Leticia Wierzchowski: “Escrever é uma forma de liberdade”

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

Ela não se prende a estilos, mas tornou-se referência em romance histórico no RS. Dona de uma ficção intensa e fluida, Leticia tem 27 obras publicadas, entre romances, contos, livros infantis e o livro de e-mails “Eu@teamo.com.br”. Parafraseando Erico Verissimo, define a si mesma como uma “contadora de histórias”. Conversei com ela sobre literatura, ficção histórica e, claro, a trilogia “A casa das setes mulheres”.

Foto: Letícia Garcia

 

O encantamento pelos livros surgiu já na infância e só cresceu com o tempo. Antes de se encontrar na literatura, ela estudou Arquitetura, criou uma confecção de roupas e trabalhou no escritório de construção civil do pai. De tanto ler, começou a escrever. Seu primeiro livro foi “O anjo e o resto de nós”, lançado em 1998, que conta a saga de uma família do interior do estado no início do séc. XX. “Escrever para mim é um processo libertário. Gosto muito de uma frase de Clarice Lispector: ‘Minha liberdade é escrever, a palavra é o meu domínio sobre o mundo’. Escrevo romances porque é um espaço alheio à vida real, onde eu tenho outras experiências e resolvo minhas experiências”, resume. Ela afirma, convicta, que não pensa a vida por gavetas: “Sempre acreditei num instinto narrativo. Então, quando escrevo um romance, nunca penso em ‘literatura gaúcha’. Eu penso que sou uma escritora brasileira que vive no Rio Grande do Sul”.

 

INSPIRAÇÕES

Existe nos escritos de Leticia a influência de Erico Verissimo – e até nela mesma, que, fazendo referência ao mestre, também se intitula uma “contadora de histórias”. O passo em direção ao romance histórico tem algo de Erico também. “Sou fascinada por ‘O tempo e o vento’, acho que é um dos grandes romances da literatura brasileira, perfeito, construído de maneira circular. Um pouco deste amor acabou fazendo com que eu escrevesse ‘A casa’.” O livro que a faria conhecida em todo o país começou a ser escrito longe da pampa. Recém-casada, Leticia estava morando em São Paulo. “Talvez esta ausência do estado tenha me motivado um pouco a olhar para as minhas raízes. Casualmente, embora eu conhecesse Tabajara Ruas há muito tempo, desde a infância, eu fui ler neste momento ‘Os varões assinalados’. A coincidência entre essas duas questões acabou gerando a semente do ‘A casa’.”

 

DOS VARÕES ÀS MULHERES

A literatura se alimenta da literatura, ela afirma. E foi na obra de Tabajara que apareceu a inspiração direta para seu principal livro. “É um romance sobre a Revolução Farroupilha contado por homens, a história dos ‘varões’ que fizeram a guerra. Mas, lá pelas tantas, só num trechinho muito curto de três parágrafos, aparece a casa das sete mulheres: o Garibaldi tem um jantar com as mulheres da família do Bento. Eu pensei: ‘nossa, todo mundo sempre narra essa guerra, que é um assunto épico, interessante, literário, do ponto de vista masculino. Todas as guerras são contadas pelo ponto de vista masculino. Então eu vou inverter essa situação e entrar pela porta dos fundos, vou ver o que as mulheres estavam fazendo’”.

 

MANUELA

Além do contexto das mulheres na guerra, é preciso dizer que “A casa” surgiu para falar da personagem histórica Manuela. Leticia leu nas memórias de Giuseppe Garibaldi sobre o romance que o italiano teve com Manuela de Paula Ferreira, sobrinha do Bento Gonçalves. Ela é quem conduz a narrativa – e, enquanto narradora, é uma espécie de alter ego da própria Leticia. O romance histórico virou trilogia com o passar do tempo. “A casa” foi lançada em 2002, e então veio, em 2004, “Um farol no pampa”, que conta como Ana construiu o primeiro farol de sua região a partir dos ensinamentos do revolucionário italiano. “Quando terminei esta continuação, deixei um final aberto pensando que, sim, eu queria, como o Erico, ter uma trilogia”, conta. Em 2016, foi lançado “Travessia”, que traz a história de Giuseppe e Anita e teve autógrafos na Feira do Livro deste ano.

Foto: Letícia Garcia

 

FICÇÃO NA HISTÓRIA

Em seus escritos literários, a história é um pano de fundo para o arco narrativo dos personagens – reais ou de ficção. Ela conta que, quando começa alguma pesquisa para um romance histórico, segue dois caminhos: a leitura de livros de história – “narrando fatos, datas e questões mais específicas” – e de literatura histórica – “mundos que outros autores levantaram, semelhantes ao que eu quero fazer”. “Toda vez que a literatura se inspira numa figura ou num evento histórico para construir uma história, ela está humanizando o passado”, defende. “Nas aulas de história, o passado só tem um plano. Quando você faz um romance sobre isso, vai levantar um universo e dar outros ângulos, fazer vários planos. Se for bem feito, abordando essas questões históricas, as pessoas não esquecem mais o evento.”

 

DIVERSOS TEMAS

Além dos autores já citados, os livros de Leticia dialogam muito com a obra da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andressen. “Já escrevi dois romances inspirados na poesia dela, o ‘Sal’ e o que estou terminando, que se chama ‘Deriva’.” A família é outro de seus temas, e perpassa várias de suas histórias – “A casa das sete mulheres”, “O anjo e o resto de nós”, “A prata do tempo”, “Sal” e “Uma ponte para Terebin”. “Família é a gênese de todas as relações.” Dos 16 romances, apenas quatro são definidamente romances históricos – a trilogia “A casa das sete mulheres” e “Uma ponte para Terebin”, que conta a história de seu avô polonês durante a Segunda Guerra. “As pessoas me associam muito com romance histórico, mas eu faço muitos outros tipos de romance – gosto de me aventurar por todos os caminhos”, diz.

 

NO CINEMA

De forma despretensiosa, Leticia acabou alçando-se aos holofotes da literatura inspirada na vida real. “A casa das sete mulheres” foi adaptado pela Globo para uma minissérie de TV em 2003 – exibida em 40 países –, ultrapassando depois disso a marca de 50 mil cópias vendidas. “Todo mundo sai ganhando quando a televisão e o cinema se inspiram na literatura para levar histórias para as pessoas.” Além da minissérie “A casa”, Leticia comandou o roteiro de “O tempo e o vento”, que levou “O continente”, de Verissimo, para o cinema e para uma microssérie na Globo. O sucesso televisivo só a aproximou mais da escrita. “Eu gosto é de fazer parte da biblioteca dos meus leitores. Quero que as pessoas me leiam e que saiam da leitura de um romance transformadas de alguma maneira.”

 

Pedir que Leticia resuma sua trajetória literária é uma pergunta traiçoeira. “Eu não sou uma pessoa de poucas palavras, este é o meu problema! Qualquer história que eu vá contar, quando vejo, já tem 300 páginas”, responde, divertida. “Na verdade, escrevo por necessidade, quase fisiológica. Evidentemente que seguir este caminho no Brasil tem as suas dificuldades, mas quais são os caminhos que não têm dificuldade, não é? O fato de eu viver da palavra e da minha imaginação é uma das coisas de que eu mais me orgulho, porque realmente batalhei para que isso acontecesse. De certa maneira, os livros que escrevi são uma decodificação da minha vida mesmo. Eu abro uma página de um livro que eu escrevi e sei o que fiz naquele dia – pode ter sido há 10 anos. Então eles são subtexto da minha vida.”

 

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