LITERATURA: Maria do Mercado uma história de todos os tempos

ESPECIAL, Literatura

 

Paulo Roberto Pruss

Seu nome? Maria. Nascida em 1869, ano da inauguração de um prédio Neoclássico, conhecido como Mercado Público de Porto Alegre, mais tarde ficou conhecida por Maria do Mercado.
Morava com seus pais em um arrabalde e o que mais gostava era ir, em companhia de seu pai, seu Lemes, um velho maragato, comprar mantimentos em um pequeno mercadinho na vila mais próxima. Nessa época, já não entendia porque, mesmo numa vila modesta, não havia um mercado melhor. Por volta de seus 11 anos começou a ouvir histórias sobre o Mercado Público e seu imponente prédio, localizado na Praça Paraíso. Não deu sossego a seu pai até que o seu desejo de conhecer este enorme “armazém”, no centro de Porto Alegre, fosse realizado.
Filha única, o que era raro nesses tempos, aos doze anos já se interessava por política. Extremamente inteligente lia muito e tinha opiniões próprias. A mais defendida era a sua contrariedade à escravidão no País. Além disso, fazia poesias exaltando a cidade e seus aspectos de beleza. Acompanhou o movimento abolicionista e era apreciadora de seu líder Joaquim Nabuco; também era republicana.
Aos dezesseis anos já era conhecida por Maria do Mercado, em razão da quantidade de vezes que por lá estava, numa época de agitação política intensa em que o movimento republicano ganhava força. Por mais estranho que possa parecer, devidos aos padrões desse período, Maria era aceita no meio intelectual, ora dominado por homens. Sua desenvoltura era brilhante e ela poderia ser vista em grupos de homens discutindo política. Daí nasceu a ideia de promover caminhadas com o seu grupo de discussão, invariavelmente no entorno do Mercado Público, o que a tornou ainda mais famosa entre os frequentadores, e proporcionalmente a admiração dos Mercadeiros do local. Mesmo não assinando artigos em a Federação, jornal dominado por jovens republicanos, era notório que muitos destes textos eram de sua autoria.
Seu Lemes, fora morto degolado na revolução de 1893, deixando Maria agora com 24 anos, muito próxima de sua mãe. Mas sempre que podia escapulia para dar uma “voltinha”. Sem Maria, as caminhadas no Mercado não eram a mesma coisa. E justamente agora, que Porto Alegre contava com uma empresa de bondes puxados a burro, a Cia. Carris Urbano, o que facilitaria seu deslocamento até o mercado. Com a vinda de uma tia e primas, que passaram a viver junto com a família, Maria, retoma o ativismo. Escrevia textos, sentada a uma mesa no bar Gambrinus, mesmo que este tenha sido fundado por alemães e fosse proibida a presença de negros em suas dependências, o quê, obviamente, Maria repudiava. Porém considerava que as suas idéias tinham que sair de dentro do território adversário. Seu prestigio era tanto, que ninguém ousava impedir a sua entrada no Gambrinus, sempre acompanhada de um grande grupo, o que não era nada desprezível para o “Deus da Bebida” ou melhor o Gambrinus, que ainda hoje mantém suas portas abertas num espaço estritamente democrático e de bom gosto. O Gambrinus acompanhou a trajetória de Maria, ou pelo menos quase toda, até ela sair de cena, juntamente com a decadência do mercado.
Também foi do Mercado que ela assistiu, em 1906, aos seus 43 anos, espantada, o primeiro automóvel a circular pela cidade. Mas Maria teve uma vida paralela a do mercado e, já com 71 anos, começou a sair de cena, em 1940. Maria já tinha suportado um incêndio e algumas tentativas de modernidade, porém, agora, o movimento era muito forte para sua idade já avançada, e assim, lentamente, ela foi se retirando, sem imaginar, entretanto, que o Mercado era mais forte e suportaria essa e tantas outras crises,
uma delas em 1941, quando enfrentou a maior enchente que a cidade já viu. Hoje, tombado como patrimônio cultural, o Mercado Público continua assistindo aos acontecimentos de Porto Alegre. Já Maria, não integra a história oficial e há quem diga que em verdade ela nunca existiu. Outros afirmam que sim e que a sua vida se confundiu com a do Mercado. Existindo ou não, o importante é que o mercado continua ali, junto ao Largo, hoje denominado Glênio Peres, imponente, fazendo a verdadeira história e criando todo dia, não só marias do Mercado, mas joãos, josés, paulos, fernandos,…

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