Leoci Pereira, o Tio Hélio: “Para mudar, não tem idade”

Leoci Pereira, o Tio Hélio: “Para mudar, não tem idade”

 

Tio Hélio, como é chamado pelos colegas do Mercado, 64 anos, três filhos, casado com Sonia Ferreira Pereira, chegou no Mercado em outros tempos, muito diferentes de hoje. Eterno batalhador, continua sua luta diariamente. Aqui uma pequena lição de vida.

 

O começo do guerreiro

Em 1965 o sonho era fazer a prova para a Polícia Rodoviária Federal. Exame que não pôde ser feito porque ele esqueceu de apresentar o diploma do primário. Voltar para casa? Nem pensar: O dinheiro deu apenas para a passagem de vinda. Sem ter a quem recorrer, o guri partiu para biscates na capital. “Trabalhei de servente de pedreiro, que foi meu primeiro serviço. Eu morava em uma pensão, então eu pegava um ônibus às 5 horas para chegar no Partenon. Trabalhei lá uma semana e desisti: não, não é isso aí que eu quero”, disse ele. Trabalhou também como motorista e mascate, os ambulantes da época.  1966 é o ano que finalmente ele passa a trabalhar efetivamente no Mercado Público. Morava com um tio, que alugava uma casa para um português que trabalhava no Bar Castelo. Com a saída do português do bar, ele é indicado e prontamente aceita. Dos quase 10 anos que trabalhou como garçom no Castelo, lembra das exigências do trabalho: “Na época, fazia tudo, tchê! O que tinha era gerente e não garçom. Era um gerente de manhã e outro de tarde.” Mas, como o guri da fronteira não pretendia passar a vida trabalhando como “gerente”, passou a trabalhar por conta própria, alugando um bar no Mercado. Já não lembra o nome, mas sabe que ficava onde hoje é a Peixaria Coopeixe. Lembra que o Mercado de antigamente, na parte superior  era só sala vazia. E gatos. “Acho que as reformas maiores, que foram feitas, foram obrigatórias, por causa dos incêndios, pois teve um incêndio que queimou quase todos os quadrantes”, relembra.

 

Tempos de mocidade

Diz que já veio para a capital com saudade do amor que deixou em sua terra. Jovem, usa sua força, vitalidade e braços firmes no trabalho para conquistar o seu espaço. Era do trabalho para casa. E vice-versa. “Na época em que eu trabalhei no Castelo era corrido, se trabalhava muito. Eu era solteiro, claro que tinha minhas noitadas. Mas foi uma vida de muito trabalho”. Hoje diz que não sabe ficar em casa e que, principalmente no domingo, sempre “arruma alguma coisa para fazer”. Na época a comunicação era só carta. Telefonar só na antiga CRT, com muita paciência. Quando tinha uma folga no Castelo, três por ano, natal, meio do ano e páscoa, dava um jeito de viajar. Mas muitas vezes ia no fim de semana e segunda já estava de volta. E acrescenta: “Eu sempre fui um cara que cumpria horário e nunca gostei de pedir muita coisa”.

 

Tempos do Mercado Livre

Tio Hélio conta dos tempos do Mercado Livre, que ficava na frente do Mercado. Lá ele buscava frutas, verduras, legumes e temperos para abastecer o restaurante. “Certas coisas a gente só comprava lá, muita batata para o restaurante. Os carro­ceiros (que traziam os mantimentos) paravam ali. O Mercado Livre foi dalí para lá, (atual praça Parobé), mas lá nunca se criou.” Nesses tempos trabalhou com Tércio Kauer, na loja 11. Recorda que o começo do Martins foi na banca 11.

 

Amizade verdadeira e negócios

Ele se emociona ao lembrar do primeiro patrão. “Quem me marcou mesmo foi o meu primeiro patrão, era gente boa, um patrão exemplar, um cara que sabia dar valor e que foi cedo de mais. Esses português são bons! Na época que eu trabalhei ali, já eram dois sócios, Manoel Boucinha e o seu cunhado Carlos Ribeiro. O Manoel me ajudou muito e me deu conhecimento, de negócios. No Mercado tu arruma muito colega de serviço, tem que estar sempre com um pezinho na frente, outro atrás, se não tu é derrubado”, avisa. E foi num dos períodos mais difíceis do Mercado, a reforma da década de 90, que o bageense conquistou o seu espaço próprio no Mercado.  “Ganhei dinheiro, trabalhei bem no Mercado, ali se ganha dinheiro, só que tem que saber aproveitar. Nunca comprei nada. A não ser alugar bar. Quando o meu pai faleceu, eu peguei uma herança lá e comprei essa banca, o Box 3, numa época ruim de comprar, porque  de repente podia perder tudo.” Correu o risco, mas venceu. Na época em que comprou a banca só se vendia tomate. Era só uma “banquinha” de corredor. Guerreiro, conta que reaprendeu a trabalhar “Eu acho que as coisas não são tão difíceis. Se tu te propõe, não pode ter medo, tem que ir. Para mudar não tem idade, a vida é assim. Sou um lutador, como tantos aqui.”

 

O Mercado, uma família de lutadores

Para ele o Mercado é feito de lutadores, sem hora para trabalhar. “90% do pessoal do Mercado, sem medo de errar, vem de família pobre. Se fizeram e tem que agradecer ao MP, mas é muito trabalhoso”, diz ele citando os filhos que hoje continuam batalhando para seguir o trabalho dos pais. “O Mercado para mim é minha segunda casa. Acho que todos os mercadeiros, 90% da vida deles é aqui dentro. Qual tempo que eu fico na minha casa? Só o domingo. E isso há muitos anos, desde que eu estou no MP, assim como muitos outros. Então o cara tem que adorar o Mercado para estar aqui”, diz ele, que levanta todos os dias às 5 horas, chega às 6 horas e sai às 19h30. Mas já pega mais leve. Ceasa, não faz mais. É muita dificuldade, com filas, inseguranças e tem que levantar às 4h30.

 

Passado e futuro

A sua avaliação, contudo, é boa. Tem boas lembranças, bons e maus momentos. Fez amigos e tem muitos conhecidos e colegas. Pai de três filhos, se sente realizado. “Tanto que hoje eu tenho um filho que é da Polícia Rodoviária Federal”, para onde ele na sua juventude tentou entrar. Seus objetivos hoje são simples. Viver, ter saúde e seguir andando o seu caminho, sempre na luta, trabalhando. O Mercado para ele é uma beleza, que ele não consegue nem descrever. Agradecimentos?. “Ah, um só, o “pai véio”, esse é o nosso criador, esse que nós temos que agradecer. O resto vamos levando, é ou não é? Ele nos dando saúde, nós estamos na luta. Para viver o dia a dia”.

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