Manuel Carvalhal: “O Mercado faz parte da minha vida”

 

Manuel Carvalhal: “O Mercado faz parte da minha vida”. 

 

     Ele veio com 17 anos para o Brasil, vindo de Portugal. Como muitos imigrantes, veio com a chamada Carta de Chamada e direto para o Mercado, para trabalhar com um tio no Café Municipal. Este é o “brincalhão responsável” Manuel Celestino Azevedo Carvalhal, 66 anos, nascido em Benavente, cidade agrícola a 45 km de Lisboa.  

    

 O jovem cruzou sozinho os mares, a bordo do então moderno transatlântico italiano que o deixou, inicialmente no Rio de Janeiro. Mas uma semana depois já estava no seu destino final, Porto Alegre. Mais precisamente, no Mercado Público. O garoto veio tão cedo para escapar da guerra. Não que tivesse medo ou coisa parecida, como diz. “Não era falta de civismo, mas eu ia defender uma coisa que eu nem sabia o que era, arriscando a minha vida”. Na época Portugal estava em guerra com as suas colônias na Ásia e África, principalmente Angola e Moçambique. Os soldados que voltavam ou estavam doentes ou mutilados – sem falar dos mortos. O pai era comerciante (teve uma padaria) e agricultor e um “pouquinho mais, homem de 10 profissões”, como diz Manoel. O Café Municipal, propriedade do seu tio José de Souza Neves, era a metade do atual Gambrinus e da Pastelaria Nova Vida. Ali começou como empregado. A sensação na chegada? “Eu senti o que todo imigrante sente nos primeiros seis meses: muita saudade e dificuldade de conciliar a nova realidade. Até os 17 anos eu nunca tinha passado nenhum dia fora de casa e de repente me vi num outro país, com hábitos diferentes, sem os amigos e a família. Mas a partir dos seis meses começou a engrenar, passei a gostar muito do país”, recorda. A maneira do povo brasileiro ser, descontraído, era parecida com o seu temperamento, diferente do que era em Portugal, considera ele. Na época o país vivia a ditadura salazarista e os portugueses, de uma maneira ou de outra, sofriam as influências daquele regime duro e opressivo. “Eram mais sérios, não eram dados às brincadeiras e descontrações como aqui”. 

 

O jovem empreendedor

“Quando eu cheguei Porto Alegre era completamente diferente, a vida noturna eram as boates que tinham no entorno do Mercado, o Marabá, Maipu, Cascalho, American Boate”, lembra. Não chegou a frequentar o Treviso e o Graxaim. “Era empregado e não tinha dinheiro para ir no Treviso. O meu almoço era no tio e a janta era um pintado frito e um tomatinho comprado no Mercado”, diz. A rotina era a de um rapaz solteiro. Morou com o tio, depois em quarto alugado, convivendo com os familiares nas festas de natal, páscoa, ano novo, as primeiras namoradas. “Me divertia conforme dava”, recorda. No Café Municipal ficou dois anos. Com uma “economiazinha” e mais um dinheiro emprestado de outro tio, comprou um negócio na André da Rocha, um barzinho, junto com João Melo, irmão do antigo dono do Gam­brinus, Antonio Melo, já falecido. Mas não parou aí, partiu para uma lancheria na praça Otávio Rocha, entre 1969 e 1974, indo depois para outro estabelecimento, desta vez na Doutor Flores, onde ficou até 1987. 

 A volta para o Mercado

     Então, voltou ao Mercado, trabalhando “por sua conta” na Casa de Carnes Madrid. Porém, nesse período em que esteve fora não se passavam dois dias sem ir no Mercado. “Enquanto não voltei, não sosseguei”, resume. Para o novo empreendimento, onde entrou como sócio, foi convidado por Silvino Premaor Novo, que já conhecia bem o ramo. Junto, tinha o gerente Paulo Rodrigues, que trabalha com Manuel até hoje. Aprendeu os “macetes” do comércio de carnes ligeiro. “O importante é conhecer as regras do comércio”, diz. Pegou a época do congelamento e tabelamento de preços, os rigores da SUNAB e as manobras dos frigoríficos, que escondiam a carne para vender por preços mais altos. Na época eram 20 açougues, contra sete de hoje. Ficou até 2001 no açougue. Para ele o que contava era a motivação e o ideal de fazer a vida e ter independência e então constuir a familia e o almejado patrimônio. Então, em 1968 começou a estudar no SENAC, depois fez contabilidade no Anexo da UFRGS e finalmente Ciências Contábeis na PUC. Foi na faculdade que conheceu sua futura esposa, Nelida Maria Zavarize Carvalhal, com quem teve duas filhas, Ana Paula e Fátima Cristina, uma morando em São Paulo e outra nos Estados Unidos. Nunca atuou na profissão porque já estava estabelecido e não achou interessante economicamente seguir a vida de contador. Quando ficou sozinho no açougue, depois de comprar a parte dos dois sócios, a esposa que era aposentada veio trabalhar com ele. 

Partindo para o Armazém do Mercado

     Mas o inquieto Manuel percebeu que era hora de mudar de ramo. Novas tendências de uma alimentação natural estavam cada vez mais fortes naquela virada de milênio. Então, em 2000, abandona o açougue e parte para o Armazém do Mercado, de produtos naturais. “Com a mudança da mentalidade na alimentação achei que o Armazém teria mais mercado que açougue, podia vender mais produtos – no açougue era só carvão, ovos e sal, além da carne”, resume. Ao contrário de muitos mercadeiros, passou toda a reforma sem fechar as portas porque a loja era virada para a rua. “Fui um dos poucos que teve esta felicidade”, conta. O novo negócio logo decolou, coroando uma trajetória vitoriosa daquele jovem português que logo gostou da nova terra e fez muitos amigos. “Há muitos anos que estou100% ambientado. Às vezes até brinco, dizendo que meu pai fez a fórmula certa para exportar para o Brasil. Ele achava que eu não gostava de trabalhar, só brincar, então tem que ir para o Brasil”. Isto porque o seu jeito brincalhão e extrovertido combina muito com o espírito brasileiro, acredita ele. 

Espírito coletivo e clientes amigos

     No Mercado sempre foi muito bem visto e sempre teve o apoio da família. Esteve na diretoria da Associação dos Permissionários pelo menos em três gestões, como secretário, tesoureiro e vice-presidente. “Sempre tive um espírito de coletivismo, sindicalista”. Hoje aposta no sangue novo hoje, gente nova. “O Mercado faz parte da minha vida, sou daquelas pessoas que onde vai sempre procura os mercados públicos para ver como é o comércio. Um shopping não me atrai tanto como o mercado, onde a comercialização é mais simples, mais bonita que um shopping todo cheio de luzes, sofisticado”, compara. Para ele isto faz parte da sua maneira simples de ser. Quanto aos clientes, muitos ficam amigos, assim como também são amigos do próprio Mercado. Ainda sobre a reforma, acha que ela foi necessária e veio na hora certa. “O Mercado estava pedindo socorro.” 

Sonhos realizados

     Analisando hoje ele acha que talvez não imaginasse que chegasse a tanto, ou seja, onde chegou. Tinha ambições, mas não imaginava como seria o seu futuro. “Queria melhorar de vida sim, mas não sabia nem como, nem por ondeMas posso dizer que atingi os objetivos. Hoje ele acha que tudo é muito mais fácil, com a evolução, a tecnologia e que o jovem tem mais facilidades que no seu tempo. Para ele um bom comerciante às vezes tem que arriscar, evoluir, para ir mais longe. Agora já não tem mais grandes projetos. “Agora é hora de pensar em viver algo melhor”, finaliza. 

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