Luiz Coronel, Patrono da 58ª Feira do Livro “Ser patrono é a honra mais alta concedida a um escritor gaúcho”

Luiz Coronel, Patrono da 58ª Feira do Livro

“Ser patrono é a honra mais alta concedida a um escritor gaúcho”

 

Ele faz questão de dizer que é apenas um entre mil, e que a sua honra é “representar momentânea e circunstancialmente o empenho de valorização do livro, da palavra e o trabalho árduo dos escritores, muitas vezes para escrever uma página”. Ele é Luiz Coronel, escritor, poeta, compositor, editor e publicitário, nascido em Bagé, formado em Direito e Ciências Sociais pela UFRGS – é o Patrono da edição da Feira do Livro de 2012. Com uma extensa produção, Coronel divide-se entre a literatura e a publicidade, sempre acumulando muitos prêmios. O patronato da Feira é o reconhecimento definitivo pela obra deste homem, que considera o livro um farol que ilumina o mundo.

Eu chego à Feira com uma concepção muito clara que, ao sermos escolhidos para Patrono passamos a ser representantes de livreiros, editores, escritores e que é a honra mais alta concedida a um escritor no Rio Grande do Sul. Por isto, chego como colega, irmão dos escritores, numa cidade que tem tão belos escritores e uma grande coleção de patronáveis. Já havia uma expectativa que fosse eu, os patronáveis já me cumprimentavam. Foi muito unânime, pela idade, era a hora e a vez. Sou um homem com muita estrada, não caminhei num caminho dividido. Mas eu não chego com as mãos vazias, este ano vai para 56 livros que eu escrevi. A única coisa que eu diria aos escritores é que não podemos ficar parados atrás do nosso oficio de escrever, a não ser que sejamos célebres, caso contrário vamos ter que capinar, buscar espaço, lutar pelo nosso trabalho, vender ingressos, empurrar o piano, aí as coisas acontecem. Tenho sido muito humilde nisso, a cada livro distribuo cartãozinho, telefono convidando. Então, nos meus lançamentos de livros chegam a ter 500 pessoas. Falo nisso pela postura do escritor, principalmente os novos. Não pode achar que o mundo vem ao seu encontro, tem que estabelecer uma relação com o mundo, e escrever de uma forma mais acessível.

 

Parceiro dos interesses da Feira

 

O meu interesse é ser parceiro da Feira. Como o governo pode recusar apoio ao maior evento cultural do Rio Grande do Sul? Só podem ser esses meandros inexplicáveis do poder. Veja a luta dos livreiros para que a Feira seja um evento pré-estabelecido, sem percorrer toda essa jornada burocrata, buscando “améns” que já eram para ter sido dados há muito tempo.  Aos 58 anos, a Feira já deveria ser um evento consagrado. E eu quero ser parceiro dessa consagração. É um evento maravilhoso, com 10 países comparecendo, 100 mil pessoas transitando a cada dia e um milhão e 500 mil pessoas no balanço final e mais de 500 mil livros vendidos.

 

Livro e civilização 

 

Somente o livro é que vai dar aquela coisa fundamental chamada consciência, contra a frivolidade. O importante é o processo civilizatório. Mas  não basta que as pessoas acessem os eventos. A civilização tem sido um convite à banalidade e descartabilidade. O livro ainda é uma busca da permanência no mundo da transitoriedade. Eu, por exemplo, estou propondo a criação do Museu Farroupilha, para que o Acampamento não seja uma festa frívola. E para que a criança que entre vá lendo as causas, os combates, os personagens. O livro prende o homem ao universo. É dentro do livro que está o mais consistente sobre a experiência humana dos últimos cinco séculos. Quando Guttenberg criou a imprensa ele disse: “com estes 23 soldados eu vou dominar o mundo”. E Victor Hugo disse: “O livro é o grande revolução da humanidade”.

 

Futuro do livro

 

Há pessoas que dizem que o livro tem seus dias contados. Eu, pelo contrário, acho que o livro, mais do que nunca, se tornou necessário, em suas múltiplas formas. Eu acredito no banner, no book eletrônico, mas acredito fundamentalmente no livro, na mídia impressa. É como disse Saramago: eu acredito que seja possível verter lágrimas sobre um livro, mas não creio que isso seja possível sobre a tela de um computador. Sempre cito os primeiros versos do samba enredo da União da Vila do IAPI, quando fui o tema da escola, O Poeta e a Cidade, que são de Sartre: os livros são meus pássaros, com eles aprendi a voar. Eu me sinto hoje um representante deste mundo de pessoas que lutam pela dignidade do livro e pela palavra como a espinha dorsal da consciência.

