Lígia Teresinha Campos da Silva

Foto: Gabriela da Silva

 

Uma das desbravadoras do espaço da mulher no Mercado

Nascida em 10 de maio de 1962, separada, quatro filhos, ela é, praticamente, uma das mulheres pioneiras no Mercado, onde veio parar através da indicação de um colega. Havia uma vaga na cozinha da Peixaria Japesca, que preparava refeições exclusivas para funcionários – em torno de 40 naquela época, majoritariamente de homens.

 

“Foi, mais ou menos, em 1986. Naquele tempo a maioria das bancas tinha uma cozinha particular para seus funcionários, a (Banca) 43, a Martini, entre outras.” Ligia trabalhava, então, numa lancheria no Hospital de Clínicas e, depois da Japesca, passou por vários lugares do Mercado, o que faz com que seja muito conhecida – além do seu lado comunicativo e expansivo. Na Japesca, localizada naquela época onde hoje é a Banca Central, Lígia ficou dois anos – até a banca fechar para a grande reforma do Mercado nos anos 1990. “Era bem diferente, tanto que a gente nem podia dizer que trabalhava no Mercado Público, porque era um lugar malvisto. A gente dizia ‘trabalho no Centro’, mas não dizia que era aqui. Ficava quieta.” Dali foi convidada por Fortunato Andrades, o “Seu Nato”, dono da Lancheria Andrades, para trabalhar com ele. “Ficou sabendo que eu estava desempregada e mandou me chamar. Fiquei seis anos lá, quando ele faleceu saí porque não me habituei com o filho dele. Foi o melhor patrão que eu tive. Sinto muita falta dele até hoje. Quando engravidei me separei, fiquei sozinha para tudo, com três filhos e mais a gravidez. E ele me amparou muito, ajudou a fazer minha casa, mandava uma sacola de rancho, ia na minha casa ver se eu não estava precisando de dinheiro. Sinto até hoje que ele não conheceu minha filha – morreu antes dela nascer.”

 

O Mercado de outros tempos

Dos velhos tempos do Mercado, Lígia diz que os patrões eram muito bons para os funcionários: “Hoje tem muita gurizada, filhos, netos e até bisnetos. Mas os donos mesmo, que levantaram isto aqui, não existem mais. E naquela época eram cinco ou seis mulheres trabalhando aqui, agora elas tomaram conta. Peixaria não pegava. A geração de hoje é totalmente diferente da nossa”. Diz que das cozinheiras antigas, da sua época, acha que só restou ela própria – a maioria já faleceu, ou ficaram doentes e saíram. “A última que tinha era da (Lancheria) Luz, mas faleceu, cozinheira de muitos anos.” Depois da Andrades, a veterana cozinheira fez um longo périplo pelas lancherias e restaurantes do Mercado, até chegar ao Restaurante Pires, onde está atualmente: passou pelo Café Bagé, pelo centenário Naval, pelo Castelo, onde ficou oito anos. Teve grandes perdas neste período. “Saí e fiquei um tempo em casa, até ser chamada de novo.” Melhor e recuperada, foi para o Restaurante Havana, onde prestou seus requisitados serviços por mais dois anos. “Neste meio tempo, ‘pintou’ uma vaga no Miro (Belmiro Gomes Pires, proprietário do Restaurante Pires). Fui ver o horário, das 7h30 às 14h30, ah, muito bom. Era uma colega que estava saindo. Vai fazer sete anos que estou aqui.”

 

Amor pela cozinha

Lígia começou cozinhando cedo, com pouco mais de 20 anos. “E nem foi no Mercado, mas no restaurante Pôr do Sol, que tinha lá na (Avenida) Osvaldo Aranha. Comecei lavando louça, panela e chão.” Até que, um dia, faltou a cozinheira e o patrão perguntou se ela não queria experimentar o fogão. “Buffet é complicado, mas se trabalha menos do que com prato servido – porque é só deixar a comida ali e depois ficar repondo. Lá fiquei 10 anos, saí porque fechou.” Diz que gosta muito do que faz e que não saberia trabalhar em outro emprego. “Claro, se acontecer de ficar desempregada, não me importo de lavar um chão, uma panela. Mas eu amo mesmo é cozinha, gosto de inventar comida.” Sobre o seu atual local de trabalho – e patrão, Belmiro –, se diz satisfeita e agradecida pela confiança. “O Miro é um pai para mim, muito compreensivo, ele tem jeito de falar com a gente. Se a gente precisar de dinheiro, ele empresta, ou dá adiantamento, e o horário é muito bom.”  Diz que a casa tem os pratos tradicionais – mocotó, prato da casa, peixe, arroz e salada. “Claro, a gente inventa umas coisas – batata a vapor, couve, umas misturinhas –, mas um prato diferente, não. Ele já tem a tradição. Em casa, sim, gosto de inventar.” Guerreira, até pouco tempo trabalhava também no turno da noite, num restaurante da Rua Voluntários da Pátria, o Panorama. Lá trabalhou seis meses, mas resolveu parar porque a jornada era muito pesada, além de sair muito tarde e ainda ir para sua cidade, Porto Alegre. “Hoje em dia está muito perigoso, não se vê um brigadiano na rua, eu não vou arriscar a minha vida.”

 

O mundo do Mercado

“O Mercado é muito bom de trabalhar, é uma família, todo mundo se conhece. Aqui todos sabem onde eu trabalho, pode perguntar em qualquer lugar. Me dou com todo mundo, tenho muito amigos, graças a Deus. Qualquer restaurante me recebe bem, sempre sabem onde estou, até quando estou de férias. E às vezes até me pedem ‘emprestada’, de vez em quando.” Outra mudança que ela nota nestes novos tempos de Mercado é a forma de ingressar nele. “Agora não é tão fácil. Antes se chegava aqui por indicação – hoje exigem mais coisas, currículos, idade…” Aos 55 anos, mais de 30 de Mercado, já está pensando em parar daqui a algum tempo. Acha que as novas gerações (“essas gurias novas”) não estão muito interessadas no trabalho. “Já tive muitas auxiliares novas, mas elas não querem ter compromisso com horário: querem ficar um tempo, só para pegar um dinheiro e sair.” A rotina dela não mudou muito, desde o início. De manhã trabalha sozinha, fazendo de tudo: cozinha, lava louça, o chão e atende. Às 13h, chega outra colega. “Ela fica na louça, na salada, conserva as panelas limpas e eu sirvo os pratos até as 14h.” Para ela, o Mercado atual está bem melhor. “Para nós, os funcionários, melhorou bastante. Peguei uma época bem difícil. Para mim, o Mercado representa a minha família. Convivo mais aqui do que com a família, só vou em casa de visita”, brinca.

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