Monsenhor João Ermillo Weizenmann – Vivências de um capelão da Santa Casa

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Monsenhor João Ermillo Weizenmann – Vivências de um capelão da Santa Casa

O seu trajeto é, há anos, da Cúria Metropolitana, onde mora e é vizinho do arcebispo Jaime Spengler, até a Santa Casa, onde trabalha com o capelão, levando assistência espiritual aos enfermos. Aos 87 anos, continua seu trabalho diariamente, principalmente no Hospital Santa Rita, que integra o Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia. Natural de Arroio do Meio, chegou à capital gaúcha no distante 1959.

 

Padre diocesano (aquele que atua nas paróquias), veio para a Santa Casa há 16 anos. Era, então, vice-reitor do Seminário de Viamão. “Vim para ajudar na área religiosa. A Santa Casa tinha padres da ordem jesuítica. Meu trabalho é de capelão, rezo missas, atendo pacientes no hospital, mas não para pensar na religião católica, e sim dar apoio aos doentes, sejam eles católicos, evangélicos ou muçulmanos.” Até ir para o Seminário de Viamão, passou por várias paróquias, sendo também Vigário Geral quando Dom Cláudio Colling era o arcebispo de Porto Alegre (que sucedeu Dom Vicente Scherer) na Catedral Metropolitana, onde hoje ainda ajudar a rezar missa. Ele recorda: “Em 1982, Dom Vicente foi escolhido pelos Irmãos da Irmandade Santa Casa para dar a sua colaboração como Provedor, que ocorreu durante 14 anos, até 1996. Estávamos em reunião com Dom Vicente quando desceram a Rua Espírito Santo (ao lado da Cúria) os funcionários da Santa Casa: ‘Dom Vicente, Dom Vicente, os funcionários da Santa Casa também são gente’”. Na época, a entidade atravessava uma grave crise financeira, a ponto de não garantir nem os salários dos seus servidores. “Pensei comigo mesmo que Dom Vicente iria enfrentar grandes crises na administração Santa Casa”, acrescenta Monsenhor João Ermillo.

 

Salvando a Santa Casa

 

Fundada em 1803 como Hospital da Caridade de Porto Alegre, e depois em 1814 elevada ao status de Santa Casa de Misericórdia, tem uma origem que se confunde com a história da cidade. No período em que Dom Vicente assumiu sua gerência, estava em situação precária, exigindo obras de reformas, restauro e gerência de gestão. “Ela estava no chão, arrasada”, resume o Monsenhor. Ele diz que Dom Vicente começou, então, uma grande campanha para a sua recuperação financeira e física, envolvendo o governo do Estado e a população. Lembra que o bloco cirúrgico do hospital São Francisco foi doação da arquidiocese de Colônia, Alemanha. Um trabalho que João Ermillo acompanhou de perto, mesmo tendo ficado na Cúria. Ele precisava se reunir com Dom Vicente com frequência para tratar de assuntos relativos à Cúria. E depois, já na Santa Casa, viu também todo o crescimentodo Complexo Hospitalar, a partir da nova gestão do Provedor José Sperb Sanseverino: a ampliação do Hospital Santa Rita, a construção dos hospitais Dom Vicente (de transplantes, único na América do Sul) e Hospital da Criança.

 

As muitas histórias de um Capelão

 

            O Monsenhor tem um pequeno “livro”, encadernado onde conta toda a sua trajetória e muitas histórias vividas junto aos pacientes. “Tenho vários exemplos, fatos que marcaram muito. Por exemplo, o de uma paciente que estava sem as duas pernas e com câncer, sempre alegre, contente, fazendo balainhos de papel de jornal. Um dia entrei no seu quarto e ela estava triste. Disse, ‘D. Maria o que aconteceu’? Ela respondeu que estava triste porque seu marido tinha baixado o hospital, doente, e ela não podia estar lá para ajudá-lo. Imagine, uma mulher sem pernas, com câncer, se preocupando com outra pessoa doente. Isso é grandeza.” Assim como este, ele tem vários outros casos – como o de um jovem advogado que não queria ser doador e acabou no hospital de transplantes para receber um órgão, ou o de uma muçulmana que aceitou uma oração sua para seu filho hospitalizado, desde que invocasse Alá, e de quem acabou recebendo um exemplar do Alcorão. Em relação à Cúria, diz que a restauração parou por falta de verba. “Das quatro alas, duas ficaram prontas, mas ainda falta muita coisa – hoje sou apenas morador”, diz. A atual Cúria era o antigo Seminário, no começo do século XX, dirigido por capuchinhos para formar os padres diocesanos. Nesses anos todos, viu muitas mudanças no trajeto diário Cúria-Santa Casa. “Houve uma época que a gente não tinha consciência, tanto o governo como a população, aquele senso de preservação. E a Cúria tem que ser preservada porque é um prédio muito bonito.” Prestes a fazer 88 anos, ele se diz realizado com o seu trabalho nestes 16 anos. “Vim por pouco tempo e foi uma das experiências mais bonitas depois de 58 anos de padre, uma coisa muito gratificante”, conclui.

 

 

Na próxima edição: Centro Histórico Cultural Santa Casa

No próximo mês, o espaço completará um ano de existência. A Santa Casa é, segundo a diretora de marketing Jaqueline Bianco Borges, talvez o único hospital no mundo que tem um centro cultural. Além de teatro para apresentações musicais e cênicas, o Centro Histórico Cultural Santa Casa, possui espaços como arquivo, biblioteca, bistrô, loja especializada em arte e história, área para cursos e palestras e para exposições.

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