Mercado, cenário de uma história de amor e trabalho

 

José Fernandes Boucinha e Maria Mezzola Boucinha

Em 1961 José Fernandes Boucinha, português, sonhava construir um futuro digno e honrado, em ter uma família e gerir seu próprio negócio. Maria Mezzola Boucinha, tinha vindo de Bento Gonçalves, em 1954, pelas mãos de seu tio Benevenuto Toniolo proprietário da banca 17. Ainda muito jovem para decidir seu futuro, dedicava-se ao trabalho do dia-a-dia, junto ao tio.

Certo dia, algo diferente acontece. No entreposto do leite, com a manteiga para o café em mãos, no próprio Mercado. Olhares se cruzaram. Ela, toda elegante, no alto da sua juventude, 21 anos. Ele, meio tímido, acanhado e olhar pensativo. Algo aconteceu.

Os dias passaram, e Mariazinha foi convidada por José, para um passeio até o cinema, através do então proprietário da loja 57, Zé. Convite negado e pisoteado. “Mande dizer que as portas do cinema estão abertas, que ele vá. Se eu quiser eu vou! ” Até porque a mocinha era disputada. Houve boatos que um mercadeiro da banca 43, e a história guarda o seu nome, andava abrindo concorrência pela jovem Mariazinha.

“Seu” José era um bom partido, homem direito, trabalhador. Não que o outro não fosse, mas o tio da moça simpatizou e resolveu dar um empurrãozinho naquele namoro.

Foi ali, ao lado do antigo Treviso, na loja 57, levando, já, o nome de Bar Embaixador, onde o casal multiplicou seus esforços na luta diária em busca da vitória.

Das lembranças ficaram as refeições servidas aos estivadores, que costumavam frequentar o bar, lá pelas onze, meia noite. A afanação não é “luxo” contemporâneo. “Seu” Zé recorda, entre sorrisos, o momento em que o malandro colocou um bacalhau dentro da camisa, mas acabou esquecendo o rabo do peixe de fora. Pêgo, o malandro passou algumas noites no chilindró, brinca Zé. “Tinha malandragem, mas não é tanto como agora, era um malandro diferente, mais pela comida, pelo viver”, devaneia.

As “mariposas”, mulheres vividas, eram mais rápidas em seus movimentos. Homens embriagados e com dinheiro vivo, eram lucro líquido e certo.

“Lembro com saudade dos meus fregueses, aqui sempre fizemos amigos, o Olívio Dutra era nosso cliente, o Adeli Sell, gostava da nossa comida”, recorda ele. O “completão” era a especialidade da casa, mas o que mais vendia eram mocotó e peixe. Comida de substância. “Fizemos tantos amigos nesses anos”, lembra nostálgico.

Lembram, também, que antes mesmo do dia nascer, lá estava o casal, saindo para o trabalho. Como moravam no Sarandi, a forma mais fácil de chegar no Mercado era pegando o ônibus, o que já era uma extensão de sua morada, pois se por acaso atrasassem, o motorista descia e os chamava no portão da casa.

O casal percebeu a grandeza do Mercado no incêndio de 1979. “Lembro de nunca ter visto tanta gente, permissionários, funcionários e amigos em torno do Mercado”.

E os anos foram passando. De domingo a domingo o bar levantava suas portas.

Entre o abrir e o fechar, dona Mariazinha educou suas duas filhas. No mesmo lugar onde este casal se conheceu. Venceram na vida, construíram a sua família. Hoje sua filha mais velha, Lúcia Boucinha segue os passos dos pais.

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