Motim na Praça Quinze

   MOTIM  NA PRAÇA QUINZE

Por Sérgio da Costa Franco

     Em verdade ainda não existia a Praça Quinze. Nem sua antecessora, a Praça Conde d’Eu. Nem o primeiro Mercado Público, que só ficou pronto em 1844. Era ainda o Largo do Paraíso, um espaço meio alagadiço, limitado de um lado pela Rua de Bragança, hoje Marechal Floriano, e ao Sul pela Rua do Paraíso, também conhecida por Rua da Polícia, atualmente José Montaury.

     Era 1839, agosto, e a cidade estava sitiada pelos farrapos, pela terceira vez. Forças do Exército Nacional, numerosas, defendiam a capital contra os atacantes. Entre elas, o 2° Batalhão de Caçadores, aquartelado no Largo do Paraíso. Mas sucedeu que uma mudança de comando, com a nomeação do Major Joaquim Pedro Berlink (tio do escritor e jornalista Eudoro Berlink) desagradou a tropa. Esta, indisciplinadamente, opôs-se à transmissão do comando, promovendo um vozerio de protesto contra o novo chefe.
     Nem um toque de “silêncio”, nem a posterior intervenção do coronel comandante da la. Brigada de Infantaria conseguiram serenar os ânimos. Veio então a repressão superior. Pouco depois do meio-dia, o largo foi ocupado por quatro batalhões de infantaria, armados e municiados, pelo corpo de alemães vindos de São Leopoldo, um esquadrão de cavalaria e duas peças de artilharia de campanha, carregadas e preparadas para a ação. O próprio presidente da Província, Dr. Saturnino Oliveira, compareceu com seu estado-maior.
     Houve, então, a  intimação da força amotinada, para que depusesse as armas e abandonasse o quartel. O que foi prontamente obedecido. Apartaram-se, então, os cabeças do motim, em número de 14 ou 16, conforme um cronista da época. Ao som de música da banda militar, os líderes do movimento receberam 200 a 250 pranchadas de espada, e os de menor culpa, 100 a 150.
     Tudo foi assistido por uma pequena multidão de mais de 200 pessoas, sendo o 2° Batalhão, logo em seguida, embarcado de castigo para a Ilha do Junco, a fim de ali guarnecer a comunicação entre a Lagoa dos Patos e o Guaíba. Multidões maiores não seriam possíveis na pequena cidade de então. Mas as 200 já antecipavam as massas que na atualidade lotam por vezes o Largo Glênio Peres.
     Esse episódio, que assinala os antecedentes históricos da nossa Praça 15 e do largo do Mercado, está narrado, com mais detalhes, em meu livro “Porto Alegre Sitiada”, ed. Sulina, 2000.

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