Lúcia Boucinha Machado: “Amo o Mercado de paixão”

Ela se diz “mercadeira desde pequeninha” e o Mercado é a sua grande paixão. Também pudera: desde os quatro anos ela convive com este mundo de bancas, pessoas, produtos, compras, vendas e os centenários corredores do Mercado. Nascida em Porto Alegre em 21 de junho de 1966, casada, com uma filha, hoje à frente do restaurante Embaixador, ela repetiu a trajetória da sua mãe, Maria, que já aos 15 anos trabalhava no Mercado. A mãe, uma das precursoras das mulheres no Mercado, grávida de Lúcia, abria caminho trabalhando na banca do seu tio Bevenuto Toniolo, dono da banca 17. José Boucinha, o pai, tinha uma pastelaria no centro da cidade, próximo da Santa Casa e descia com frequência para o Mercado encontrar os amigos.

E foi numa dessas descidas que ele conheceu a futura esposa, com quem viria a constituir uma família. De origem portuguesa, José ficou até 1962 na Banca 55, hoje Restaurante Pires. “Aí vendeu e retornou em 1970, já casado. Ele e a mãe começaram na 57, perto da atual Japesca, embaixo da escada”, conta. Ali começou o Embaixador, quando ela tinha de quatro para cinco anos. Desde garotinha, portanto, já convive com o Mercado. No começo, vinha às sextas-feiras, principalmente para ir à “pastelaria do japonês, que era uma delícia, para comer o bendito pastel”. O pai, contudo, não queria que as filhas, Lúcia e Cristina, trabalhassem no Mercado. As duas seguiram estudando até a adolescência, quando passaram a frequentar o restaurante. Lúcia fazia pequenos serviços, principalmente na parte burocrática. Depois veio o casamento e, assim como a mãe, ela também exibia a barriga da gravidez da filha pelos corredores do Mercado. “Aqui minha filha deu os primeiros passos”, recorda. Pai e mãe seguiram dando duro, trabalhando de domingo a domingo, inclusive feriados. Até que cansaram. “Em 2000, eu e o meu marido, Pedro Machado, assumimos. O pai já tinha problemas de saúde e a mãe não aguentava mais o trabalho. O Pedro veio tirar umas férias de um funcionário e o pai fez a proposta para ele ficar. Resolvemos assumir, e estamos aqui até hoje”, diz.

 

O futuro e o presente: incertezas e dificuldades

 

Mesmo sem saber qual o futuro do Embaixador, ela não consegue se afastar do restaurante – e do Mercado. Até já tentou, afirma. Mesmo com todos os problemas, estresse, preocupações e muito trabalho – com tudo isso, garante que é divertido, com muita brincadeira e descontração, o que seria impossível em outra empresa qualquer, onde tudo é “muito certinho”. Talvez pela descontração tenha ganhado o carinhoso apelido de “Lúcia louca”, como é chamada quando passa pelos corredores. A filha, Gabriela, fez enfermagem e já está no ramo, mas tem muita preocupação com o futuro do Embaixador. “Nós também não sabemos, é um mistério. Pretendo ficar uns bons anos aqui, mas está sendo muito difícil”, diz. Sobre o incêndio, diz que as consequências continuam até hoje. Acredita que o Mercado perdeu muitos clientes, que descobriram outros lugares no período em que ficou fechado, havendo uma queda muito grande no movimento. O Embaixador permaneceu com suas portas fechadas 58 dias, obrigado a muitos rearranjos internos, principalmente com os funcionários. Traduzindo: prejuízos.

 

Testemunha de reforma e incêndios

 

Outros momentos difíceis foram os incêndios de 1972 e 1979, dos quais ela tem lembranças muito fortes e trágicas, embora as chamas não tenham atingido a banca dos seus pais. E da grande reforma dos anos 90, quando o Embaixador sofreu muito, principalmente com a troca de lugar, o que provocou uma grande perda de clientes. Mesmo com as dificuldades, reconhece que a reforma melhorou muito o Mercado. “Ele era muito velho, sujo”, avalia. Outra constatação é que depois da reforma surgiu um novo público. Mais qualificado. Do último incêndio, só as lembranças e as imagens pela TV – quando achou que o Embaixador “já era”, pois, pelo que assistia, o fogo parecia estar consumindo todo o Mercado. “Depois do incêndio, o Mercado não foi mais a mesma coisa. Deu uma queda muito grande”, observa. Deste sinistro evoca a grande união de todos e a “batalha para reerguer o Mercado de novo”. Uma batalha que ela também trava diariamente no restaurante: chega às 5h da manhã, para o cafezinho – sagrado para os peixeiros, açougueiros e fornecedores, os primeiros que chegam. Depois, o “cafezão”: pão com linguiça, ovo, bife. Mais tarde, o prato feito, no almoço. E no segundo turno, o café da tarde. Hoje eles pegam mais leve: ela e o marido trabalham até a 13h, um dia para cada um, depois folga. Em cinco funcionários, eles atendem uma freguesia formada basicamente de mercadeiros de quase todas as bancas.

 

Lembranças de uma mercadeira convicta

 

“Eu fecho os olhos e começo a me lembrar: a Banca 40, a Central, no meio do Mercado, o sorvete do Martini, o tal do Frescão, muito bom. Tem coisas que a gente não esquece, que é da infância. A Feira do Peixe, onde a minha irmã e meus pais trabalhavam como loucos – meu Deus, quanta coisa mudou, e para melhor também, como a clientela. Aquele tempo não era tão limpo”, lembra. Sim, a clientela do Embaixador era “pesada”. A maioria, estivadores do Cais do Porto. “Mas o pai dizia: é de onde vem o sustento de vocês. A gente tratava todo mundo igual. Ele também não deixava a gente (filhas) ficar no ‘salão’, só mais escondidas – era muita malandragem e a gente era mocinha”, recorda. O Mercado, para ela, é tudo. Onde estão os seus amigos, o seu sustento, a sua vida e lembranças. “Aprendi a lidar e conviver com ele, sabendo onde fica cada banca. Sempre vou defender este nosso patrimônio, lutando para continuar esta bela história, de pai para filho e para neto. Quero o Mercado sempre de pé”, conclui, feliz.

 

 

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