Mosaico faz do Bará do Mercado um marco definitivo

Terceiro marco do Museu do Percurso do Negro, projeto criado para marcar a presença negra em Porto Alegre – o primeiro foi o Tambor, na Praça Brigadeiro Sampaio, o segundo a Pegada Africana, na Praça da Alfândega – foi inaugurado, neste verão: o mosaico demarcatório do Bará do Mercado.

Segundo a tradição, os escravos assentaram um Bará no cruzeiro central do Mercado, durante sua construção, por ser um centro de abastecimento e fartura. Um dos seus objetivos é para que, quem por ali passasse, fizesse seus pedidos e oferendas para que nada faltasse na mesa da sua família. Indicado como Bem Cultural de Natureza Imaterial de Porto Alegre, o Bará do Mercado, foi aprovado pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural (COMPAHC) e será inscrito como patrimônio cultural no Livro de Registro dos Lugares, por iniciativa de Mãe Norinha de Oxalá junto à Secretaria Municipal da Cultura. A obra, concebida pelos artistas Leandro Machado e Pelópidas, teve a sua execução a cargo do ateliê Mosaico Leonardo Posenato e do arquiteto Vinícius Vieira: “Trata-se de um arranjo com sete chaves, que envolve as cores vermelha e amarela, que dentro da religiosidade de matriz africana representa a harmonia e a solidariedade. As pessoas, ao passarem pelo Mercado, jogam sete chaves em homenagem ao Bará, para irradiar prosperidade e fartura”, diz Vinícius. O mosaico foi feito de granito e as chaves de bronze, com intuito de reforçar a questão da territorialidade local. Tanto o granito vermelho, como amarelo são pedras originais do próprio Rio Grande do Sul. A proposta, segundo ele, está inserida dentro da qualificação do Mercado, que faz parte do programa de revitalização do Centro Histórico.

 

Foto: Letícia Garcia

A tradição do Bará

A ação também afirma o Museu de Percurso do Negro, concebido pelo historiador Pedro Vargas, na linha histórica que está sendo construída, visibilizando a comunidade afrobrasileira negra na cidade de Porto Alegre. O primeiro marco foi o Tambor, concebido por seis artistas, também com participação de Vinícius na execução, arquiteto que viria a ser o responsável pela criação e execução do segundo marco, a Pegada Africana, na Praça da Alfândega. O Bará do Mercado se constitui como lugar de referência para religiosos de matriz africana. Ali, no centro do Mercado, ocorre uma manifestação religiosa denominada Passeio e é o lugar de morada do orixá Bará. Esse orixá é compreendido como Senhor das Encruzilhadas, capaz de abrir e fechar caminhos. Saudar e cultuar o orixá Bará no Mercado Público com a intenção de obter fartura, abundância, prosperidade e a abertura de caminhos tem sido uma prática dos adeptos das referidas religiões, presente na história da cidade por mais de um século. Esta manifestação cultural, étnica e religiosa é uma marca histórica da territorialidade negra e da religiosidade afrobrasileira na cidade de Porto Alegre e reafirma a espiritualidade do Mercado.

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