosa Lessa em seu livro “O Nativismo” (L&PM, 1985, p. 66): “E como é que é o vestido das moças? Como modelo, aproximado, só havia os vestidos caipiras, das festas juninas de São Paulo […] Paixão (Côrtes) encasquetou que deviam ser vestidos compridos até os tornozelos; eu argumentei que se nós, rapazes, estávamos trajando nossas costumeiras bombachas, não carecia que as moças se voltassem para tão longe nos antigamentes; isto não chegou a ser posto em votação, mas o bigodudo Paixão nos venceu pelo cansaço”. “Esta colocação certamente mostra como a representação feminina no gauchismo foi construída a partir de alguns entendimentos, e como ela até hoje vem sendo multiplicada”, afirma Clarissa. O trecho de Lessa, por si só, esclarece o que passa batido para muitos: o fato de que as tradições gaúchas não são naturais, são uma construção de um grupo de jovens pesquisadores que institucionalizaram o tradicionalismo nos anos 1940. E o próprio Lessa indica, no mesmo livro, que as tradições são dinâmicas: “Até onde nos fora possível chegar, chegamos. E, de lá para cá, continuou o tradicionalismo evoluindo, como a confirmar que ninguém pretende ficar estagnado no passado” (p. 68). O passado é a referência, mas é a avaliação do presente que constrói o futuro.

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