Mendigos e Pedintes

Crônica

 

Mendigos e Pedintes

 

Sérgio da Costa Franco*

 

Houve um prefeito na minha terra natal que tinha a mania de regulamentar tudo e introduziu no Código de Posturas do município umas regras muito estranhas a respeito da mendicância. “Mendigar sem licença da Intendência” dava 8 a 30 dias de prisão. E os mendigos licenciados “carregarão sobre o peito direito uma chapa metálica com as iniciais I.M.”

Dessas arcaicas regras do fim do século 19, tenho-me lembrado às vezes, quando me deparo com pedintes francamente simuladores e fraudulentos. Há uma mulher, trajada sem nenhum sinal de pobreza, que já me assediou no Centro várias vezes, sempre para pedir o valor de uma passagem para Gravataí, por ter vindo fazer uma consulta médica e estar sem dinheiro para o retorno. A história é sempre a mesma, falta-lhe inspiração para variar o roteiro da novela. 

Há pedintes que são criativos, capazes de relatar histórias de infalível eficácia. Lembro-me do tipo sinistro que bateu à minha porta num fim de tarde de inverno, e me aplicou a seguinte fórmula: “O senhor me desculpe a importunação, mas eu acabo de sair da penitenciária e preciso de uma passagem para Viamão, para ir encontrar os meus filhos”. Bastava a credencial de ex-presidiário junto à minha porta sem grades, para que eu não lhe negasse auxílio.

Mas, na semana retrasada, um pedinte se excedeu na originalidade. Emparelhou comigo na calçada em que eu fazia minha caminhada habitual e me fez o seguinte pedido: “Eu estou com o meu fuquinha parado ali embaixo na avenida por falta de gasolina. O senhor poderia me alcançar uns 3 reais, para me quebrar o galho?”

Como diria o Presidente Lula, nunca na história deste país, os pedintes conseguiram mendigar de automóvel.

 

*Historiador

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