Memórias diversas

Depois da ampliação paro o segundo piso em 1912, o Mercado seguiu em ritmo desordenado de crescimento, acumulando histórias e memórias.

 

A construção do segundo piso trouxe escritórios para o ambiente do Mercado, e o pátio interno começou a ser ocupado de forma cada vez mais intensa. A cidade foi crescendo, com a abertura de avenidas, a construção de praças, a chegada de bondes elétricos e, depois, de automóveis. Nos anos 1920, a abertura do novo Cais do Porto reconfigurou o Centro e trouxe um novo desenvolvimento ao Mercado.

O Café Provenzano sediou neste período a “bolsa de mercadorias”, o encontro de produtores e comerciantes do Mercado e do Centro para negociar — que acaba determinando o preço dos alimentos na capital.

Os anos 1940 encaminharam a saída dos escritórios dos altos do Mercado e se tornaram a época de maior boemia no prédio, que acolhia a agitada vida noturna do Centro nos seus bares e restaurantes. O Naval, o Gambrinus, o Provenzano, o Graxaim e o Treviso eram alguns dos que abrigavam os mais diversos tipos, de trabalhadores noturnos a jornalistas, políticos e artistas.

O extinto Treviso, que ficava aberto 24 horas, tem a célebre história de receber Francisco Alves, o Chico Alves, um dos cantores mais populares do país na “era do rádio”, como cliente assíduo. Tanto que o homenageou após a sua morte pendurando na parede a sua cadeira de costume —cadeira que, após o fechamento do Treviso, foi mantida na Sorveteria Martini, que ocupou o seu espaço, e depois passou para o Gambrinus, onde está até hoje.

Fototeca Sioma Breitman/Museu Joaquim José Felizardo/PMPA

Os pescados, que sempre foram a especialidade do Mercado, eram vendidos num espaço chamado de Coreia ou Bancas de Pedra. Em um mundo quase à parte, 28 bancas dividiam um corredor só de peixes feito com mesas de pedras, que não tinham nomes nem donos fixos — os peixeiros se espalhavam ao chegar com os produtos frescos todas as manhãs.

As vendas começavam às 9h, ao soar de um sino, e os peixes eram vendidos até as 11h, quando fiscais passavam cortando os rabos para sinalizar que não podiam mais ser comercializados. O preço baixo era a marca da Coreia.

O avançar dos anos tornou o interior do prédio cada vez mais caótico, com o crescimento desordenado das bancas. Dos anos 1970 e 80, há dezenas de relatos sobre as agruras dos telhados de zinco, uma das fases mais marcantes.

Frio intenso e calor escaldante se intercalavam com as estações no primeiro piso, que era isolado dos altos do Mercado por um teto baixo de zinco, na altura das bancas. Durante as chuvas, os corredores ficavam molhados e sujos.

Nessa época, dezenas de gatos ocupavam os telhados e os corredores superiores, que ficavam a céu aberto, atraídos pelos aromas do Mercado. Vilson Bocca, funcionário mais antigo do Mercado, atualmente na Banca 38, conta que havia mais de 300 gatos na época e que Dona Palmira Gobbi era a protetora dos bichanos.

A situação do Mercado estava ficando cada vez mais precária. Sentindo-se o abandono do poder público, os permissionários começaram a se organizar. O prédio estava se deteriorando, com estrutura danificada, situação elétrica de risco e problemas de higiene. Era preciso uma intervenção para que o Mercado chegasse inteiro aos novos tempos.

Recentes

COMENTÁRIOS