Luiz Marenco – A voz e o coração do campeirismo

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

“Daí um verso de campo se chegou da campereada/No lombo de uma gateada frente aberta de respeito/Desencilhou na ramada, já cansado das lonjuras/Mas estampando a figura, campeira, bem do seu jeito”. O trecho da canção “Quando o verso vem pras casa”, composta em parceria com Gujo Teixeira, já emana a essência do canto de Luiz Marenco. A voz possante deste porto-alegrense com ares de campo canta os valores e os costumes campeiros, e já representa o nativismo gaúcho pelo país e pela região platina. Com mais de 20 obras, entre CDs e DVDs, 26 anos de estrada e diversas parcerias musicais, Marenco carrega sua poesia acompanhada do pensamento: “a música entra em todas as casas”.

Foto: Letícia Garcia

Marenco tem os troncos missioneiros em sua história: sua principal referência musical é Noel Guarany e seu primeiro disco foi gravado com Jayme Caetano Braun. O canto de Luiz Marenco, nascido nos festivais dos anos 80, ainda ganhou muito espaço na década seguinte, quando a música campeira ficou forte no estado, unindo aspectos do nativismo e do tradicionalismo – temas sociais, a figura do gaúcho e os costumes do campo. Acumulando premiações ao longo da carreira, como o Prêmio Açorianos com “Enchendo os olhos de campo” (2001) e discos de ouro por “De bota e bombacha” (2002) e “Luiz Marenco ao vivo duplo” (2003), ele consolidou seu nome nas gravações dos festivais. Teve mais de 250 composições em discos dos eventos, e ainda venceu a icônica Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana com a canção “Forasteiro” (1997).

 

Entranhado no sangue

 “Quando comecei a cantar, em 1988, era o que eu queria fazer. Eu sempre disse, se é para cantar, eu vou cantar o que eu sinto. Se tu faz aquilo que ama, se tu faz com o coração, tu não está mentindo, e isso não fica mais contigo: tu passa para as pessoas esse sentimento. E essas pessoas compreendem que todo mundo tem esse sentimento, tem essa coisa do chão, da nossa terra… O gaúcho é muito assim, tem essa coisa entranhada no sangue, no coração. É muito fácil cantar este tipo de música no Rio Grande do Sul. Com o tempo eu fui vendo que eu estava certo, porque cada vez eu vejo mais esta gurizada me acompanhando, cantando comigo. Eu estou aí há 25 anos vivendo da música, e a música sempre crescendo, com novos cantores surgindo, fazendo a mesma coisa que eu faço até hoje. Tem sido muito bom”.

 

Canto do campo

 “Minha música fala da terra, do povo, fala da minha gente. O que eu canto hoje não é o que eu estou vivendo – eu moro na cidade, bem no interior, cidade pequena, e só quando posso eu vou ‘para fora’, tenho um lugarzinho lá fora. Eu não vivo aquilo diariamente, mas o que eu canto vem do campo. Então esta música é de um folclore, de uma raiz, fala da história de um povo, a história da nossa gente, que fez o primeiro povoamento deste estado – e não só aqui, mas no Uruguai e parte da Argentina. Eu canto o que estava aqui há três séculos, o que nasceu aqui há três séculos, que é o gaúcho. Quero que as pessoas compreendam e entendam o lugar em que vivem e o lugar de onde vieram. Que elas saibam que a nossa história é maravilhosa, saibam o que nossos avós nos deixaram, o que nos contaram e que foi contado a eles um dia. Quero transmitir essa história, do nosso povo, nossa música, nossa raiz. Acho que é até uma coisa muito simples, não é? Cantar a gente que vive no teu lugar. É o que eu tento fazer”.

 

Parcerias

 “Meu primeiro CD foi em parceria com Jayme Caetano Braun. Depois eu fiz um com Noel Guarany, que é minha referência maior. Então cantei com o Pepe Guerra, cantor uruguaio que pertencia ao Los Olimareños, um homem que andou pelo mundo inteiro cantando no tempo da ditadura, gravou muitos discos no exterior. Também já gravei com Jari Terres. Em 2000, gravei um disco que se chama “Pra o meu consumo”, em que sou só eu com um violão. Agora terminei outro disco que vai chegar em junho, se chama “Sul”, e vai vir com um livro de fotografias e poesias de Sérgio Carvalho Pereira, meu primeiro parceiro musical”.

 

A visão dos festivais

 “Quando comecei a cantar, há 25 anos, existiam praticamente 60 festivais; hoje existem uns 15 a 20. O festival é muito importante, porque é uma vitrine, e é desta vitrine que eu nasci – eu e João de Almeida Neto, César Passarinho e tantos e tantos outros. Cantores, compositores, músicos e poetas nasceram deste movimento. Aí já fica uma preocupação: diminuíram em uns 60% os festivais. E esses artistas que estão surgindo agora? Para eles o espaço é bem menor. Aqueles que já estavam cantando também têm o seu espaço, e estão dividindo com os que estão chegando. Além disso, um dia eu me vou, e tem que ficar alguém. Se não ficar alguém, para onde é que vai a nossa música, o nosso folclore? Tem que haver também uma troca de informações. Isso é importante, tem que ser pensado. Eu me preocupo com isso”.

 

Música hoje

 “Vejo bastante espaço para a música campeira hoje. A nossa música entrou na universidade. Essa juventude me escuta e escuta outros cantores companheiros meus. A música hoje entrou por todos os cantos. Fiz um show em Santa Rosa com o Thedy Corrêa, do Nenhum de Nós – nós temos um espetáculo juntos–, no Centro Cívico lotado, e as pessoas cantando rock com o Thedy e cantando música campeira comigo. Essa gurizada que gosta de ouvir um rock também ouve o Marenco. Isso é o importante, isso é o legal: a tua música entrar em todos os lugares, em todos os povos”.

 

“Têm coisas que tem seu valor

Avaliada em quilates, em cifras e fins,

E outras não têm o apreço

Nem pagam o preço que valem pra mim”.

(“Pra o meu consumo”, Gujo Teixeira e Luiz Marenco)

COMENTÁRIOS