Luís Augusto Fischer, patrono da 59ª Feira do Livro de Porto Alegre “O livro é o depósito daquilo que a humanidade fez e faz de melhor”

Luís Augusto Fischer, patrono da 59ª Feira do Livro de Porto Alegre

“O livro é o depósito daquilo que a humanidade fez e faz de melhor”

 

Patrono da 59ª Feira do Livro de Porto Alegre, o professor da UFRGS Luís Augusto Fischer, também crítico, ensaísta e escritor, é natural de Novo Hamburgo e realizou toda a sua formação acadêmica na própria UFRGS. Foi coordenador do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e presidente da Associação Gaúcha de Escritores. Tem contos, crônicas e ensaios publicados, sendo autor dos livros “Machado e Borges”, “Inteligência com Dor”, “Edifício do Lado da Sombra”, “Rua Desconhecida”, “Quatro Negros”, “Dicionário de Porto-Alegrês” e “Dicionário de Palavras e Expressões Estrangeiras”, entre outros.

 

Qual a sua formação e trajetória?

 

            Sou formado em Letras, estudei História sem me formar, depois fiz mestrado e doutorado em Literatura. Sou professor desde março de 1980, primeiro em escolas de Porto Alegre (Anchieta, Israelita e Militar) e em cursinhos, e depois, a partir de 1984, na UFRGS, onde leciono na graduação e na pós-graduação. Na UFRGS, leciono disciplinas de Literatura Brasileira, mas já lecionei redação; há uns quinze anos, inventei e conduzo a disciplina de Canção Popular Brasileira. Publico livros faz já bastante tempo, e escrevo para jornais há trinta anos.

 

Qual a sua bandeira como patrono da Feira?

 

            Não sei se chega a ser uma bandeira, mas tenho me apresentado como um leitor, antes de tudo. Claro que ser escolhido como patrono é uma honra, uma homenagem que faz muito bem ao ego, mas tenho pensado que o mais importante é que, ao me escolherem, escolheram um leitor que frequenta a Feira há décadas.

 

Na sua opinião, a Feira está no seu formato ideal? Se não, o que poderia mudar?

 

            Sempre poderá haver mudanças, porque a Feira está inserida em alguns contextos de grande força. Por um lado, é uma feira de venda ao consumidor, com o detalhe nada pequeno de que o produto tem a nobreza do livro, que é o depósito daquilo que a humanidade fez e faz de melhor, das artes às ciências, e por isso a Feira sente uma pressão mudancista ligada à dinâmica do mercado de livros. Por outro, a Feira está inscrita na vida da cidade de Porto Alegre, o que também implica que ela seja obrigada a avançar, na medida em que a cidade se transforma. Em sentido amplo, a Feira sempre pode melhorar para atender mais ao leitor, não apenas para oferecer-lhe o produto livro, mas também para ajudá-lo a discernir e entender o que de melhor há no mercado de livros, cumprindo assim um dos papeis mais importantes e menos óbvios da Feira, que tem a ver com a educação do leitor. Em termos de geografia, me parece que a Feira atingiu um ponto de excelência, comparando as várias fases de sua trajetória. Nos últimos anos ela ocupa não apenas a linda Praça da Alfândega, por sinal remodelada belamente, mas também os prédios culturais do entorno e ainda o cais, que este ano, por motivos de força maior, não será utilizado.

 

A escola precisa dar acesso aos livros e a ensinar a ler

 

Quais as melhores alternativas para a formação de leitores nas escolas?

 

            Em sentido amplo, o que a escola precisa fazer é dar acesso aos livros e ensinar a ler. Só isso e tudo isso. Dar acesso implica ter biblioteca boa e aberta para o usuário, de preferência para além do horário de aulas. Ensinar a ler implica uma série de coisas, conforme a etapa escolar. Para as crianças, é preciso demonstrar o grande prazer que o livro proporciona para a inteligência e a imaginação, coisa fácil de fazer, dada a grande abertura das crianças para a novidade. Para os adolescentes a coisa complica bastante, por vários motivos: de um lado, eles mesmos passam por uma fase de grande dispersão de interesses, porque o mundo se abre para eles, e isso os leva muitas vezes a achar que a leitura, que requer concentração, é uma perda de tempo; de outro lado, acontece uma distorção que já é histórica no Brasil, que é a de, mesmo nas aulas de literatura, o que mais se faz é preparar o aluno não para ser um leitor maduro, mas para ser um respondedor de perguntas do exame vestibular. Esses dois fatores precisam ser encarados criticamente para podermos avançar na formação de leitores jovens.

 

Como você vê a literatura gaúcha em relação à realidade literária brasileira?

 

            A literatura que se produz no Rio Grande do Sul é muito boa, de primeira linha no quadro brasileiro e mesmo internacional. Temos várias gerações de escritores em atividade, desde os maduros, como Lya Luft, Luis Fernando Verissimo e Sérgio Faraco, entre os setentões, até os jovens de vinte e poucos anos, como Luísa Geisler, todos eles com ótima obra e destaque por mérito.

 

Algum escritor gaúcho ainda não foi devidamente reconhecido, merecendo um resgate?

 

            Seguramente. Aqui entramos num assunto que requereria uma grande conversa, para explicar que muitas vezes ocorre, em províncias como o RS, um fenômeno que faz o pessoal acreditar que, se uma determinada obra não fez sucesso no centro, então ela não é boa. Ocorre que muitas vezes bons valores não são reconhecidos no centro justamente porque praticam uma arte singular, diferente da moda daquele momento, e por isso eles não ganham o devido reconhecimento. Posso mencionar, para não estender muito, dois casos: nos anos 1930 e 40, havia um excelente narrador chamado Telmo Vergara, autor de, entre outros títulos, “Estrada perdida”, um excelente romance. Mas o autor, por motivos variados, não produziu muito, parou de escrever relativamente cedo em sua vida e, por escrever de modo muito diverso do que era então a regra mais bem sucedida no mercado (o romance realista), ficou esquecido. Nunca foi reeditado, o que é uma lástima. Um caso recente é do Luiz Sérgio Metz, que por uma boa conjunção de fatores está sendo reeditado justamente neste ano, com lançamento na Feira, com seu magnífico “Assim na terra”.

 

Quais seriam os novos nomes da literatura gaúcha?

 

            Novos nomes de já provada qualidade? Podemos falar de Daniel Galera, Daniel Pellizari, Carol Bensimon, Marcelo Backes, Diego Grande, entre os 30 e os 40 anos.

 

Como percebe o movimento editorial gaúcho?

 

            Como tem acontecido já há duas gerações, agora temos novas editoras, pequenas e por isso ágeis, embora sem grande capital, que experimentam e lançam novos escritores, o que é ótimo para renovar a cena. Os exemplos mais vistosos desse grupo talvez sejam a editora Arquipélago, a Dublinense, a ARdoTEmpo e a 8Inverso. As maiores estão pressionadas, porque o mercado anda num caminho de oligopólio, patrocinado por multinacionais, que está avançando sobre editoras com bom catálogo. As duas mais fortes do estado, a L&PM e a Artmed, me parece que encontraram um ponto de equilíbrio bom. E tem as demais, fazendo seu serviço que também contribui para o conjunto, como a AGE, a Movimento e outras.

 

Quais seus atuais e próximos projetos?

 

            Estou envolvido com uma reedição comemorativa de um clássico gaúcho, publicado em 1915, o “Antônio Chimango”, que espero que ganhe a visibilidade que merece. E estou pensando em outros dois livros, que por enquanto ainda estão na fase de bolação, de cogitação.

 

Fotos: Carlinhos Rodrigues


 

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