“Minha relação com o Mercado é de amor eterno”

Maria Pappen

“Minha relação com o Mercado é de amor eterno”

Casada com Leo Pappen, vinda de uma família de quatro irmãs, Maria nasceu em 1960, em Barros Cassal. Tem dois filhos, Jonas e Jane, e chegou no Mercado em meados dos anos 80 – mas só se tornou uma mercadeira de verdade a partir de 2001. Hoje, à frente da Banca 25, de produtos gauchescos, divide o comando de uma equipe de cinco pessoas com o filho. E tem boas histórias para contar.

O jovem soldado tinha uma missão: fazer compras no Mercado Público para abastecer a cozinha do quartel. Ernesto Rodrigues da Costa, hoje com 80 anos, pai de Maria, veio de Barros Cassal, onde ela nasceu, para servir o exército em Porto Alegre. “Ele conheceu o Mercado, se encantou e se apaixonou”, diz Maria. Terminado o serviço militar, voltou para a sua cidade, casou em seguida. “Eu nasci e desde pequena ele já falava do Mercado para mim e minhas irmãs. Então, eu e elas criamos uma imagem do Mercado. O tempo foi passando e ele sempre contava a mesma história. Ele não contava para nós, mas tinha um sonho de trabalhar aqui. Mas ele mesmo nunca veio. Aí, no ano de 1985, minha irmã mais nova começou a trabalhar na banca 11 e se tornou mercadeira”, lembra. Porém, quando ela própria conheceu o Mercado, a imagem se revelou um pouco diferente daquela que fazia a partir das impressões de seu pai. Mas como, afinal, ela imaginava o Mercado? “Achava que entrava por uma porta que fosse até o fundo, não imaginava que tivesse corredores, carrinhos todos os dias, pessoas comprando só o necessário, ao invés de fazer rancho pesado para o ano, como lá fora”, analisa hoje. Em síntese, achava que o Mercado seria uma espécie de bolicho e armazém, muito comuns no interior do estado. Também pensava que era simplesmente montar uma banca, mas depois percebeu que havia uma administração e que ele era “todo regrado”.

Clientes do estado, do país e do mundo

Em 1989, por motivos de saúde do esposo Leo Pappen, o casal resolveu deixar Santa Cruz do Sul para tentar a sorte em Porto Alegre. Ele começou ajudando a irmã, mas os dois trabalharam em outros lugares até que em 2001 finalmente Maria também tornou- se uma mercadeira – ela e os dois filhos Jonas e Jane. “Adquirimos parte da Banca 25. Depois apareceu outra oportunidade e meu esposo e minha filha Jane assumiram outra banca (o Mercado Doce), em 2003, e eu fiquei aqui com o Jonas”, registra. A banca não tinha ainda bem o estilo atual. Mas por influência da sua terra e das tradições gauchescas do interior, com bombacha, bota, chimarrão e churrasco, resolveram “puxar para este ramo”. A banca até então só vendia erva-mate, cuia, alpargatas e faca. “Na verdade, foi o Jonas quem quis tentar e estamos nos encaminhando para dar certo. Fomos incrementando com outros produtos da indumentária gaúcha, vestimentas e produtos de chimarrão”, diz. Produtos, por sinal, muito procurados nessa época de comemorações farroupilhas. A banca, garante, é muito conhecida no Rio Grande do Sul, no Brasil e até no exterior. “Temos muitos clientes esparramados por aí. Mandam mensagens para nós de vários países. Se eles vêm ao Rio Grande, sempre aparecem aqui”, diz.

Vivendo para o Mercado

A rotina no Mercado já foi mais dura, por anos a fio, de segunda a sábado. “Aí, fomos nos organizando junto com os demais e cada um pode tirar um diazinho para viver a vida lá fora, senão fica só no Mercado”. Mas o horário ainda é duro: às 7 horas da manhã já tem que estar tudo pronto para quando abrir os portões. Isto quer dizer que acordam muito cedo, principalmente porque todos da família moram em Cachoeirinha. E só voltam depois das 7 horas da noite. Todos, porém, adoram o Mercado, principalmente os filhos, que nele convivem desde pequenos – uma relação que vem lá dos tempos do avô-soldado. “Conheceram, amaram e quiseram também estar aqui”, orgulha-se. Hoje ela define a sua relação com o Mercado como de amor eterno. “Primeiro por necessidade, a aposentadoria não é suficiente, não daria para viver, e depois porque a gente tem paixão pelo Mercado”, sintetiza. Férias? Há muito tempo que são de apenas uma semana. “Tem aquela coisa de querer estar aqui, gosto de conversar com as pessoas, é uma relação de paixão mesmo”, entusiasma-se. Trabalhar com toda a família perto é bom, mas tem semana que quase nem conversam, “sem tempo para um bate-papo”. A conversa só vai ficar em dia nos fins de semana, quando o assunto é, invariavelmente, o Mercado, claro.

Lembranças e vivências mercadeiras

 As lembranças mais antigas são ainda da sua chegada, “do Mercado com muitos gatos, telhadinhos, tudo aberto”. O que mais valoriza, contudo, é o bate-papo com os clientes, tanto os mais antigos, como aqueles que aparecem esporadicamente. “Já tem clientes e fornecedores amigos, que se abrem com a gente, assim como os vizinhos (das bancas). A gente vive como uma grande família aqui, o relacionamento é muito próximo, todos se ajudam”. Ela registra também a visita de muitos clientes ligados à cultura gauchesca, como Borghetinho, Luiz Carlos Borges, entre outros. “Quem vinha sempre aqui era o Teixeirinha, o Paixão Cortes sempre visita, o Nico Fagundes frequentou muito”. Como dona de uma banca de cultura nativa, valoriza muito o tradicionalismo. “Sempre procuro mostrar para os turistas o chimarrão e as nossas coisas. Quando viajo a qualquer lugar uso bombacha, alpargata, lenço, me identifico. E levo chimarrão a bordo, é claro”. Apaixonada pelo Mercado, diz que não tem palavras para defini-lo. Mas arrisca: “Ele é tudo, a minha vida. É paixão, amor, tudo o que eu tenho, tirei daqui. Ele tem alma, é receptivo, recebe todos, para visitar ou trabalhar. É a nossa sobrevivência. O Mercado é este grande coração acolhedor. O Rio Grande do Sul não seria o mesmo sem o Mercado Público”, conclui.

 

Foto: Letícia Garcia 

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