Marcos Vinícius Silva Loureiro e Marcelo Silva Loureiro-Herdeiros de boas lembranças

Filhos de José dos Santos Loureiro, um dos muitos imigrantes portugueses que vieram nos anos 50 para o Brasil trabalhar no Mercado Público, Marcos, 45 anos, casado, quatro filhos, e Marcelo, 40 anos, solteiro, tocam hoje o legado do seu pai, construído por mais de cinquenta anos no tradicional centro de abastecimento da cidade. O velho português faleceu em 2013, mas deixou o espírito de luta e determinação do negócio para os filhos.

 

Fotos: Letícia Garcia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Estamos aqui desde cedo”, começa Marcos, lembrando que o atual Bar e Restaurante Santa Cruz era só uma porta, a Loja 7, depois ampliado pelo pai em 1986, na época em que o português já era sócio do restaurante. Marcos não tem muita certeza sobre o início do pai no Mercado, mas acredita que tenha sido como um “trabalhador, um atendente”. Os irmãos começaram ainda guris no restaurante. Marcos, o mais velho, já estava presente por volta dos 10, 11 anos – mas não para trabalhar. “Vinha ficar aqui, então já ia aprendendo como é o serviço, acostumando. ” Já Marcelo tem lembranças mais claras: “O pai sempre foi muito duro para deixar a gente sozinho em casa, sem fazer nada. A mãe tinha outro comércio. Naquela época não tinha empregada, tinha que ficar perto dos pais e fazer alguma coisa, nem que fosse limpar uma mesa, o chão, ou varrer. Não te deixavam quieto, dormindo. Então, a gente começou muito jovem”. Lembram bem dos tempos antigos, dos gatos, da época do telhado de zinco, dos pequenos e escuros corredores internos, atrás das bancas: “Era um verdadeiro labirinto. Claro, a gente conhecia, mas os clientes do Mercado não sabiam aonde iam sair. E o movimento era muito melhor”, diz Marcelo. Marcos também concorda que existia um fluxo maior de gente no mercado. “Hoje temos muitos shoppings, o pessoal se divide, mas eu acho que não é a mesma coisa. Vai num supermercado, até tem muita coisa parecida, mas o jeito de atender é diferente. E já ouvi dizer que querem terminar com os fatiados e vendas a granel, querem que venha tudo embalado”.

 

Mercado e os novos tempos

Para Marcos, só existe um caminho para o Mercado aos novos tempos: adaptar-se. Marcelo acha que tais mudanças correm o risco da sua descaracterização. “Ele sempre foi conhecido por isso, ter tudo prontinho, fracionado, parece que é uma tendência e os mercados vão se transformar num negócio que não são, totalmente descaracterizados para quem os conhece. Sei que a modernidade avançou, concordo que está mais higiênico, mas muitas coisas estão descaracterizando o Mercado completamente. ” Lembrando que o pai passou mais tempo no Mercado do que na sua própria casa, os irmãos também recordam a época das galinhas soltas no Mercado. “Agora já se encontra até carne a vácuo aqui”, diz Marcos. Do restaurante propriamente dito, revela que ainda são mantidos os pratos mais antigos, como mocotó, o a la minuta, que antes os clientes chamavam de “completo”, o atual prato do dia – arroz, feijão, carne, massa, salada. “Mas ainda hoje tem alguns clientes que chegam e pedem um ‘completo’. E clientes que vêm de longe, das cidades vizinhas, alguns diariamente. Outros para tomar sua cervejinha e fazer o seu lanche. ”

 

Rotina, antes e agora

Antes a rotina era dura. O pai abria às 5h da manhã e os garotos chegavam por volta das 11h. “O pai não gostava que a gente ficasse ‘zanzando’ pela rua depois da saída do colégio”, lembra Marcelo. No meio da tarde, o pai ia embora e um funcionário-gerente se encarregava de fechar o bar. Antes de assumir o Santa Cruz, Marcos trabalhou no departamento pessoal do Jornal do Comércio, mas mesmo assim ia para o restaurante no intervalo do meio-dia. Depois, acabou indo para o quartel. Até que, em 1991, passou a trabalhar fixo no Santa Cruz. Já Marcelo teve um período de sete anos trabalhando numa videolocadora, enquanto fazia “uns bicos” no restaurante. Na reforma, o Santa Cruz foi um dos poucos que resistiu à mudança de lugar, permanecendo ali, de frente para a Praça Parobé. Depois que o pai faleceu, os irmãos assumiram de vez. Não alteraram muito: fizeram pequenas reformas físicas e introduziram destilados diferenciados na carta de bebidas. Hoje trabalham com o auxílio de mais cinco funcionários. O restaurante funciona das 6h às 22h30, “inclusive domingo, mesmo com chuva”, como frisa Marcelo, bem humorado.

 

O significado do Mercado

Incêndios, já passaram por alguns, mas só foram atingidos pelo último, de julho de 2013. O restaurante ficou três meses fechado, afetado por infiltrações diversas. “Abrimos, mas ainda continuam os problemas de infiltração. Não está completamente pronto, mas já estamos nos recuperando. ” Lembram também das promessas das autoridades na época do incêndio de que o Mercado seria recuperado muito antes que a população pudesse imaginar. “Já se foram dois anos”, registra Marcelo. A relação com a maioria dos mercadeiros “é ótima”, dizem. Sobre as mudanças do Mercado, Marcelo acredita que ele se modernizou bastante, embora falte manutenção que, para ele, está aquém do esperado. “Quiseram transformar o Mercado em um shopping, mas isso nunca vai acontecer. E se acontecer, vai acabar o Mercado. Ou é uma coisa, ou é outra. ” O fato é que não sentem falta do Mercado antigo. Para Marcos, hoje ele é muito mais que o ganha-pão: “Já não estou no Mercado só por causa do dinheiro, é o hábito de vir – às vezes estou de folga e mesmo assim eu venho. Ele (Marcelo) pergunta: ‘o que tu estás fazendo aqui? Some daqui! ’ ”, conta, rindo. Em resumo, os dois se sentem muito orgulhosos e satisfeitos de trabalhar e conviver no Mercado e seguir o caminho aberto pelo pai.

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