Leonel e Olga, 37 anos apaixonados um pelo outro e pelo Mercado

 

Leonel e Olga, 37 anos apaixonados um pelo outro e pelo Mercado

 

Essa é a história de um casal que descobriu o amor no mesmo local que escolheu para trabalhar. Ela espontânea, comunicativa, de ótima memória e muitos amigos no Mercado. Ele mais retraído, simpático, bonna gente.

 

Olga de Paoli, uma gringuinha do interior de Bento Gonçalves, aos 15 anos desfaz as suas malas na Banca 16, de propriedade do seu tio Arlindo Toniolo em busca de trabalho. Sua família grande, 11 irmãos, com pais  pobres não tinham como sustentar a família. “Cansei de chorar, querendo ir embora, mas ao mesmo tempo pensava que tinha que ajudar a mãe e o pai”, diz ela. Mal sabia  que ali mesmo onde colocou seus pés, o Mercado Público, lhe traria além de muitos amigos e parentes, o amor de sua vida. Leonel de Paoli já trabalhava na Banca 16 há dois anos, quando aquela menina franzina lá chegou. Mas por razões de um amor no interior do estado, não notou aqueles olhos curiosos e faceiros da menina que todos os dias vizinhava em seu trabalho. “Vim do interior para me alistar no exército. Mas acabei ficando por aqui”. Também de família humilde, o rapaz dedicava-se aos afazeres. Mas sempre sobrava um tempinho para fazer uma piadinha quando o Grêmio, seu time do coração, vencia. E lá ia ele para a banca provocar o seu futuro cunhado. Ele afirma que naquela época era só por causa do futebol. Mas sempre ia buscar troco e tomar um chimarrão.

Ambos trabalhavam com secos e molhados, produtos do cotidiano de quem veio do interior. Ela lembra dos navios que aportavam todos os dias no Cais, que se abasteciam nas bancas do Mercado. Lembra ainda de fazer entrega na concentração do Internacional. Colorada, adorava essa parte do dia, poder conhecer todo o time da época. Em 1970, cansado das viagens para o interior e com um empurrãozinho de Delmiro Salami, que lhe perguntou: “Por que você vai para o interior se o teu futuro está aqui do lado?” Leonel decide, então, deixar as lembranças do interior. Ela, que já naquela altura percebia nele um bom homem, decide assumir as rédeas da situação. “Todo mundo me convida para tomar um cafezinho e tu não?” E lá se vão eles para o café Pan-Americano, iniciar o namoro. Quando chega o aniversário de Olga, Leonel mais que de pressa trata de lhe dar um livro de receitas, com dedicatória e tudo. “Ela era concorrida. Teve outros presentes.”, conta ele. Em seguida veio o convite para um cineminha no domingo, mas é claro, depois do jogo do Grêmio. “Onde o Grêmio ia, eu estava lá. Mas hoje não é tanto assim, era coisa de guri”, explica.

 

A família

Ele lembra com saudade do Tio Emílio, que ajudou na aproximação com os pais da moça. Os velhos queriam saber das referências do rapaz. “Ele falou com eles. Disse que eu era de família humilde, mas que era um trabalhador honesto. Que tinha futuro”. Daí em diante o namoro foi mais fácil. Quando foi visitar a família a carta na manga era a fala em italiano, para se sentir em casa. “Foi tranquilo, tudo da mesma origem, italianos”. A mesma recepção teve Olga. “Sempre me senti parte da família”, diz ela. Na época o casal não tinha condições financeiras para fazer a festa de casamento de seus sonhos. Para a festa improvisada, Luiz Salami deu o bolo, Delmiro as batatas. E assim foi feita. Mas a tão sonhada festa chegou mesmo aos 25 anos de casados. “Era o nosso sonho, mas não tínhamos como. Ficou a promessa de que se conseguíssemos realizar os nossos sonhos, faríamos. Foi uma grande festa”.

Outro desejo do jovem casal era sair do aluguel. Comprar uma bela casa. “Ele trabalhava para pagar o aluguel e eu as despesas. A gente trabalhava todos os domingos. Quando trabalhavam aos domingos, ganhavam pelo dia. Tudo o que eles ganhavam guardavam em uma caixa de sapato em cima do roupeiro. “Deu certo, quando fomos ver, o dinheiro deu para dar entrada na casa, em 1977”. Olga, após o casamento foi trabalhar na Banca 21, com o Luis Salami. Quando ele saía de férias, deixava a chave do cofre nas  mãos dela. “Éramos todos funcionários, mas éramos uma família. Então a gente pegava parelho, fazia das tripas o coração. Quando ele voltava, lá estava registrado no livro, bons lucros. E nós ganhávamos aumento”. Leonel complementa: “O Salami sempre disse que ela foi a melhor funcionária que ele teve”.

 

Lembranças do velho Mercado

Os filhos. Em 1975 nasce Claúdia, depois de um jogo do Grêmio. Olga trabalhou até o último dia: “Gravidez não é doença”, sentencia. Cláudia nasceu e se criou dentro do Mercado, tendo até ido parar no Pronto Socorro com um feijão dentro do nariz. Em 1979 nasce o filho, Carlos de Paoli. Em 1985 o casal compra a Banca 1, que já na época trabalhava com flora. Quando compraram, o pedido de Dona Morena, a proprietária da época, era que a banca não mudasse de ramo. Leonel aprendeu a trabalhar no ramo, e acabou ficando nessa área. A partir daí a companheira de anos já não mais precisa trabalhar tanto, e acaba cuidando dos filhos e do lar. Olga lembra com saudade dos tempos do Mercado. “Naquela época o Mercado era melhor. Mas hoje está mais limpo, tem mais respeito pelas pessoas, menos cheiro. Na nossa época a gente trabalhava mais. O Mercado era tudo o que tinha, a população comprava tudo aqui. Lá em cima não tinha quase nada”, recorda. Conta também que as mulheres eram “mal vistas” no Mercado, que não era considerado um lugar para mulher. “Hoje é diferente, as coisas estão bem mudadas. Eram apenas quatro mulheres, nós aqui estávamos em família.Se eu pudesse ainda estava trabalhando aqui, eu adoro. O Mercado é uma escola. Se conseguir trabalhar aqui, vai trabalhar em qualquer lugar, diz saudosa. Para ela quem vem do interior sempre “faz render” mais, informando que todos os sete irmãos que trabalharam no Mercado todos estão bem. Mas e o casal, o amor? “A nossa história de amor é antiga, está completando 37 anos”, diz ela que, todos os dias quando ele chega em casa, lhe abre o portão com um sorriso no rosto.

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