José Antônio Pires da Silva: “Minha vida é dentro do Mercado”

 

José Antônio Pires da Silva chegou no Mercado ainda criança, com oito anos de idade, com seu pai, proprietário do Café Progresso, onde hoje é a Lancheria Luz. “No Mercado é praticamente uma vida, 40 anos trabalhando”, diz. Sua história é semelhante a de muitos outros no Mercado: começou cedo, origem portuguesa e primeiro trabalho junto com o pai, que veio na frente para o Brasil. O pequeno José veio depois, com dois anos de idade, com sua mãe. Hoje, à frente do Restaurante Havana, depois de 25 anos, nem cogita em parar de trabalhar, embora já esteja aposentado. Realizado, foi conhecer a sua cidade natal há apenas cinco anos. E persegue o seu sonho, o de conhecer Nova Iorque. Satisfeito com as novidades do Mercado e do seu entorno, aposta mais no futuro do que no passado do nosso velho patrimônio histórico.

 

Foto: Letícia Garcia

     O pai, Albano Gomes da Silva, começou como cozinheiro e em seguida já era sócio do Restaurante Progresso – um restaurante muito bonito, com vitrais e reservado para clientes especiais, bem diferente, como diz José Antônio, 54 anos, o Zé do Havana. Depois de um certo tempo os sócios tomaram rumos diferentes e o restaurante foi dividido em dois, um de cada lado. A Padaria Copacabana acabou comprando o lado do outro sócio, para fazer os seus fornos, ficando apenas um dos bares, o Bar Café Progresso Familiar, o do seu pai. É onde José começou a sua vida profissional. O “familiar” era para se distinguir de outros estabelecimentos, muito freqüentados e procurados por estivadores e prostitutas, já que a região era tipicamente portuária. Ali ficou durante 15 anos. “Depois o pai resolveu se aposentar, com 50 e poucos anos e deixou para os filhos cuidarem. Eu que gerenciava, mas chegou um ponto que resolvi sair do convívio com os irmãos e comprar o Havana”, diz. Começou com o sócio Alcino Loureiro, também português, que foi dono muitos anos do lugar. A sociedade foi até a reforma do Mercado, terminando com o falecimento de Alcino. Do Havana ele não sabe exatamente de que ano é sua fundação, mas diz que o ponto já existia e o nome foi criado em meados dos anos 60. Não tem nada a ver com a capital cubana. “O nome é por causa da cor do azulejo, que se chama havana”, informa.

 

Origens portuguesas

 

     “No tempo em que o meu pai veio para cá, a grande maioria dos proprietários dos bares era de portugueses. No fundo quase todos eram conhecidos e da mesma região de Portugal”. Cita padarias, bares e restaurantes de patrícios, hoje quase todos geridos pelas novas gerações. Chegando ao Brasil seu pai, depois de uma breve parada no Rio de Janeiro, rumou a Porto Alegre. Aqui já tinha um irmão que tinha um restaurante no Mercado, onde trabalhou como cozinheiro. Mas logo já estava comprando o seu restaurante também, na Voluntários da Pátria, que manteve um bom tempo junto com o do Mercado. Dessa época José lembra que, com oito anos mais ou menos, botava um saco de 10 quilos de carne nas costas e levava do Mercado para a sua mãe, no restaurante da Voluntários. Um trabalho que se desdobrou a vida inteira, aprendendo todas as lidas. “Tanto posso estar no caixa, ou fazendo tudo. O que for preciso eu faço para tocar o barco, só não cozinho. 40 anos de restaurante e nunca aprendi a cozinhar, meu arroz é um horror”, brinca. 

 

Tempos de boemia

 

   Dos tempos antigos, lembra que o Mercado não era um “ambiente” muito saudável. Meretrício e malandragem no seu entorno, eram os maiores problemas. “O terminal dos ônibus era na frente. Então eu saía do ônibus e entrava no bar. Era casa e trabalho, trabalho e casa, nunca misturei muito as coisas”. E o porto era bem ativo na época. Lembra das brigas, mas nada perigoso. “Era até mais tranqüilo do que hoje. Não se via um pivete com uma arma na mão, só batedor de carteira”, compara. Reinavam o Graxaim, o Gambrinus, bem menor, e o sempre lembrado Treviso, com um movimento constante durante toda a noite. “Era um público mais requintado, de jornalistas que saíam das redações, principalmente do Correio do Povo. Os primeiros jornais quem lia era eu”, recorda.  A rotina: colégio de manhã, Mercado de tarde, às vezes até a uma da manhã. O Progresso, lembra, trabalhava 24 horas por dia, 30 dias por mês, os 12 meses do ano. “Só baixava as portas no dia 31 de dezembro, às 10 horas da noite. Então se fazia uma reunião com a família e dia 1º de janeiro não se trabalhava”.  Depois que casou, em 1982, parou de trabalhar aos domingos. Do casamento, dois filhos, Augusto e Alexandre, ambos já há 10 anos no Mercado.

 

O velho e o novo Mercado

 

     Dos tempos antigos do Havana, lembra da velha chopeira, a gelo. “Se usava muito naquela época, era um trabalhão. Quando surgiu a chopeira elétrica o Alcino, sócio, dizia que ela não ia fazer chope que prestasse. Aproveitei a viagem dele a Portugal e troquei a chopeira. Quando voltou ficou um ano sem botar a mão nela. Aí um dia deu um movimento muito grande e partir dalí só ele queria tirar o chope nela”, diverte-se ao recordar. Também lembra dos tempos em que os produtos eram rigorosamente controlados pela SUNAB, com preços tabelados. Acha que o Mercado mudou pouco nesses anos. “Mudou estruturalmente, algumas bancas se atualizaram, mas na essência pouca coisa se modificou. O visual está mais limpo, mais bonito. Os corredores do Mercado eram escuros e sujos, quase um breu. Tinha até galinheiro nos corredores”. Época em que mocotó, carne assada e peixe frito eram as comidas mais populares. Desse tempo lembra que muitos chegavam bem jovens no Mercado, na faixa dos 16 anos. “Não tinha criança, vinha só para trabalhar”. Júlio, da banca de revistas do Mercado é um dos poucos amigos dessa época. Na banca do pai dele, o garoto comprava os gibis. Mickey, Tio Patinhas, Fantasma, Tarzan, as preferidas.

 

Antigos e novos clientes

 

     Um dos seus orgulhos é a fidelidade dos seus clientes. Principalmente dos antigos que, quando vão ao Mercado, sempre passam no Havana. A maioria são fiéis. “Hoje tem viúvos, viúvas, que continuam vindo, tem que passar nos lugares tradicionais deles. Tenho uma clientela muito antiga. Procuram o mocotó que comiam quando eram crianças e contam isso pra gente”. O público hoje é muito diferente dos tempos em que muitos fugiam. “Volta e meia tinha um que dava no pé. Todo cliente que sentava perto da porta, já se botava as barbas de molho. Mas era um malandro saudável”. Recebe os antigos e os novos também, gente que vem de fora, de outros estados, atrás do mocotó, do bife de fígado. “O pessoal retorna, bota na Internet. Os clientes procuram se aproximar”. Gaúcho da Fronteira quando vai ao Mercado comprar erva, sempre passa lá. Dos tempos antigos, Teixeirinha. Mas não é de ficar muito atrelado ao passado “A gente não pode viver de saudade. Senão o Mercado seria o mesmo de 100 anos atrás. Tem que ter uma reciclada, não dá pra viver só do Mercado antigo”.

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