 

 O papel de um Patrono das feiras do livro

 

Tive a sorte de ter uma feira geograficamente com melhor espaço, porque a praça da Alfândega ficou pronta. Tenho a honra de substituir o Paixão Cortês e a Jane (Tutikian). A Feira ganhou uma doçura humana muito grande com ela, gentilíssima, afável com as pessoas. Ser Patrono é um pequeno Nobel porto-alegrense. E a Feira fez o milagre de pôr ovos no interior, são 130 feiras no estado. Mas uma coisa que eu determinei é que, se querem que um escritor seja patrono de alguma feira, que a cidade compre 100 livros. Se não quiserem, que o escritor não vá. É questão de dignidade. A ida de um escritor não é só para tirar retrato, oficializar o evento. Com os livros, quando a gente chega, as crianças fazem trabalhos, teatrinho, recitam. E se propagam.

 

Realidade atual do mercado editorial gaúcho

 

Nos últimos tempos, nós perdemos. Fomos o cenário da literatura gaúcha com a Livraria do Globo. Mario Quintana, Erico, traduzindo Proust, Virgínia Woolf, Guy de Maupassant. Hoje temos o belo trabalho dos pockets books da LP&M, mas acho que temos que fazer mais livros e bem feitos. E o escritor tem que ir atrás, não pode mais se dar o luxo de achar que basta andar pelas ruas recitando seu poema, sonhando seu romance. Vai ter que lutar pelo seu livro. Eu vou ter 90 anos e vou estar lutando pelos meus livros.

Literatura gaúcha e realidade regional

 

Neste ano de 2013 completo 40 anos de literatura. Já comecei a romper as placentas gaúchas, com a coleção Dicionário, que vai para todo o Brasil. Brinco que a partir do (rio) Mampituba tudo é exílio. É bom saber que no Rio Grande do Sul tu já tens um mercado. Enquanto autores no Rio e São Paulo lutam para vender três mil exemplares, tu já vendes isto aqui. O Rio Grande é um país no coração, e isto não é um pensamento isolacionista. Acho a situação ideal a do Luis Fernando Verissimo, Lya Luft, João Gilberto Noll. Se não se abrirem as fronteiras, tu já tens o mercado gaúcho. E nós temos bons escritores e poetas, como Luiz de Miranda, importante, uma vida dedicada à literatura, com quem fiz “Porto Alegre, o bem que me faz o bem que te quero”, livro de 1992, que estou pensando em reeditar.

 

Linguagem gaúcha

 

Aqui no sul existe um sanguezinho espanhol. O norte também tem, mas aqueles países são completamente distantes de nós, Colômbia, Venezuela. Já nós aqui, temos uma influência espanhola muito grande. Tu não vais encontrar um escritor gaúcho que não tenha lido Borges, um músico que não conheça Atahualpa y Panque, temos uma afinidade espanhola que nos diferencia. Das coisas que gosto mais de ter escrito estão aquelas com a marca gaúcha, como a Cartilha Farroupilha, as milongas para o filme do Tabajara Ruas, o Filé de Borboleta. Já tenho 156 causos gaúchos novos, herdando a maravilha da forma de Simões Lopes Neto, aprendendo com Élbio Piccoli, Darci Azambuja, Ciro Martins.

 

Feira, literatura e publicidade

 

Acho que os publicitários deveriam sugerir e motivar seus clientes a terem uma participação cultural mais intensa, em atividades como a Feira do Livro, por exemplo. A apoiar, como o meu cliente Zaffari. Assim, nós teríamos um movimento cultural mais rico em Porto Alegre. As agências tem bons profissionais, inteligentes, mas ainda com uma ênfase maior no negócio publicitário, do que na possibilidade cultural da publicidade. E eu, individualmente, antes da preocupação negocial da propaganda, sempre tive a preocupação da construção da imagem, através do investimento cultural.

 

Luiz Coronel e o Mercado Público

 

Eu sou frequentador do Mercado Público, estou lá todos os sábados comprando peixe, tomando salada de frutas. É a minha praça aos sábados de manhã. Ele tem um aroma, um clima, um cheiro de gente, uma movimentação que chega a ser uma aflita poesia. É lá que vai se ver o peixe, tomar a salada de frutas, ele herda uma memória que vem correndo pelo corredor dos séculos, das feiras, das vendas de esquinas, dos mercados, dos homens gritando seus produtos. O Mercado não pode perder sua essência popular, alma de povo simples. Eu chego mais perto do homem simples em frações de segundos, já sou irmão dele. Eu tenho muito mais facilidade de lidar com homens simples, do que com intelectuais. O Mercado, para mim, tem aquela aura, de conversar com essa gente simples, de quem está na fila, comprando banana, frutas, queijo – a gente já chega e já conversa. E vai tomar um bom café, uma salada de frutas. O Mercado é um universo que expressa os melhores dados da alma popular, de uma forma ruidosa, colorida.

 

Foto: Amanda Mesquita

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