Luiz Carlos de Matos, o “Lico”: “O Mercado é uma família, minha segunda casa.”

Ele está no Mercado Público desde a década de 70. E conheceu muita gente da chamada “velha guarda”, que fez a história mercadeira. Nascido em agosto de 1957, casado, cinco filhos (dois dos quais trabalharam no Mercado – um saiu, outro já faleceu), natural de Porto Alegre, sua trajetória começou no antigo Mercado Livre, que ficava onde hoje está localizada a estação Mercado do Trensurb.

personagem

Foto: Letícia Garcia

“Tinha um amigo que trabalhava na banca 31 e me convidou. Era o Reinaldo, também conhecido como Garrincha, que hoje está na Banca do Holandês. Nos criamos juntos, no Sarandi, na Vila Elizabeth.” Depois disso, Luiz Carlos foi morar em Tramandaí, onde ficou três anos. Lá trabalhou em obras, depois como salva-vida, isso em meados dos anos 1970. Foi convidado para seguir na carreira e ingressar na Brigada Militar, mas preferiu trabalhar numa empresa de mergulho, no Jacuí, abrindo canais. Porém, depois de um acidente, resolveu voltar para a capital. Veio trabalhar na fruteira chamada Fruteirão, dos Mancuso, que ficava no meio do Mercado. “Naquele tempo, os produtos vinham da Ceasa e a gente saía para fazer entregas na cidade com um balaio de vime, levando melancia, banana, mamão. A gente era guri e ia até a metade do caminho, descansava e depois seguia pela Rua da Praia.” Ali ficou mais três anos. Começava, assim, uma trajetória de décadas, incluindo outras bancas: trabalhou com Arno De Paoli e Dalci Salami, personagem histórica do Mercado, na antiga agropecuária Banca 46 por 13 anos. Tempos depois, os dois sócios resolveram romper o negócio e Luiz Carlos ficou na banca de Salami, Agropecuária Banca 15 – Loja 69. Só nessas duas bancas foram 36 anos de Mercado.

ENTRA EM CAMPO O FUTEBOL

A carreira de Lico continuou na Banca 15 até este ano. Em fevereiro, ele foi convidado a voltar a trabalhar com Arno em sua Agropecuária De Paoli – e mudou de agropecuária. Popular, conhece todo mundo no Mercado. O futebol também contribuiu muito para isso, pois sempre jogou o Torneio do Mercado, tradicional campeonato e disputa entre as bancas. “Eu jogava no time da Japesca, ganhamos uns 15 campeonatos. Era um time muito bom, tinha uma ‘guerra’ com a banca 30 – num ano um time ganhava, no outro, era a vez do rival. Aí começamos a ‘atropelar’ e passar por cima e eles não ganharam mais.” O “craque” parou com o futebol há uns 10 anos, mas ainda joga “uma bolinha”. Ele chegou, inclusive, a jogar no interior, em Lajeado, Nova Petrópolis e Rolante. “Pagavam para eu jogar. Estive até no Novo Hamburgo, me viram jogar em Tramandaí e me levaram. Na época era um time pequeno, não tinha muito dinheiro, depois cresceu.” Do Mercado antigo, tem muitas lembranças. “Peguei o tempo da Coreia (antiga área onde ficavam as peixarias, em banquinhas de pedra), tempo bom, se trabalhava muito aqui. Na hora de almoçar, a gente almoçava de pé. Às vezes, estava almoçando e te chamavam para atender. O Mercado naquele tempo era muito bom, conheço toda a turma antiga, mas muita gente morreu.”

A VENDA DE ANIMAIS NO MERCADO

Na famosa reforma do Mercado dos anos 1990, ele trabalhava na Banca 15. Lembra que foi umas das poucas bancas que não precisou fechar; a maioria teve que ser remanejada, principalmente para o piso superior. A banca continuou aberta pelo simples detalhe de ter porta para a rua – por sorte, porque a maioria das bancas sentiu muito, algumas até fecharam para sempre. Quanto à rotina, diz que a de hoje ainda é a mesma, “da manhã à noite”. Umas das diferenças é que antes era apenas meia hora para o almoço. No mundo das agropecuárias, diz que aprendeu muitas coisas, como lidar com os clientes, com os quais sempre fez amizades. “Tinha uma freguesia boa naquele tempo, principalmente porque se trabalhava com animais – canário, coelho, galinha, galo, pato, pinto, passarinho, periquito, pomba. Vendia para pessoas que queriam reproduzir para a alimentação, e também para os religiosos. E vendia muito. Depois a prefeitura proibiu de se trabalhar com bicho aqui.” Por falar em vendas, diz que hoje elas estão até um pouco melhores. “Cresceu muito este negócio de cachorro, todo mundo tem um em casa. Acho que hoje se ganha mais dinheiro neste ramo do que na época antiga. Agora tem todo o tipo de ração.”

TEMPOS DE FESTA E MAIS UNIÃO

Também não esquece as grandes festas de fim de ano e de aniversário do Mercado, que aconteciam na Casa de Portugal. Eram tempos, diz, em que todo mundo era muito unido, com amizades mais sólidas. “As pessoas se conheciam melhor e se encontravam mais, as famílias iam aos torneios, passavam todo o domingo lá, com churrascadas. Hoje também, mas não é como antigamente.” Outra lembrança: as brincadeiras nos corredores, jogando bolinha de papel e taco. Mas as lembranças maiores ainda são ligadas ao futebol, principalmente quando o seu time ganhava o campeonato. “A gente soltava foguete o dia todo, passava com o troféu na frente das outras bancas e ia para a churrascaria ou galeteria, com tudo pago, para comemorar.” E o apelido Lico? “Todo mundo me conhece por ele, mas se perguntar pelo nome Luiz Carlos ninguém sabe quem é, só os antigos.” O apelido vem dos tempos de menino, no futebol, porque ele era “gordinho e baixinho”. Era muito comum, na época, apelidar pessoas assim como “liquinho” (botijão de gás de 2 kg), que derivou para a corruptela “Lico”. Das mudanças que o Mercado sofreu, destaca uma: a forma de começar nele. Antes, observa, tudo funcionava através das indicações de conhecidos. “Hoje, não. Essa gurizada larga os currículos e já entra. Não é como os antigos, que não faltam nunca, nem ficam no telefone o tempo todo nos corredores.” E dos acontecimentos, o mais trágico para ele foi o último incêndio. “Pensei que tinha terminado o Mercado”, conclui. Felizmente, não.

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