Legado açoriano

Da série sobre as culturas formadoras do Rio Grande do Sul, aqui está a terceira e última parte da reportagem sobre a cultura açoriana. População com uma ampla presença por todo o território, a sua visibilidade vem sendo recuperada aos poucos, mas a herança cultural está em diversas tradições do RS.

Maria e Fernando Cabral/Pixabay

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

A sua história remonta a antigas desavenças entre os colonizadores portugueses e espanhóis — a sua chegada ao território do RS foi marcada por adversidades. Mas a população original das ilhas dos Açores se estabeleceu por todo o estado, alcançando regiões diversas.

Mesmo que ofuscadas por outras manifestações culturais, existe forte herança açoriana no RS, especialmente em cidades como Mostardas, Rio Grande, Rio Pardo, Santo Antônio da Patrulha, São José do Norte e Triunfo, como informa Véra Lucia Maciel Barroso, profª drª em História pela PUCRS, uma das idealizadoras do CHC Santa Casa e pesquisadora sobre a presença açoriana no estado.

As festas religiosas, sem dúvida, se destacam, como a Festa do Divino Espírito Santo, que é a maior nos Açores. Até hoje se encontram reflexos por aqui em procissões e na arquitetura de certas capelas, a partir dos Impérios devotados ao Divino. Isso, principalmente, em cidades como Osório, Santo Antônio da Patrulha, Porto Alegre, Triunfo e Santo Amaro — hoje distrito de General Câmara, cuja vila açoriana é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Além disso, os enfeites de serragem de Corpus Christi e os ternos de reis são manifestações herdadas dos Açores. No folclore gauchesco, heranças açorianas estão em danças tradicionais como o pezinho (como o pezinho de Faial), a chimarrita e a cana-verde, assim como nas brincadeiras infantis de roda, nas cavalhadas e, na literatura popular, com as adivinhas.

Em Porto Alegre, a origem de diversos bairros está ligada a atividades açorianas. Entre os séculos XVIII e XIX, eles plantaram trigo para exportação, socado por moinhos na região do Moinhos de Vento e preparado com rodas de água (as azenhas) na área da Azenha, na altura do Ipiranga, onde havia um rio.

João Baptista Soares da Silveira e Sousa, mestre de obras da Ilha de São Jorge, do arquipélago dos Açores, atuou como empreiteiro de obras em Porto Alegre em construções como a Ponte de Pedra (ou Ponte dos Escravos) e os alicerces do Theatro São Pedro, além de estruturas já demolidas, como o presídio do Gasômetro, o Malakoff (primeiro edifício da capital, ao lado da atual Lojas Lebes) e o clube social Bailante, na baixada da Assembleia Legislativa, em direção à Rua Caldas Júnior.

Casa dos Açores

Nos anos 1980, o governo da Região Autônoma dos Açores começou a fomentar o intercâmbio entre as comunidades açorianas instaladas pelo mundo, valorizando o apoio cultural e histórico, e uma das conexões foi a Casa dos Açores do RS, fundada em Gravataí em 2003.

“Passamos muitos anos sem dar o devido valor ao povo açoriano que veio povoar nosso Rio Grande. Mas acredito que, nos últimos 20 a 30 anos, pelo trabalho de historiadores, escritores, pesquisadores, instituições de ensino e pelo próprio governo dos Açores, que promoveu diversos cursos nos Açores, levando mais de 300 gaúchos para formações no arquipélago, esta realidade vem mudando”, avalia Carla Verónica Cedros Fernandes Marques Gomes, presidenta da Casa dos Açores do Rio Grande do Sul (Caergs).

“Os açorianos precisam ser cada vez mais reconhecidos, por meio da apropriação da sua história, sua genealogia, pelo papel que desempenharam na formação do nosso estado, diante das agruras, limitações, lutas, guerras e tudo o que passaram para que o Rio Grande do Sul pudesse ser incorporado ao seio da nação brasileira”, conclui Véra.

 

Confira a série completa em: jornaldomercado.com.br/categoria/cultura-gaucha

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