Leonardo Cedenir Barbosa Gonçalves: “O Mercado ficou elitizado”

Nascido em 11 de julho de 1958 em Lavras do Sul, mora em Porto Alegre há 12 anos. Casado, com quatro filhos (um deles trabalhando com ele na cooperativa, na Ilha da Pintada), Leonardo é presidente da Coopeixe e já tem 22 anos de convívio com o Mercado Público, lugar que considera muito bom de trabalhar e onde aprende muitas coisas.

Foto: Leticia Garcia

Ele lembra bem como veio parar no Mercado: “Eu trabalhava com uma cooperativa em Rio Grande de descarga de pescado. Começou a entrar muito peixe, e, então, para escoar mais um pouco, eu peguei uma caminhonete e vim a Porto Alegre, no Mercado, para vender — não conhecia nada aqui.” Isso foi, mais ou menos, na metade da década de 1990. Como o resultado foi bom, tornou-se uma rotina que durou oito anos, de segunda a segunda. “Acabava ficando toda a semana por aqui, a coisa foi crescendo. E tudo isso sem ter um ponto fixo no Mercado.”

Nesse meio tempo, surgiu a Cooperativa dos Pescadores da Colônia Z5, a Coopeixe, hoje com 263 pescadores, cujo entreposto na Ilha da Pintada estava parado. Leonardo reabriu. A função da cooperativa, explica, é da maior importância para todos: é nele que o peixe ganha o certificado de qualidade exigido pela Vigilância Sanitária, que indica a procedência do peixe. “Então é obrigatório o pescado passar pela cooperativa para manipular, gelar, lavar e ser vistoriado por um responsável técnico (RT). Só depois, é enviado para o Mercado, não só para a banca da cooperativa, mas para todas as outras, já que só a cooperativa pode fornecer este certificado.” Ele não sabe precisar a data da fundação da cooperativa, mas o certo é que em 2002 ela conquistou o seu espaço no Mercado Público, na época lojas 63, 65 e 67. Leonardo assumiu a coordenação da banca da Coopeixe no Mercado, em 2008.

 

Peixe fresco todo dia

Sua opinião é de que hoje o Mercado está muito elitizado: “Aquele povão que descia do Trensurb e dos ônibus para pegar peixe aqui, que consumia bastante, não vem mais. Aqui deixou de ser aquele Mercado Público que todo mundo conheceu — está mais para um shopping hoje em dia. E isso, na minha opinião, afetou bastante o movimento.” Como reverter essa situação? Leonardo acredita que hoje isso seria muito complicado, até porque, como ele diz, agora o peixe é vendido em qualquer lugar, de supermercados a mercadinhos.

“O pequeno comércio percebeu essa mudança e começou a colocar o peixe também para vender. O único ponto de venda da cooperativa é o Mercado e o seu diferencial continua sendo o peixe fresco, que é abastecido todos os dias.” Ele sempre trabalhou com vendas, de certa maneira: começou como empacotador em um supermercado, chegando a gerente. Escolheu trabalhar com peixe porque era mais rentável, comprando direto dos barcos de pescadores, revendendo direto na cooperativa de Rio Grande. De pescador na família, apenas o filho Jonatha, que trabalha com ele no entreposto da cooperativa.

 

Lutando para melhorar o espaço

No Mercado, a banca da Coopeixe vende pescados de vários pescadores da cooperativa. O local, que já chegou a ter três portas, ultimamente vem perdendo espaço para outras ocupações, como a área reservada ao lixo do Mercado. “Estamos batalhando hoje para que, pelo menos, se tire o ‘lixão’ do lado da banca. É muito desagradável, principalmente no verão. Cada vez que encosta o caminhão do lixo para carregar, a gente precisa abaixar a cortina. Estamos tentando colocar em outro lugar.”

Sobre o peixe em si, declara-se “suspeito” para falar, “porque eu vou dizer que é o melhor alimento que existe: não tem hormônio, nem remédio nenhum para se criar. Simplesmente vai lá e captura. Só tem que ter o cuidado com o gelo e a manipulação. Para mim, é o alimento mais saudável, não tem outro”. Mesmo com todas as mudanças, acredita que o Mercado continua sendo uma referência de peixe na cidade.

 

Relação com o Mercado

Sobre o Mercado, onde tem uma ótima relação com todos e boas amizades, Leonardo diz que é um lugar em que se convive mais com os colegas, conhecidos e amigos que nele trabalham, mais do que com a própria família. “A gente costuma dizer que ‘quando se molha os pés’ no Mercado, não sai mais. A gente vem cedo da manhã para cá e sai daqui de noite. É muito bom, a convivência é ótima, a gente conhece os clientes praticamente um por um, temos amizade com o pessoal da Vigilância Sanitária… Vale a pena, mesmo que financeiramente não seja ‘aquilo tudo’”, diz.

Como outros mercadeiros, ele sente falta de muitos que já se foram, tem amargas lembranças do último incêndio que “machucou muita gente por dentro — nós mesmos paramos mais de um mês, voltamos só com uma porta, quase quebramos. E muita gente não voltou até hoje”. Considera os clientes muito fiéis, principalmente porque sabem que o peixe vem direto do pescador. O problema, para ele, é mesmo a localização da banca, que, como diz, não está ajudando muito. Concluindo, diz que o Mercado representa uma mudança completa na sua vida e um novo modo de ver as coisas. “A gente aprende muito no Mercado, convivendo com os outros. É muita gente que passa por ele. São coisas que não se vê mais fora daqui — o Mercado é o Mercado.”

 

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