Lupicínio Rodrigues, o grande cantor da dor de cotovelo

Centro Histórico, por Emílio Chagas

 

A cidade comemora este ano o centenário de nascimento de um dos maiores compositores gaúchos, Lupicínio Rodrigues, nascido em 1914 na antiga Ilhota – que, como o nome já diz, era uma pequena ilha nas atuais imediações do estádio Tesourinha e do Centro Municipal de Cultura. Aliás, esta região que pertencia ao bairro Menino Deus passou, por lei recente, a se chamar novamente Ilhota. Símbolo da boemia, ele foi alvo de uma série de homenagens no estado e tema de um dos roteiros Territórios Negros, da Carris, ministrado pela historiadora e monitora Fátima Rejane André, do Departamento de Memória da empresa.

 

Partindo do Largo Zumbi dos Palmares, um ônibus da Carris, levando algumas dezenas de interessados, traçou em aproximadamente três horas o itinerário das vivências do compositor, começando pela própria Ilhota, antes cercada pelo antigo arroio Cascatinha, tendo nas cercanias também outro arroio, o Dilúvio, popularmente conhecido como riacho Ipiranga. Diz Rejane que na noite do nascimento de Lupicínio caía uma chuva torrencial, tendo a parteira que chegar de caíque. “Na hora em que nasceu o menino abriu um clarão no céu”, diz a historiadora. O pai, Francisco Rodrigues, era um negro “letrado”, fato raro naquela época, e funcionário público. Ele escolheu este nome porque leu no Correio do Povo sobre um general da I Guerra Mundial assim chamado. A Ilhota compunha com o Areal da Baronesa e a chamada Colônia Africana (hoje os bairros Bom Fim e Rio Branco) o reduto de negros escravizados que foram libertos. Na época eram regiões muito afastadas do elitizado centro da cidade. A Ilhota era um reduto boêmio e de “malandragem”, assinala Fátima. Ali o menino se criou, frequentando principalmente a Praça Garibaldi e o cinema de mesmo nome, apelidado de “Garipulga”, onde ele vendia balas e pastéis para ajudar a família de mais de 20 irmãos.

Foto: Fernanda Leal PMPA

Em duas tentativas de frequentar os bancos escolares, ambas as escolas o rejeitaram: era por demais inquieto e perturbava o ambiente – gostava mesmo era de ficar batucando na mesa e mexendo com as meninas.

 

Começa a boemia

Foto: Cristine Rochol PMPA

Na antiga Rua da Margem, atual João Alfredo, aos 13 anos, o jovem compositor já frequentava os bares, se reunindo com os “homens da noite”. Nessa mesma idade fez a sua primeira música, “Carnaval”, que acabaria sendo premiada por três vezes em concursos, numa época em que não existiam direitos autorais. O sonho do pai, contudo, era que o filho fosse um grande mecânico. Por isto ele foi levado para o colégio Parobé, e depois, para tentar afastar o garoto da boemia, seu pai conseguiu um emprego para ele na Cia. Carris, onde ficou muito pouco tempo, empurrando bondes nas oficinas. Neste período ele registrou que o “micróbio do samba desde pequeno não o deixava trabalhar”. Como diz Fátima, “a Carris perdeu um mecânico, mas Porto Alegre ganhou um dos seus melhores compositores”. Finalmente, entre os 15 e 16 anos, numa última tentativa, o pai Francisco alistou o garoto como voluntário no exército. Porém, no quartel logo formou um grupo de música com outros soldados. Ele deixou a unidade de Porto Alegre em 1935, seguindo para Santa Maria, onde foi promovido a cabo e ficou noivo, aos 16 anos. A noiva, porém, percebendo o seu gosto pela música e boemia, desistiu de casar. É quando o compositor veio a reencontrar a sua futura esposa, Cerenita, depois de 20 anos – na infância, ele dava uma moedinha para brincar com os cachinhos dos cabelos dela.

 

Noel Rosa: “esse garoto vai longe”…

Em 1932, o Correio do Povo anunciava: “Vem para Porto Alegre os Ases do Samba”. Os ases, no caso, eram Chico Alves, Mário Reis e Noel Rosa, os grandes nomes do samba na época.

Foto: Fernanda Leal PMPA

“Ele e um dos colegas do grupo de música do quartel compraram os ingressos e foram assistir, na primeira fila”, diz a monitora. Depois do show, os bares da Ilhota. Na Rua da Margem, ficaram comemorando e cantando em um bar ao lado de outro, onde estavam os três bambas brasileiros – que acabaram indo assistir Lupicínio cantar. Então Noel Rosa, considerado até hoje o mais importante compositor brasileiro, disse: “Esse garoto é bom, esse garoto vai longe”… E Chico Alves, o maior cantor brasileiro na época, disse: “Quando você for ao Rio de Janeiro, me procure”. Depois da noitada, no outro dia os soldados perderam a hora de entrar no quartel e acabaram presos por indisciplina. Mas Lupicínio profetizou para o colega preso: “Um dia o Chico Alves vai cantar as minhas músicas”. E estava certo: depois de uma aposentadoria precoce, aos 28 anos, provocada por problemas nos pulmões, e de ter trabalhado como badel (uma espécie de fiscal de corredores) na UFRGS, conseguiu “juntar um dinheirinho” e ir para o Rio. Encontrou novamente Chico Alves. Em um bar, claro. O cantor foi direto: “Não dá tuas músicas para ninguém, eu gravo todas elas”. A esta altura, no início dos anos 40, Lupicínio já tinha emplacado seu primeiro grande sucesso, “Se acaso você chegasse”. Estava aberto o caminho para a fama e para a glória.

 

O rei da “dor de cotovelo”

Lupicínio, que não tocava nenhum instrumento, apenas caixinha de fósforos, foi o homem que cantou os dissabores do amor, consagrando-se como o compositor das canções da “dor de cotovelo”, como explica a monitora. “Todas as músicas c

antavam o amor e o desamor. O homem colocava as duas mãos na cabeça, apoiadas pelos cotovelos e o copo no meio, ouvindo músicas que quase sempre tinham a ver com traição”. Bem típicas da boemia, as músicas eram feitas na mesa de bar, em cima de um guardanapo. O samba até então era ainda uma música “mal vista”. A situação só melhorou quando o presidente Getúlio Vargas decretou o gênero como a música oficial do Brasil – antes disso, era considerada música de senzala, de negros e marginalizada. Boêmio contumaz, foi grande frequentador da vida noturna porto-alegrense. No Mercado Público, três lugares eram os da sua preferência: o antigo Treviso, o Gambrinus e o Naval, onde compôs algumas de suas mais conhecidas canções. Outros tempos, mas as mesmas paixões, encontros e desencontros amorosos cantados e eternizados pelo grande Lupicínio.

Ao final do roteiro, a música de Lupicínio                                   Foto: Luciano Lanes PMPA

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