Mercado, o nosso mais importante patrimônio histórico e arquitetônico

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Mercado, o nosso mais importante patrimônio histórico e arquitetônico

O Mercado já faz parte da vida dos gaúchos. Da vida e da história, desde a época do Império. De lá para cá, informou-se como o nosso maior bem patrimonial, com seu prédio histórico, que esbanja imponência e, ao mesmo tempo, simplicidade com sua arquitetura em estilo neoclássico. Depois de incêndios e ameaças de demolição ele está aí, cada vez mais firme. E no coração de todos, como lembra o arquiteto Luiz Merino, do Programa PAC das Cidades Históricas.

Tempos imperiais. Tempos de suntuosos prédios, quando aparecem os grandes hospitais, quartéis e mercados em todas as capitais – todas construções horizontais e ocupando grandes áreas. Em Porto Alegre, vão aparecer exemplos que são referências até hoje, como a Santa Casa, a Beneficência Portuguesa, o Theatro São Pedro, entre outros. Porém, explica Merino, logo após a proclamação da Independência surge um surto de modernização da arquitetura no Brasil. Era uma tentativa de apagar o passado colonial, escravocrata, e para isso buscaram-se referências arquitetônicas europeizadas, com influências francesas, italianas ou inglesas. A ideia era dar um ar cosmopolita, segundo o arquiteto. Os mercados surgem, explica, para tentar eliminar o comércio ambulante nas ruas, que lembrava o período atrasado colonial. “Era moderno na época, na questão da higiene, tinha um abastecimento próximo dos rios, por onde chegavam os alimentos. Era um estilo que predominava na época, 1869, o neoclássico, sempre com prédios muito grandes, ocupando quarteirões”. Merino também explica que a sua arquitetura é relativamente simples “porque o neoclássico não é de grandes ornamentos”. Destaca as portas, a sequência de arcos na fachada, de origem romana, e as pilastras, de ordem toscana, entre as portas, com torreões nas pontas.

Arcos da fachada, origens na arquitetura romana (Foto: Thaís Marini Maciel)

As três grandes intervenções no Mercado

Para Merino, esta é “a primeira cara” do Mercado. Ou seja, a primeira etapa desta obra construída, em 1869, pelo arquiteto alemão Friedrich Heydtmann. “Ele andava pelo Rio Grande do Sul, trabalhou em várias cidades daqui, fez estradas, pontes e tinha claramente conhecimento da arquitetura clássica. Ele fez também a Benefi – cência Portuguesa e o antigo Cais da Alfândega, de pedra, com escadarias, e projetou a Rua 7 de Setembro, que é o primeiro aterro de Porto Alegre”, informa Merino. Heydtmann, pode-se dizer, foi um dos precursores da arquitetura alemã no estado, que seria predominante no começo do século XX, tendo em Theodor Wiederspahn uma das suas maiores expressões. Trata-se de um prédio anelar, típico da época, com um pátio interno para venda de produtos, carga e descarga, e com duas docas ao lado – uma na antiga Praça Parobé e outra onde hoje está situado o Paço Municipal. Depois, o bonde pela frente, fazendo com que o Mercado fosse muito bem localizado. A segunda etapa, explica o arquiteto, vai se dar na virada do século XIX para o século XX, quando se decide a construção de um segundo pavimento, concluído em 1912. “Ele ganha a feição que tem hoje. São fechadas as quatro laterais entre os torreões e a arquitetura que vem é mais ornamentada, com referências clássicas, num estilo que a gente chama hoje de historicista ou eclético – o último suspiro do classicismo. A partir dali começa a surgir uma arquitetura mais moderna”, informa.

 

Arquiteto Luiz Merino diante do Mercado Público (Foto: Letícia Garcia)

O Mercado e suas reformas – mudando sem mudar

Com a segunda reforma o Mercado recebeu, então, a cobertura de telha de barro, estrutura de madeira e janelões envidraçados. A parte superior nunca teve, porém, atividades comerciais intensas. “Pelo que se sabe, o espaço sempre foi mais de administração e serviços, com escritórios de advocacia, seguradoras, quase uma central administrativa de serviços públicos. Essa feição durou praticamente quase todo o século XX”, recupera Merino. E foi durante a reforma que aconteceu o primeiro grande incêndio, em julho de 1912, que consumiu os 24 chalés do pátio interno. Na reconstrução, bancas de ferro e cimento substituíram os chalés de madeira. Com o passar do tempo, o Mercado foi sendo ocupado de forma irregular, tornando-se muito caótico. Período de lonas, telhados improvisados, corredores lotados, gatos, higiene precária – fatores que vão exigir uma nova e moderna reforma na década de 90. É ela que dá esse aspecto contemporâneo atual do Mercado, sinaliza Merino. “É feito um projeto de restauração da parte antiga e uma nova arquitetura, com uma inserção arquitetônica significativa do pátio central, permitindo, finalmente, uma integração entre os dois andares com os mezaninos e escadas rolantes”, registra. Outro grande benefício da reforma, segundo Merino, é que com ela revelou- se também a arquitetura interna do prédio, com suas colunas grês, balaustradas e outros detalhes. “É uma arquitetura nova, contemporânea, ninguém tem dúvida do que é o antigo e do que é o novo”, resume.

       

Interior do 2º piso, últimos suspiros do classicismo (Foto: Thaís Marini Maciel)

A imponente simplicidade do Mercado

 Da segunda reforma não se sabe, até hoje, quem foi o autor. Da terceira são cinco arquitetos: Otacílio Ribeiro e Teófilo Meditsch (coordenadores), Doris Oliveira, Evaldo Schumacher e Vera Becker. Atualmente, na recuperação do Mercado, depois do incêndio de julho de 2013, a intervenção não chega a ser propriamente uma nova reforma, embora estejam sendo introduzidos novos elementos, principalmente na substituição de materiais combustíveis. “Estamos seguindo os mesmos passos dos anos 90, mas do telhado se tirou a madeira, sendo colocados materiais metálicos incombustíveis. O processo do Mercado vai ser, aos poucos, repensado, no sentido de todo o resto ficar com materiais incombustíveis também”, revela. Será mantida a mesma cobertura de barro, e junto ao telhado, colocadas lajes preventivas. “Quando pegou fogo, caiu a ficha de todos nós que este é o prédio mais importante e significativo do nosso patrimônio histórico, tanto pela qualidade da arquitetura como pelo carinho da população. Ele é altamente utilizado. Além da herança e da presença negra, tem a dos idosos e atualmente uma população de classe média, com as novidades como os sushis. É uma convivência fantástica, de todos os níveis, culturas, rendas, com os cheiros e aromas do Mercado”, conclui.

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