Lucas da Silveira: “Sem o Mercado, não somos nada”

Natural de Gramado Xavier, nascido em 11 de maio de 1994, casado com Fernanda da Silveira, futuro pai (neném esperado para o final do ano!), Lucas tem no Mercado uma vida completamente familiar: são nada menos do que nove bancas de parentes próximos. Para ele, a frase que geralmente todos os mercadeiros dizem se aplica perfeitamente: o Mercado é uma família.

 

Foto: Letícia Garcia

A família morava em Gramado Xavier/RS, plantando fumo, na agricultura, e deixou a cidade quando Lucas tinha 10 anos para morar em Gravataí, onde ele passou a estudar. Mas, aos sábados e feriados, o garoto já vinha trabalhar no Mercado, ajudando os pais. Aos 14 anos, começou a estudar em Porto Alegre pela manhã e, à tarde, vinha para o Mercado, onde o pai, Almir da Silveira, e um tio eram sócios.

“No ano 2000, eles compraram a banca, era uma lancheria. Depois, eles transformaram numa fruteira e, mais tarde, entraram no ramo de embalagem. Em 2004, nós viemos para cá e demos seguimento na mesma linha.” O Armazém 155 foi sendo incrementado com mais produtos: decoração, chocolates, materiais para sorvete, sacolé e toda a linha de confeitaria.

Nesse ramo, o maior movimento só poderia ser mesmo na Páscoa, mas no fim do ano também tem muita procura. “Porém, não mais como era antigamente, quando se vendia até mesmo muito chocolate para o Natal. Hoje as pessoas compram mais preparados para fazer panetone, frutas secas para a ceia de Natal, fôrmas e saquinhos decorados.”

 

Rotina movimentada

Em termos de mudanças, acha que antes as vendas eram melhores. Atualmente, embora ainda também tenha movimento, as vendas caíram um pouco, “em virtude da situação atual do país”. Mas garante que sempre tem gente circulando e exemplifica com os momentos em que acontecem eventos, como a Copa América. “Está sendo bem interessante, já vieram turistas argentinos, japoneses, uruguaios. É um público diferente, bom para nós e para o Mercado em geral.”

Quanto à rotina, diz que não mudou muito desde os tempos dos 14 anos: chega às 6h30 e sai às 19h30. Diz que, como todos, acostumou com o horário de acordar e estranha bastante quando fica uns dois, três dias de férias. “Porque aí a gente sente falta daquela correria, da rotina. Chega uma hora que não tem muito mais o que fazer. Às vezes, mesmo nos domingos, eu acordo naquela hora, mesmo sem despertador. Mas é bem legal, porque no Mercado o dia passa muito rápido: sempre tem um conhecido que passa no corredor ou vem aqui conversar. Temos bastante contato com as pessoas.”

 

Em família

A família é grande: só da mãe, Geni da Silveira, com quem trabalha na banca, são mais cinco irmãs, todas trabalhando no Mercado. Diz que é tranquila a relação de trabalho com os pais. “É bom, um negócio de família. A gente batalha para ver todos os familiares bem, e se vê mais aqui do que no fim de semana: em cada canto que se vai no Mercado, se acha um parente”, brinca. Trabalhar em família tem as suas vantagens, afirma.

“Sozinho é mais complicado, é muito compromisso, muita coisa para cuidar, compras, financeiro, funcionários.” Com a família também é mais flexível na hora de tirar uma folga ou férias. “E cada um tem que entender o lado do outro, mesmo que, às vezes, se tenha ideias diferentes. Eu, a mãe e o pai somos bem parecidos, nos acertamos bem.” Além deles, a irmã Dainara vem dois ou três dias por semana ajudar na banca, porque está fazendo faculdade de Psicologia.

 

Contato com o público

No trabalho, diz, só não gosta de ficar no caixa, porque “fica preso”. Gosta mesmo é de atender, estar em contato com o público ou arrumando prateleiras. A freguesia, segundo ele, é bem variada, com diversos tipos de clientes: os antigos, os que passam algumas vezes na semana e os de todos os dias — geralmente os que têm comércio na região central da cidade, e precisam de um ou outro produto.

Lucas cita os senegaleses, que são frequentes, comprando bastante embalagens para comida. “É um público novo, mas numa quantidade bem interessante.” Depois de 11 anos no Mercado, de muitas amizades e conhecimento, é também um atento observador das mudanças diárias no Centro Histórico, principalmente de novas lojas ou de “algum novo negócio”.

 

O significado do Mercado

Como muitos mercadeiros, Lucas não tem dúvidas em apontar o incêndio de julho de 2013 como o acontecimento mais marcante que presenciou no Mercado. Estava com o pai assistindo futebol da TV, em Gravataí, quando entrou a transmissão direta do Mercado em chamas. Vieram imediatamente para ver de perto a tragédia. Foram tempos de apreensão e medo em relação ao futuro. “Aquilo marcou porque é o trabalho da gente, e mais os boletos vencendo…”

Depois de 38 dias, parte do Mercado voltou a funcionar, incluindo o Armazém 155. Com todas essas vivências e laços, naturalmente o Mercado representa muito na sua vida. Afinal, além de tudo, foi nele que conheceu, há três anos, a sua esposa Fernanda, ex-funcionária da loja Gueno, hoje grávida do seu filho. “Então minha família também iniciou aqui. Sempre foi, sempre vai ser muito bom trabalhar aqui.”

Para Lucas, o Mercado é uma escola da vida. “Aqui se trabalha com vários tipos de público e se aprende a resolver muita coisa. A gente passa todo o dia aqui, mais do que com a família — só vai para casa para dormir. O Mercado é o coração da gente, sem ele, não somos nada.”

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