Mercado livre

Mercado livre

Sérgio Costa Franco*

 

      Não é preciso ser um idoso para ter conhecido o Mercado Livre, entre o Mercado Público e o Porto, onde hoje se situa a estação do Trensurb. No rol dos equipamentos públicos da cidade, ele teve vida muito curta, o que lamentavelmente acontece com muitos serviços estatais. Realizam-se obras importantes, capazes de bons préstimos, e, de uma hora para outra, mudam os ventos da política ou do planejamento, e aquilo que se reputava útil e até indispensável, é subitamente suprimido e destruído. Sem substituto nem sucedâneo.

     O Mercado Livre, nem por ser vizinho do antigo e tradicional Mercado da Praça 15, podia ser considerado uma demasia. Ele tinha diversa função: abrigava os vendedores de hortifruti­granjeiros, que, naquele tempo, não tinham vez nem espaço em outro local do Centro. E nada mais justo e saudável que abrigar convenientemente os quitandeiros, colocando-os a salvo da intempérie ou dos calores inclementes.

     Uma das primeiras obras do grande prefeito José Loureiro da Silva foi a construção do Mercado Livre. Ele tomou posse em fins de 1937 e já em 1939 estava erguido aquele equipamento público. Era uma construção simples, bem ventilada, com alto pé direito e amplas vidraças, dotado de pequenas bancas de cimento, onde cada vendedor podia expor sua mercadoria aos fregueses. Tenho a impressão de que não ficava superlotado e que talvez sobrassem espaços para os feirantes. Quem escreve foi frequentador daquele mercado na condição de comprador. E a idéia que me ficou foi de um estabelecimento limpo, arejado e acolhedor.

     Espetáculo inesquecível era o das madrugadas na rua entre os dois mercados, quando os verdureiros acumulavam montanhas de repolhos, de abóboras, de caixas de tomates ou de couves, à espera dos varejistas, que vinham de todos os pontos da cidade adquirir a mercadoria. Não havia ainda a Ceasa e o comércio de hortigranjeiros se fazia ali, durante a noite, enquanto não começasse a circulação de automóveis.    

     Subitamente, planejou-se o Trensurb, e o Mercado Livre teve de sucumbir aos golpes da picareta demolidora. Em termos de varejo de frutas e de legumes, nada o substituiu. É certo que hoje o Mercado Central tem suas bancas especializadas nesses gêneros, mas é grande o número de verdureiros e fruteiros operando na rua, em bancas de esquina, em bar­raquinhas improvisadas, ou conduzindo carrinhos e balaios, sem proteção eficaz, quer para os produtos à venda, quer para os vendedores e os compradores.

     Mesmo não sendo saudosista, é inevitável, por vezes, lamentar as coisas que se perderam.

 * Historiador

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