Mas Bah! – Novos olhares sobre a música gaúcha

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Carregando no nome uma interjeição tipicamente gaúcha, o Mas Bah! completa em 2014 três anos de estrada. Os músicos Fernanda Lopes (voz), Gustavo Brodinho (contrabaixo e voz), Jacson Jaques (violão e voz), Leandro Sirtuli (acordeon e voz) e Rafa Martins (percussão) se encontraram no CTG Porteira Velha, tocando para o grupo de danças. Em 2011, o Mas Bah! ganhou vida própria como grupo vocal, resgatando este estilo e reinventando canções regionais, colocando seu olhar em cada interpretação. O grupo já se apresentou em festivais na Europa e Argentina, e venceu o festival Nossa Música, de Novo Hamburgo. O segundo CD, “Mas Bah! Desplugado”, lançado em 2013, conta com participações de Ângelo Franco, Cristiano Quevedo, Ernesto Fagundes, Victor Hugo e Wilson Paim. Conversei com Gustavo Brodinho para conhecer um pouco mais dessa história.

Foto: Letícia Garcia

Todo mundo já tocava, já tinha uma certa vivência na música. Em 2011, fomos contratados para tocar para um CTG, onde éramos o musical do grupo de dança. Já nos primeiros ensaios sentimos a química – a gente resolvia alguns arranjos com certa facilidade. Esse grupo de dança fez uma viagem para a França em 2011, e precisava levar um material. Então gravamos nosso primeiro disco, meio na correria, para eles levarem. Na volta, a gente ficou com esse disco em mãos. E aí “vamos fazer o quê? Vamos iniciar o Mas Bah! a partir de agora!”. Começou a brincadeira, e ficou séria.

 

O jeito Mas Bah!

A gente veio de um CTG, então não tem como fugir desta verdade. A gente procura, claro, botar um arranjo moderno, colocar a cara do Mas Bah! nas músicas, mas sempre temos um respeito pela nossa origem, o que nos uniu, que foi um Centro de Tradições Gaúchas. A gente é o Mas Bah!, tem um jeito de tocar, e em momento algum queremos agredir quem é tradicionalista – é uma relação de respeito que temos com toda a história que envolve o tradicionalismo. Só que também é uma coisa um pouquinho diferente, é o “gaúcho de 2013”, eu diria. É clichê, mas a gente quer expressar o que nós somos. Eu não quero colocar um sotaque para falar do meu cavalo – é muito mais fácil eu perguntar teu Facebook para daqui a alguns minutos a gente se comunicar via web. E a gente é gaúcho, nasceu no Rio Grande do Sul, ama o nosso estado do mesmo jeito. A ideia do Mas Bah! é poder mostrar para as pessoas que nós somos gaúchos, sim, que fazemos música no Rio Grande do Sul com o maior respeito, mas que estamos vivendo um momento em que não dá para falar só no galpão – eu preciso pelo menos poder levar meu notebook para o galpão para saber o que está acontecendo fora dele. É essa a história do Mas Bah!.

 

A música

A gente faz música sem rótulo. Queremos agradar a todos, e isso é muito difícil – quase impossível – então tentamos agradar a maioria. A gente procura colocar no nosso som um pouco do que cada um de nós escuta, e dá uma mistureba que sai a cara do Mas Bah! Só escutando para entender. Uma vez uma pessoa deu o exemplo do nosso som como muito semelhante à sonoridade dos Almôndegas – e isso para nós foi uma surpresa muito boa, nos deixou muito feliz, porque eles são uma das nossas referências, a fonte de onde a gente bebe. Eu toquei muitos anos numa banda de reggae, então eu tenho essa influência comigo, gosto bastante de reggae e de música brasileira de uma forma geral. O Jacson adora Dream Theater, a Fernanda curte muito Tom Jobim – então isso vai dando uma liga. Cada um tem um estilo musical e a gente acaba investindo nas ideias. Em comum, todos nós temos Beatles, alguns grupos como Take 6 e Voca People, que são grupos vocais que gostamos muito. A gente vai mostrar um outro lado massa também da história. Isso acaba acontecendo. Muitas vezes a gente vai num show e vê uma coisa legal, e imagina converter isso para o mapa do Rio Grande do Sul, trazendo para a linguagem gaúcha. Assim acabam pintando os arranjos como o do “Duerme Negrito”, numa versão reggae.

 

Cultura gaúcha hoje

É sensacional a galera viver a cultura gaúcha do jeito intenso que se vive. Hoje o CTG tem uma função gigantesca nessa história, de aproximar o jovem da cultura, do tradicionalismo, do passado, tem uma função fundamental para que este processo continue rolando. Às vezes me questiono sobre algumas coisas, como a dificuldade de algumas coisas acontecerem em função das regras, do “isso pode, isso não pode”, “isso é gaúcho, isso não é gaúcho”… Muitas vezes uma pessoa que quer muito conhecer um artista pode até ser barrado em algum evento porque não está com a bombacha correta… Isso acaba afastando um pouquinho. Eu só penso que se tivesse menos dificuldade, a cultura seria muito mais forte. E nos festivais tem artistas novos fazendo um som legal e contando a sua verdade. Hoje, no Rio Grande do Sul, nós temos vários amigos que estão conquistando um lugar ao sol com muita honestidade e trabalho. O Chão de Areia é um baita exemplo, os Sperandires também, a galera que tu vê que está na lida no dia a dia, estão batalhando. Isso eu acho legal no cenário atual da música do Rio Grande, artistas mostrando a sua verdade – de um jeito muito gaúcho, por supuesto.

“Soy pan, soy paz, soy más”

Vamos, decime, contame

Todo lo que a vos te está pasando ahora

Porque sino cuando está el alma sóla llora

Hay que sacarlo todo afuera, como la primavera

Nadie quiere que adentro algo se muera

Hablar mirándose a los ojos

Sacar lo que se puede afuera

Para que adentro nazcan cosas nuevas

(Piero/Luis Ramón Igarzabal)

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