Mary Mezzari

 

Marry Mezzari

     A primeira memória que eu tenho do Mercado Público é olfativa: o cheiro do peixe, a mistura dos cheiros das bancas de especiarias. A segunda é uma memória do paladar: o sabor das azeitonas, que ficavam em grandes tonéis de madeira. Eu era muito pequena e ia com a mãe ao Centro. A gente pegava o bonde Petrópolis, fazia a volta no abrigo – era lindo, o bonde passava bem no meio das flores que eram vendidas por ali. Depois, a gente passava pelo Chalé da Praça XV e entrava no Mercado. A terceira memória é sonora: a cantoria dos passarinhos bem ali onde se aglomeram os camelôs. Era ensurdecedor. Será que eles ainda estão por lá. Na Praça XV, outra memória, essa visual: o casarão do Mercado e a Prefeitura Velha, que impressionavam meus olhinhos de criança, arregalados. Era um tempo mais elegante, os homens usavam chapéus e ternos, as mulheres muito bem vestidas.  
     Lembro do tempo da faculdade, o mercado era um ponto de referência para encontros políticos. Eram tempos bicudos, de ditadura, e os textos para leitura e discussão precisavam ser passados meio que clandestinamente. Pois era no mercado que eu recebia meus textos, com aquela sensação de estar desafiando o poder constituído. Era perigoso, mas era divertido. Também para o mercado a gente ia nos fins de noite, começo de dia, a procura daquela canja reanimadora – ou daquele pão com banha e mortadela, cantado em prosa e verso até por grandes nomes da gastronomia nacional. Teve um dia que nós chegamos às 6h30 da manhã e não tinha canja, só mocotó – que saboreamos com a certeza do fígado jovem e impune.
     O tempo passou, os bondes se foram, o centro da cidade foi ficando perigoso, aglomerado, lotado, sujo, as floristas foram deslocadas, os camelôs tomaram conta. Mas, o Mercado Público manteve sua imagem intacta. Nunca deixou de ser freqüentado pelo grande público e, com a reforma, reconquistou a cidade inteira – de novo. Hoje, ir ao Mercado Público faz parte da minha rotina. Pelo menos uma vez por semana eu vou lá. Não mais de bonde, mas de ônibus. Desço na porta, enfrento a multidão de camelôs e entro no Mercado. Até o clima muda. Uma passadinha na peixaria, para levar um fruto do mar básico. Um cafezinho bem tirado ou uma salada de frutas com sorvete para descansar. Depois, levo um queijinho, um pão, uns frios. E, como faço desde criancinha, as azeitonas. Só falta descobrir: será que os passarinhos ainda estão lá?

* Comunicadora da radio Ipanema 94.9 fm

 

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