Missões Jesuítico-Guaranis

Foto: Banco de imagens da Setel-RS

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

As comunidades sociais religiosas criadas por jesuítas nos Sete Povos das Missões e sua herança para a cultura rio-grandense.

 

Foi no tempo em que o Rio Grande do Sul era território espanhol. Nos séculos XVII e XVIII, a Companhia de Jesus veio ao Novo Mundo difundir a fé cristã. Aqui criaram as missões, ou reduções, comunidades de índios guaranis organizadas e lideradas por padres jesuítas. Catequizar, controlar e defender os indígenas estava nos objetivos. Esses missionários agiam em nome da Coroa espanhola. Como a conquista militar das tribos que se estendiam na bacia do Rio da Prata seria penosa e talvez impossível, as missões, inicialmente, eram uma forma de conquista pela espiritualidade, e que colonizava a região com os próprios nativos. Aos jesuítas, interessava a conversão religiosa e o compromisso humanitário. Os guaranis, em guerras com outras tribos e expostos à exploração colonialista, aceitaram a proteção das reduções. Aqui no estado, estabeleceram-se pela primeira vez com o padre Roque Gonzalez em 1626, que transferiu sua missão para Tape, norte gaúcho, para fugir de bandeirantes. Depois disso, criaram 18 missões nesta primeira fase, interrompida por novos ataques bandeirantes, à caça de índios para escravizar. Os jesuítas abandonaram o Tape, e o gado que haviam trazido com eles ficou solto no pampa. Mudaram-se com os índios para a outra margem do Rio Uruguai. Meio século depois, voltariam para fundar os famosos Sete Povos.

 Jesuítico-Guaranis

O retorno foi em 1682, retomando a ideia missioneira com a fundação da missão São Borja, no nordeste do estado. Ao redor dela, foram fundadas Santo Ângelo, São João Batista, São Lourenço Mártir, São Luís Gonzaga, São Miguel Arcanjo e São Nicolau, que ficaram conhecidas como os Sete Povos das Missões. Elas se integravam aos 30 Povos Guaranis da Província Jesuítica do Paraguai, que se estendia também por Argentina e Uruguai. Para construir sua nova comunidade missioneira, os jesuítas se basearam na cultura guarani, a começar pela língua: os padres estudavam e falavam guarani. A dominação europeia que se seguiu foi acompanhada pela assimilação de costumes guaranis pelos jesuítas. Aprendendo sobre os nativos, os jesuítas foram habilidosos em conduzir sua fé, adaptando a cultura nativa à rotina missioneira, que envolvia trabalho e devoção. As comunidades primitivas das tribos foram mantidas e aperfeiçoadas, inclusive na sua estrutura: as moradias continuaram coletivas, divididas entre famílias, apesar de algumas alterações, como no matrimônio. As casas se estendiam ao redor de uma praça central, onde uma igreja dominava o cenário, rodeada por colégio e oficinas. Jardim, pomar e horta compunham a região mais próxima. Os religiosos passaram a reger uma sociedade comunitária. A terra e os meios de produção pertenciam à coletividade e, apesar de as famílias terem suas lavouras, havia o trabalho comum para garantir o sustento dos incapacitados e dos administradores. O conselho administrativo, aliás, contava com caciques das tribos, que participam das decisões.

Arte, gado e mate

Os padres eram estudiosos e contribuíram para o registro da região com escritos sobre território, fauna e flora que chegaram à posteridade. Eles procuravam transmitir o que sabiam aos indígenas, o que, em grande parte, foi fazendo a cultura nativa esmorecer e se misturar. A arte missioneira estava também a serviço da catequese – arte do metal, da cerâmica, do couro, do bronze, da madeira, da pedra. Os guaranis tinham talento para música e para reprodução de trabalhos artísticos – fabricavam seus próprios instrumentos e tocavam, esculpiam santos, muitos com traços indígenas, o que ficou conhecido como “barroco crioulo”. As missões eram pensadas para serem autônomas. Atentos ao abate predatório da gadaria do pampa, logo os padres organizaram rebanhos no nordeste do estado, formando a Vacaria dos Pinhais e as estâncias. Desenvolveram técnicas de criação e pastoreio – que se tornariam a base da economia platina e rio-grandense por anos. Churrascos também aconteciam por lá. A erva-mate indígena, inicialmente rejeitada por integrar rituais, foi esvaziada de seu sentido místico para se tornar social. Logo ervais eram cultivados nas missões, com técnicas de irrigação. Tudo planejado com a disciplina jesuítica. Não demorou para que as reduções tivessem autorização de comercializar seu excedente produtivo. Sandra Jatahy Pesavento observa que os Sete Povos tornaram-se importantes centros econômicos. Além da erva-mate e do couro, faziam trabalho de fiação, tecelagem, metalurgia e arquitetura.

O fim

O Tratado de Madri, assinado entre Portugal e Espanha em 1750, marcou o início do fim da saga missioneira. Com ele, foram estabelecidos novos limites na região do Prata, passando a Colônia de Sacramento para a Espanha e as Missões para Portugal. A Coroa espanhola começava a temer a criação de um estado independente pelos jesuítas. Em um modelo colonialista, baseado no latifúndio e na escravidão, as comunidades missioneiras se tornavam uma ameaça. Unidos na demarcação dos novos limites do tratado, os ibéricos avançaram sobre as Missões – mas os guaranis se recusaram a abandonar as terras. Ali começava um conflito desigual que entrou para a história como Guerra Guaranítica, na qual se destacou a resistência e liderança de Sepé Tiaraju, morto em 1756. Três dias após sua morte, na batalha final de Caiboaté, mais de mil guaranis foram mortos em pouco mais de uma hora. Os exércitos invadiram as reduções e os índios sobreviventes fugiram. A Cia. de Jesus acabaria expulsa de Portugal em 1759, da Espanha em 1767 e das Américas em 1768, tendo suas propriedades confiscadas e as reduções esvaziadas. Hoje, no RS, existem ruínas das missões São Lourenço Mártir, São João Batista, São Nicolau e São Miguel. As de São Miguel foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938 e, juntamente com as missões argentinas, foram declaradas Patrimônio Cultural Mundial pela Unesco em 1983. Mais que isso, elas são parte da herança rio-grandense – costumes e traços da cultura gaúcha nasceram lá, há centenas de anos, da mistura de valores jesuítas com a cultura guarani.

Referências

“História do Rio Grande do Sul”, Sandra Jatahy Pesavento (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980)/ “Missões Jesuítico-Guaranis”, com textos de Armindo Trevisan, Barbosa Lessa, Décio Freitas, Nestor Torelly Martins, Pedro Ignácio Schmitz e Renato Dalto (São Leopoldo: Unisinos, 1999)/ “História ilustrada do Rio Grande do Sul”, JÁ Editores (Porto Alegre: JÁ, 1998)

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