Marcello Caminha – Um violão gaúcho

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Foto: Letícia Garcia

Nascido na fronteiriça cidade de Bagé, ele começou a estudar violão aos oito anos. Foi o primeiro da família a se encontrar na música. Em 1985, fez sua estreia nos festivais de música nativista, aos 14 anos, tocando com o grupo Os Ajenos na 1º Sentinela da Canção de sua cidade natal. De lá para cá, são 12 CDs lançados, inúmeras composições e uma carreira sólida de músico e educador deste instrumento que acompanha a melodia do sul.

Um ano após pisar nos festivais pela primeira vez, ganhou o prêmio de melhor instrumentista no 2º Ponche Verde da Canção Gaúcha, em Dom Pedrito/RS. Em 1994, venceu como compositor o 1º Canto Interuniversitário Rio-grandense, em Pelotas, com a “Milonga em preto e branco”. A promissora carreira começava a decolar. Mas as conquistas musicais não o afastaram dos estudos: formou-se veterinário em 1996 pela Urcamp e exerceu a profissão, paralela à música, até 2005. “Sempre gostei deste desafio de fazer as duas coisas”, diz. Em 1998, lançou o primeiro CD, “Estrada do sonho”. O ano de 2001 foi marcado pelo lançamento do projeto Curso Violão Gaúcho, pelo primeiro Prêmio Açorianos de Música e por sua mudança para Porto Alegre.

Toque de cordas

Chegando à capital, o músico começou a trabalhar em um estúdio de gravação como violonista. “Ficava de plantão: quem chegasse para gravar e precisasse de violão, eu estava ali”, conta. Foi quando acabou conhecendo muitos músicos do estado, gravando com vários artistas como Luiz Carlos Borges, Victor Hugo e Neto Fagundes. Sua parceria estendeu-se aos palcos com alguns, como Luiz Marenco, com quem trabalhou de 1998 a 2000. Pouco depois, em 2003, passou a acompanhar a dupla César Oliveira e Rogério Mello, que o levou a apresentações pelo país e exterior – Caminha esteve em 2007 no Festival Nacional de Doma y Folklore, na província argentina de Córdoba. Seu trabalho de instrumentista vinha sendo cada vez mais reconhecido. Em 2006, participou do projeto Circular Brasil de Música Instrumental, tocando em várias capitais do país. Outros troféus do Prêmio Açorianos vieram juntar-se ao primeiro: em 2007, foi premiado como melhor instrumentista regional e em 2009, como melhor compositor, instrumentista e pelo projeto gráfico do CD “Influência” (de 2008). Além disso, o trabalho como compositor ganhava as vozes de muitos músicos regionais, em especial as parcerias com Anomar Danúbio Vieira, como as canções “Alvorada fronteira”, “Apaisanado”, “Estância de fronteira”, “Gaúcha”, “Imagens” e “Milonga redomona”. Foi em 2011 que resolveu dedicar-se à carreira solo. Para marcar este novo início, o lançamento do CD “Imagens”, primeiro trabalho em que também soltou a voz.

Educador de violão

Além da música, Marcello dedica-se ao ensino do violão há quase 15 anos. “Quando cheguei a Porto Alegre, comecei a dar aulas de violão com a intenção de também estudar, buscar o manancial imenso que é a cultura gaúcha como um todo – não só a rio-grandense, mas a uruguaia e a argentina, países vizinhos”, conta. Assim nasceu o Curso Violão Gaúcho. Marcello destaca: enquanto ensina, também aprende, em sua busca por este jeito de tocar a “guitarra criolla”. Do material que foi reunindo nasceu “Vídeoaula de violão gaúcho”, um curso em DVD lançado em 2010. A intenção do trabalho é mostrar ritmos como a milonga, a vanera, o vanerão e o chamamé tocados no violão, ritmos esses que diferenciam o sul dos demais gêneros musicais. Em 2012, Caminha realizou o projeto “A viagem do violão gaúcho”, junto ao Ministério da Cultura, levando shows e oficinas a várias cidades da região sul. Já nesta época, viajar com o parceiro de cordas não era novidade: há 10 anos Marcello está à frente da “Oficina Violão Gaúcho”, gratuita, que percorre cidades do interior e outros estados. “É uma prosa, como eu gosto de dizer, para iniciantes e para o pessoal que gosta de violão. É mais motivacional do que propriamente didático”, brinca. Em 2013, lançou o livro “14 estudos para o violão gaúcho”, estendendo as aulas para o papel. Apresentar e desvendar este instrumento em seus cursos é um prazer para Marcello. “É muito bacana, uma coisa que eu não pretendo parar de fazer”, afirma.

Influência

As referências de Caminha são muitas. “Como instrumentista, a gente busca um pouco de cada gênero e disto surgiu a ideia do CD ‘Influência’”, explica. “Porque eu escuto muito heavy metal, samba, jazz, folclore latino-americano, e vou pegando um pouquinho de cada coisa. Eu sempre falo – e até é um recado que eu mantenho para meus alunos do Curso Violão Gaúcho – que o importante é a gente criar um estilo próprio de tocar. Acho que é isso que eu consegui fazer”, diz. Vê o caminho regionalista como o mais receptivo a quem quer trabalhar com música no estado: “Nós temos um mercado de música nativista aqui que não se compara a nenhum outro gênero”, diz. Para ele, o movimento nativista hoje é efetivo e sólido. Não por menos, as canções estão ligadas ao Rio Grande. “A cultura gaúcha é o sentimento pelas coisas da terra, elementos como o campo, o ambiente no qual a pessoa se encontra. Nós temos um atavismo, que é essa sensação particular do Rio Grande do Sul”, diz. “É um sentimento que nós não conseguimos materializar – gostamos do Rio Grande, gostamos da música, não fazemos a não ser por esta chama que está acesa em cada um de nós”. No dedilhar do violão, Marcello alcança seu público, colocando acima da técnica esta pura emoção.

 

 “Quem é do garrão da pátria, alma, sangue e procedência, o amor pela querência traz retratado na estampa – retovos de casco e guampa no repertório da lida, pra que o sentido da vida finque raízes na pampa” (“Apaisanado”, de Anomar Danúbio Vieira e Marcello Caminha)

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