Leonardo Gueno: “O Mercado foi uma escola para mim”

Ele nasceu em agosto de 1977 em Porto Alegre e tem dois filhos. A sua relação com o Mercado vem de berço, como diz. Quando criança, esperava ansioso os domingos para que o pai, Deolino Gueno, o levasse ao Mercado. Naquela época, lembra, se trabalhava de segunda a segunda — as bancas abriam aos domingos até ao meio-dia. Da família de cinco filhos, apenas ele e o irmão Tarcio se interessaram pelo comércio, dando continuidade aos negócios do pai.

A ansiedade pela chegada do domingo explica-se: o garoto queria comer um bolo inglês e tomar um refrigerante nas bancas perto do antigo abrigo, nas cercanias do Mercado. “Gostava de ficar olhando o movimento em volta.” Leonardo começou as suas atividades no Mercado em 1994, na adolescência, enquanto estudava. Já queria ter o seu “dinheirinho”, e para isso ajudava o pai na loja, atendendo no balcão. “Eu fui o primeiro dos filhos a encorajar a história aqui. Antes, trabalhar no Mercado era muito sofrido: praticamente me criei sem ver o meu pai. Quando ele chegava, no domingo, estava cansado e queria descansar porque na segunda-feira já tinha que trabalhar de novo.”

Por isso, a sua mãe não queria que nenhum dos filhos trabalhasse no Mercado com o pai: “Queria que a gente vivesse diferente, tanto é que todos temos o Ensino Superior (3º grau completo)”. Mas Leonardo já tinha inclinação para o comércio, tanto que acabou se formando em Administração de Empresas, na Ulbra, em 2001. Lembra bem o começo na loja, dos tempos das embalagens de papel e dos rolos de cordão pendurados no teto, para amarrá-las. Com os estudos, germinaram os planos de expansão e modernização da empresa. “Quando me formei, a gente fez um trato de eu sair para expandir a empresa fora do Mercado”, lembra. “Éramos quatro sócios.”

 

Expandindo a Gueno

Em quase 10 anos, foram abertas quatro empresas filiais em municípios na Região Metropolitana de Porto Alegre: Cachoeirinha, Canoas e Gravataí, diversificando os ramos de atuação, com cada sócio cuidando de uma delas. Até 2015, ele passou por todas. “Chegamos a ter 67 funcionários, somando as quatro lojas.” Mas, com o tempo, os negócios foram individualizando-se e dividindo-se (ficando uma loja para cada sócio). Até que ele voltou exclusivamente para o Mercado, onde estava o irmão, Tarcio, o seu sócio atual.

Na volta ao Mercado, passou a dividir as tarefas com o irmão — Tarcio no financeiro e ele no comercial. “É bastante trabalho, mas temos tempo para a família e para o lazer, muito diferente da época do meu pai. Mantemos uma central de armazenagem na Zona Norte, onde são recebidos todos os fornecedores e de onde se distribui e se abastece a loja diariamente.” A Gueno, informa, trabalha forte na linha de embalagens, produtos de confeitaria e sorveteria.

As épocas de maior pico de vendas e movimento são fim do ano, verão e Páscoa, mas a loja está preparada para trabalhar nas quatro estações do ano. Sim, porque as mudanças vieram. Na fase do seu pai, bem no início, a Gueno era um armazém do tipo secos e molhados — vendia frutas e mercearia. A modernização veio no começo dos anos 1990, com a introdução das linhas de embalagens, sorveteria e confeitaria, hoje os carros-chefes.

 

A modernização da loja

Ele se emociona ao fazer um comparativo dos tempos de quando era criança e os de hoje, principalmente no que se manteve de lá para cá: não tem dúvidas em dizer que é a harmonia. “Isso vem de berço, da família, a forma de se relacionar. É tudo muito próximo ao que a gente viveu quando criança”, relembra. “Claro que os processos se automatizaram e se modernizaram.” Considera muito importante as experiências que viveu no período em que esteve fora do Mercado.

“Tudo isso me valeu muito conhecimento e experiência para trazer para cá. Quando me formei, trabalhei muito em cima da tecnologia da informação (TI) — acredito até que fui o pioneiro no Mercado Público a trabalhar com sistemas de informação, com muito marketing e propaganda. Isso o Mercadão nunca teve muito.”  Dos tempos antigos da banca, lembra do coleguismo, e diz que alguns processos ainda são semelhantes.

Talvez porque o seu quadro de funcionários o acompanhe há muito tempo, alguns até do tempo do seu pai. “Eles são os meus xodós. Nos custam bastante, mas fazem valer pela ‘pegada’ e pela garra. Aquilo que vivi quando criança, vivo na fase adulta. O que aprendemos no berço, continua hoje.”

 

Relação marcante

Tem muitas lembranças do Mercado antigo, como as galerias centrais, os portões e a segurança. “A reforma do Mercado me marcou bastante, mas a banca sempre foi no mesmo lugar — foi uma das primeiras neste quadrante a concluir a reforma.” O entorno do Mercado também traz lembranças marcantes: “o abrigo, as banquinhas que existiam na volta. Nesse ‘intervalo’ que fiz do Mercado (2001–2015), eu era só visitante, mas cuidava da empresa como um todo.

Era sempre uma festa quando eu vinha — dava uma passadinha para dar um ‘oi’”, diz. Lembra com tristeza do incêndio, “preocupante até hoje”. Dizendo-se muito bem quisto em todo no Mercado, destaca a solidariedade entre os mercadeiros, que sempre indicam outra loja quando um cliente não encontra o produto que procura. Isso, acredita, contribui para a fidelidade dos frequentadores. Feliz com as suas raízes no Mercado, espera, no futuro, passar o negócio para a terceira geração da família — os seus filhos e sobrinhos. “Aqui sempre ficamos, nunca saímos do Mercado, e aqui pretendemos ficar. O Mercado representa a minha vida. Foi uma escola para mim.”

 

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