Monumentos ao descaso

Monumentos ao descaso

O primeiro passeio do Programa Viva o Centro a Pé alertando para o vandalismo e roubos dos monumentos da capital foi no Parque Farroupilha, a popular Redenção, onde a maioria deles se encontra depredada e vandalizada, sendo que muitos foram roubados. Numa segunda edição, o passeio se estendeu para o Centro Histórico, onde a situação é ainda pior, embora muitos estejam em bom estado de conservação.

A Samaritana, abandono completo 

A saída foi no Paço dos Açorianos, em frente à Prefeitura Velha, quando um grupo de aproximadamente 100 pessoas seguiu o professor de Escultura do Atelier Livre da prefeitura, José Francisco Alves, autor do livro “A Escultura Pública de Porto Alegre – história, contexto e significado” (2004), entre outros. Das escadarias da velha prefeitura, o professor discorreu sobre a Fonte Talavera, hoje cercada depois de dois atentados de vandalismo, que inutilizou, inclusive, sua bacia original. Foi um presente da comunidade espanhola no centenário da Revolução Farroupilha, em 1935. Trata-se de um chafariz cerâmico, riquíssimo em detalhes, que substituiu outro monumento igualmente importante na memória escultórica da cidade, a Samaritana, transferida posteriormente para a Praça da Alfândega. Foi restaurado em 2000 e em seguida vandalizado quando a fonte anterior não pôde mais ser recuperada. A peça original, quebrada, está guardada hoje na Pinacoteca Municipal. A autoria é do artista espanhol José Ruiz de La Reina.

 

Os monumentos da Praça da Alfândega

 

Chafariz da estátua do Gal. Osório: há muito tempo desativado 

Outro monumento importante, mas pouco visto, é do Barão do Rio Branco, de 1916, situado em frente ao belo prédio dos antigos Correios, hoje Memorial do Rio Grande do Sul. Este monumento foi restaurado no processo de revitalização da Praça da Alfândega pelo Programa Monumenta. “A obra faz parte daquela febre do começo do século XX, quando a forma de homenagear pessoas importantes que morriam era construir um monumento”, informa José Francisco. Alfred Adloff, considerado um dos maiores escultores daquele período, ao lado de Antonio Caringi, foi quem projetou o monumento. A obra traz referências à figura da República (que teve um braço arrancado) e das mais sofisticadas placas dos monumentos de Porto Alegre, algumas roubadas junto com outros elementos. Outro monumento importante que também está na Praça da Alfândega é o do Samaritana, uma estátua hidráulica que cumpre a função de fonte (embora esteja abandonada). “Ela entrou para a história da cidade como Samaritana pelo folclore, pois ela não foi feita com este propósito”, informa o professor. A estátua equestre do General Osório fecha o trio dos mais importantes monumentos da praça, inaugurado há 81 anos. O vencedor do concurso para projetar a obra foi o estatuário paulista Hildegardo Leão Velloso.

Monumento a Júlio de Castilhos, no detalhe, pichação agressiva 

 

Símbolo da memória gaúcha diariamente agredido

 

O Monumento a Júlio de Castilhos é um dos mais importantes do estado – e um dos mais agredidos, principalmente com pichações. Com 101 anos de existência, homenageia o grande político positivista gaúcho. Com muitos elementos simbólicos, apresenta uma complexidade ímpar, concebida pelo pintor e escultor Décio Villares. Outros dois importantes nomes também contribuíram para a obra: Affonso Hebert, que supervisionou seus alicerces, e Jacob Aloys Friedrichs, na parte da cantaria. O monumento reproduz três momentos da vida do caudilho: a fase da propaganda republicana, a da organização do governo positivista e a fase posterior à sua retirada do governo. Ele foi todo modelado em Paris, a partir de uma técnica muito sofisticada (e cara), chamada cera perdida, explica José Francisco. Esse processo foi bastante demorado, durando aproximadamente 10 anos. No local, existiam outros sete monumentos, um deles considerado pelo professor tão importante quanto o atual: o chafariz de mármore de Carrara, importado da Itália, que tinha como função garantir o abastecimento de água da região. Este chafariz, de 1860, era composto por quatro estátuas, representando os rios que deságuam no Guaíba. “Foi uma pena, porque ele seria o maior monumento de mármore do Brasil”, lamenta o professor. O Monumento a Julio de Castilhos possui mais de 25 metros de cumprimento, repleto de elementos positivistas e cívicos. Uma de suas curiosidades é que ele apresenta a primeira estátua equestre do Rio Grande do Sul, e possivelmente também a primeira a mostrar a fi gura de um gaúcho. Na parte superior, símbolos da República e Revolução Francesas, inclusive com uma réplica da Bastilha. O monumento, em estado deplorável, em plena Praça da Matriz, onde estão os três poderes, aguarda um restauro. Urgente.

 

Fotos: Emílio Chagas

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