Mercado do vinho na Romênia

Com mais de 2 mil anos de tradição na vinicultura, a Romênia está entre os maiores produtores de vinho do mundo. Nas aldeias-museus espalhadas pelo interior, é possível acompanhar os antigos processos para elaboração do vinho.

 

MERCADOS DO MUNDO, por Felipe Daiello

As prensas, os filtros, as pipas centenárias são testemunhas da importância dessa indústria. Com consumo per capita de 26 litros por ano, 10 vezes mais do que no Brasil, as cepas locais dão características particulares, inconfundíveis, exóticas, ao vinho romeno.

A Fetească Albă (donzela branca) resulta em brancos secos e estruturados. A Fetească Neagră (donzela negra), nos tintos robustos e de cor penetrante. A Fetească Regală (donzela real) nos surpreende com brancos mais ácidos, leves. Para vinhos aromáticos, a Tămâioasă Românească (dama enfurecida) fica com a responsabilidade.

Durante o regime comunista de Nicolae Ceauşescu, de economia centralizada, sinônimo de cataclismos ambientais e econômicos, a qualidade do vinho despencou em função da exigência de maior produção. As desapropriações e as perseguições aos antigos proprietários foram desastrosas. Um dito popular é claro: “O Conde Drácula prefere beber sangue humano do que tomar o nosso terrível tinto”.

Pela influência francesa, nos séculos XX e XIX, variedades europeias tradicionais foram introduzidas. Após a queda do regime comunista, com o julgamento e execução do casal tirano em praça pública, começa a recuperação do setor. Antigos donos retornam, novos investimentos estão colocando o vinho romeno na devida posição.

No verão, os brancos, principalmente da Transilvânia, apetecem mais, principalmente se acompanhados de queijo de cabra de Sibiu, além de serem bem mais acessíveis no preço. Os tintos, mais caros, procedem do Sul: vêm da Valáquia, das regiões de Dobruja e Muntenia. Da região delimitada de Dealu Mare chegam os vinhos premiados, os melhores.

Nas feiras e nos mercados públicos, o vinho é vendido a granel: os consumidores levam o próprio vasilhame, com bombonas de 2 L a 5 L e escolhem vinhos de produtores independentes. O litro, em média, custa de 5 a 8 Leus, o que corresponde a R$ 5 a R$ 8. O vinho rosé, um dos preferidos, é elaborado com a Artemisia Absinthium.

Nas visitas a Brașov, Sinaia, Sibiu, Constança, Bucareste, Târgu Mureş, Sighișoara, Alba Iulia e Biertan, foi possível, além de analisar rótulos, degustar sabores estranhos e tentar harmonizar os micis, enrolados de carne moída de cordeiro, as tábuas de carne e queijos (platou), os sarmales, charutos de repolho recheados, com o vinho da casa, da região.

Como aperitivo ou na saída, não é possível desprezar a palinka, forte no álcool, com frutas destiladas no processo, é gesto de cortesia.

Tochitura, cozido de carne de porco e linguiças, servido com polenta, queijo e ovo frito, exige a “donzela negra”, com toda a certeza. Por sinal, a gastronomia romena está baseada na carne suína e derivados.

No retorno, na bagagem, três garrafas de Fetească Neagră, DOC Dealu Mare, da Domeniile Tohani, 13%, jovem na safra, que aguardam o momento adequado para a devida apreciação. Não vou convidar ninguém, será um prazer bem egoísta, pois o peso adicional transportado exige recompensa. A única dúvida está no tipo de proteína a ser escolhida para um bom casamento. Sugestões?

Fotos: Felipe Daiello

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