Lucio Yanel – Folclore e raiz

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Folclorista argentino, compositor e grande nome do violão solista do sul, Lucio Yanel é considerado o “mestre da guitarra pampeana”. Difundiu no RS gêneros latino-americanos como a chacarera e o zamba, influenciando gerações – um de seus discípulos é o violonista Yamandu Costa. Premiado em diversos festivais nativistas, Yanel tem mais de mil canções gravadas em parceria com diversos artistas. Há mais de 30 anos vive no Rio Grande do Sul e seu trabalho, ligado à cultura sul-americana, procura conectar o presente com as raízes musicais do folclore.

Foto: Letícia Garcia

Sempre estive na área do folclore argentino, que é a música da terra, rural, aqui chamada de nativista. Comecei a trabalhar com música aos 14 anos, e toco violão desde os nove – estou com 67, então tenho uma trajetória de 53 anos, sempre trabalhando em prol da cultura, da música da terra, da nossa identidade cultural enquanto latino-americanos.

 

Irmanados

A cultura tradicionalista gaúcha e a cultura platina estão bastante próximas, em função de que aqui é uma sequência do que se pratica em países como Argentina e Uruguai. O Brasil, por ser um país continental nas extensões geográficas e ter uma miscigenação muito acentuada, é um balaio de culturas. O que o Rio Grande do Sul faz é se apoiar dentro do que foi territorialmente legado a ele: uma função de fronteira. E quebrando fronteiras, se “irmanando” com as idiossincrasias que são as mesmas do sul, não somente no chimarrão e nos assados, mas nos usos e costumes, na própria maneira de ser. O perfil principal do Rio Grande do Sul é gaucho, gaúcho. A partir daí nós temos também as etnias que fazem a miscigenação deste estado – alemães, poloneses, italianos, que são muito fortes.

 

Música e folclore

A minha música é uma das mais puras que existem dentro do contexto da musicalidade popular gaucha. Eu trago uma ancestralidade maior, tenho um contágio maior, porque me criei compartilhando momentos de folclore, conversas, leituras e estudos com grandes nomes. Minhas referências musicais são muitas: na minha área “guitarrística”, Eduardo Falú, ícone dos violonistas clássicos de folclore na Argentina, e Atahualpa Yupanqui, uma pessoa que me deu a honra de ser seu amigo e que talvez seja o qualificador de tudo o que é folclore neste século e no século passado. Quando eu digo que sou folclorista, digo que sou um trabalhador da cultura, que se preocupa em divulgar os usos e costumes de um estado de coisas como o da América do Sul, e sou um pesquisador da música popular do continente. Estou sempre aprendendo para me localizar e não ficar afastado do público.

 

Linguagem e raiz

Participei 25 anos dos festivais, e agora deixei para os “pingos novos”, como se diz no campo. Não é que eu me sinta velho, mas as coisas vão mudando, tendo uma nova leitura. O jovem de hoje que gravita no âmbito dos festivais tem 20-30 anos, já tem outra concepção, a musicalidade e poesia já não são as minhas. Eu pertenço à dinastia de meus companheiros de composição Aparício Silva Rillo, Jayme Caetano Braun, Cenair Maicá – é outra linguagem. Sei muito porque vivi intensamente, mas ainda tenho muito a aprender, justamente essa movimentação que se gera a partir da juventude, a nova dialética que se está praticando dentro do contexto da música popular do nosso Cone Sul. Eles têm uma linguagem nova e eu aprendo o suficiente para passar para eles uma mensagem, não de ancestralidade, mas de raiz – porque eu venho da raiz e eu sou a raiz.

 

Estudo da cultura

A cultura tradicional gaúcha é importante porque é a cultura da terra, em primeiro lugar. E a divulgação é essencial, mas também é essencial o estudo da cultura. Está faltando se aprofundar nas raízes do Rio Grande do Sul, conhecer de onde vem este gauchismo, ver se realmente o gaúcho é assim como se está divulgando, ou se há algum tipo de fantasia. Se há essa fantasia, até onde ela pode ser perniciosa, prejudicial às novas gerações? Me parece que o movimento tradicionalista, por exemplo, deve repensar algumas coisas, algum tipo de radicalismo na sua visão. Parece que em alguns momentos nós estamos sendo apenas brilhosos, e não brilhantes. Nós devemos pensar com seriedade, recuar, recapitular, dar um passo atrás para então dar quatro à frente, com certeza e segurança de que fazemos o certo. Porque não é somente para nós, mas para as novas gerações. É preciso estudar, revisar, se aprofundar. Não é só carne gorda, chimarrão e bailanta. Exatamente neste momento, aqueles gaúchos que nós estamos cantando, tocando e interpretando, milhares deles estão passando frio, fome, ao relento, nos corredores do campo e nas cidades, nos bolsões de miséria. São os gaúchos que vieram do campo, expulsos pelas novas tecnologias, pelos grandes monopólios. Isto é uma realidade, não é tudo festa. É de se revisar, entender, para poder cantar com responsabilidade, passando sempre uma mensagem. Comprometendo-nos, nós vamos melhorar nosso país – nosso Brasil, nossa Argentina, nosso Uruguai, nosso Paraguai, nosso continente sul-americano. Devemos almejar isso, e não cantar à toa.

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