MÁRCIO LUIS MATOS CRUZ “O Mercado é a minha vida profissional, onde eu consegui tudo que tenho”

Natural de Gravataí, nascido em março de 1977, Márcio entrou no Mercado em 1º de setembro de 1993. Como muitos, tinha parentes que nele trabalhavam, no caso dele, mais especificamente na Banca 25. Hoje, 23 anos depois, com duas filhas e uma vida no Mercado, tem muitas lembranças – a maioria, boas.

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Foto: Letícia Garcia

“Foi através de um primo e uma prima que cheguei aqui. O dono da Banca 25 também tinha a 37 (Flora Hana Noka), de produtos religiosos, onde comecei. Mas depois passei para a 25 também, antes de chegar onde estou hoje, aqui no Ponto do Chimarrão.” Ou seja, ele já estava familiarizado em vender erva-mate, cuias e outros produtos gauchescos. “Foi muito bom, porque a gente se acostuma a vender este tipo de mercadoria, e com o público dela. Assim, me senti mais à vontade.” As experiências anteriores foram diversas: empacotador em um supermercado, funcionário numa fábrica de jaquetas de couro e numa indústria de pães, de Gravataí. A rotina nas três bancas do Mercado sempre foi puxada, começando muito cedo, às 7h30. “Antigamente, era povão mesmo, as bancas eram maiores e os corredores mais compridos. Era muita correria, tinha que trabalhar duro, sem tempo para nada.” Mas, garante, era muito bom, porque havia um grande envolvimento com os clientes, “que eram bem mais chegados”. Diz que naquele tempo tinha bem mais trabalho e, às vezes, sente falta de tudo aquilo, daquela agitação toda. Segundo Márcio, mudou muita coisa de lá para cá. “Nesses 23 anos, o Mercado tem muitas e boas histórias para contar, apesar de antigamente ser um pouco mais bagunçado e sem higiene. Hoje ele está num padrão bem melhor.”

AMIZADES E LEMBRANÇAS

Eram tempos de grandes amizades, companheirismo. “A gente trabalhava do lado da Banca 26, então tinha uma comunhão com a gurizada. Com a reforma (de 1996), mudou o lugar das bancas, mas continua a mesma amizade, também com o pessoal da Banca do Holandês, como o Daniel (Abreu de Souza, atendente), quando ele ainda trabalhava na 26 e fazia mágicas com as mãos e canetas. Quando entrei no Mercado, meu primeiro contato foi com ele, tinha uma amizade muito grande.” Lembra ainda das muitas e pequenas confusões do Mercado, quando no fundo das bancas ainda havia corredores internos. Não esquece um balconista, com apelido de Sansão, pondo a fugir um desafiante, “com faca e tudo”, e de alguns clientes flagrados roubando mercadorias. Ou de PMs passando de moto Mercado adentro em perseguição a um “trombadinha”. Mas o principal sentimento que ele tem com o Mercado é de gratidão. Especialmente com as pessoas que o empregaram. “Pessoas maravilhosas, que me deram muito apoio, principalmente no momento em que construí minha casa própria.” E uma gratidão especial ao seu patrão, Jefferson Spolavori. “Eu o conheci quando comprou esta banca aqui, ninguém dava nada por ela – a banca era meio escondida. Então a gente fez amizade e ele me convidou para trabalhar. Falei para ele ‘não, cara, vou ter que vir trabalhar de alpargatas’ (risos). Olhava para a banca, ninguém entrava nela…”

EM COMUNHÃO COM OS COLEGAS

Mais tarde, a Banca 25 foi comprada por Maria Pappen, que passou a trabalhar com os filhos Jonas e Jane (hoje, uma das donas da banca Mercado Doce). Márcio ainda ficou mais de três anos trabalhando com a nova dona. No Ponto do Chimarrão, os atuais colegas foram chegando aos poucos. “O Ezequiel Belico já trabalhava aqui, eu fui o segundo, depois veio o Rondineli (Malfatti) – aqui é quase uma família, e eu agradeço a Deus todos os dias por ter colocado eles na minha vida. E eu na vida deles. Temos uma comunhão muito grande, as nossas filhas crescem juntas, as esposas dos colegas se dão bem entre elas, e o Jefferson é um paizão; não dá para dizer que ele é patrão. Sempre está nos apoiando. Isso tudo eu dizia para ele quando vim pra cá: é muita vantagem. E ele: ‘olha, se os meus funcionários vão bem, a minha empresa vai bem’.” O patrão também reduziu a carga horária de trabalho dos funcionários, escalonando os horários. “No Mercado tem muita correria, a gente vê muita gente estressada aqui, decorrente da sobrecarga de horário. Principalmente porque a gente passa a maior parte do tempo aqui. Acho que os patrões tinham que rever isso aí”, avalia.

MUDANÇAS NO MERCADO E SONHOS

Rotina atual? É corrida, como sempre. Márcio é pastor evangélico, sai da banca e vai direto para a Igreja. E uma vez por semana vai ao Seminário, indo dormir à 1h da manhã. “Acordo às 6h e lá em casa todo mundo tem a mesma rotina, minhas filhas e minha esposa. É pouco tempo para dormir, mas a recompensa é grande. Aqui na banca, o Ezequiel e o Carlos são os primeiros a chegar.” Tem boas lembranças de muitas pessoas, especialmente do “seu Chico” (Jesus Fernandes), amigo do patrão Ernani, que ensinou muitas técnicas de vendas para ele e alguns colegas de banca. “Quando entrei, era gurizão, tinha 16 anos. Muita coisa aconteceu, a gente viu filhos de colo, dos colegas, que hoje estão trabalhando no Mercado. É bom ver a gurizadinha pequena hoje trabalhando aqui.” A freguesia, como na maioria das bancas, é fiel e sempre volta. “Temos clientes desde o tempo que abriu a banca. E quando as pessoas não acham alguma coisa que procuram aqui, a gente sempre indica onde encontrar e as outras bancas também fazem isto.” Mas, observa, a clientela mudou um pouco: “O povão que tinha antes, não tem mais. Tenho saudades do Mercado antigo, a gente tinha mais proximidade com o pessoal das bancas. Parece que isso se perdeu um pouco. E o Mercado representa a minha vida profissional, foi aqui que me firmei e consegui tudo o que eu tenho hoje.” Sonho? Sim, o de ter a sua própria banca. “Quem sabe? Os sonhos são grandes. Hoje não tem condições, mas quem sabe daqui para frente?”

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