Julio Francia Ferreira: “Vivi a transição do velho e o novo no Mercado”

Ele é ainda daquela geração que vem de pai para filho, como manda a boa tradição do Mercado. Seu pai, José Saturnino, conhecido como “Julio”, começou com uma grade de revistas, na saída do Mercado para a Praça Parobé. Era, na época, entregador de jornais. Trabalhando duro, acabou comprando a futura banca, em 1966, registrada na prefeitura como Banca Julio Ferreira, 77, de revistas e livros. Ele e a esposa Aurélia trabalhavam sem parar – nem para almoçar. O menino Julio era, então, colocado em um ônibus, em Canoas, para trazer o almoço na vianda para os pais, que o aguardavam no fim da linha.  

 

Assim, o garoto acabou chegando no Mercado, “quando tinha 10 para 11 anos, pegando os macetes da banca”. Desde então, esse passou a ser o seu mundo diário. Só se afastou quando foi prestar o serviço militar, mas um ano depois já estava de volta. A esta altura, o pai resolveu se aposentar, passando a banca para o nome da sua mãe, que se tornou sócia, então, do novo herdeiro. Desse tempo as lembranças são muitas. “Era maravilhoso, o prédio antigo, um monte de gatos, chovia dentro e a gente corria pelos corredores. Tenho amigos dessa época que estão até hoje no Mercado. A gente se divertia”, recorda. Eram outros tempos, antes da reforma, com a localização e distribuição das bancas bem diferentes de como são hoje. “Lembro da Banca Central, de uma padaria que era no meio do Mercado e depois virou a Japesca, da banca das massas, no corredor interno, da Lancheria Bagé, e de várias que hoje não existem mais. Depois da reforma mudou tudo, as bancas ficaram com menos espaço”, observa. Com a reforma, a banca veio para a entrada do Largo Glênio Peres, e, durante as obras, passou anos operando fora do Mercado, na rua. Na época não havia funcionários. Depois da reforma sua mãe passou a banca definitivamente para o seu nome, parando de trabalhar. O jovem Julio, então, passou a comandar o negócio.

Vontade de trabalhar nunca faltou, seguindo o exemplo do pai. Teve, porém, que abandonar os estudos ao concluir o 1º grau. “Hoje prefiro dar estudo aos meus filhos”, compara. Casado com Regina Maria, Julio tem dois filhos, Rafael, 20 anos, e Julia, de 15, ele cursando faculdade de química e a garota fazendo o 2º grau. Outros tempos. “Hoje os filhos não têm mais o mesmo entusiasmo que a gente tinha com o Mercado, têm outras opções”, avalia.

 

O Mercado dos velhos tempos

 

Nesses anos todos, Julio acompanhou de perto a vida do Mercado, e tem lembranças muito vivas. Como a de uma velha senhora que comprava guisado e jogava no telhado para as dezenas de gatos, todos os dias. Era quando o Mercado era aberto e o segundo piso “só tinha vida na época de fazer a carteirinha de estudante”. Viu também dois quadrantes serem consumidos em um incêndio. Felizmente, a banca não foi atingida. Mas a lembrança mais triste, a única talvez, que ele tem é a da demolição do Mercado Livre, ou da doca das frutas, que ficava em frente ao Mercado, onde hoje funciona a estação da Trensurb. “Porto Alegre perdeu um pouco a identidade, era muito bonito”, lembra. Dos tempos em que a banca ficou “na rua”, para a colocação da escada rolante durante a reforma, diz que era totalmente diferente, com um movimento intenso de quem passava. Ao voltar para dentro do Mercado, teve que se readaptar, mas hoje a coisa está fluindo, garante. “Eu conheci o Mercado em duas etapas, o antigo e agora, o renovado. Antes via goteira, gato, trabalhava aos domingos, hoje não tem nada disso. A gente viveu essa transição do velho para o novo, bancas mudando de lugar, e isso me marcou muito”. Mas, frisa, eram tempos difíceis. “Trabalhava quase manualmente, tirava a lona, a corda, não era fechado”. E o que mudou, em relação à venda de livros e revista? “Naquela época a gente trabalhava com distribuidoras, hoje funciona mais como sebo, ou meio sebo, com livros novos e usados. Tenho revistas novas, mas o que dá mais lucro, mesmo, são os usados. A gente vai mudando, vendo o que dá mais. É preciso estar apto ao mercado. Hoje estou bem, melhor, em relação ao anos anteriores, está sensacional”, entusiasma-se.

 

Uma vida no Mercado

 

Para avaliar o volume de vendas, Julio ressente-se da ausência de outro concorrente no Mercado, “para ter uma base”. O movimento está ótimo, diz. E completa: “Não posso reclamar. A gente preserva o que tem, o importante é cativar os clientes”. Para ele, a importância de ter um espaço que vende livros e revistas no Mercado é muito grande. “O Mercado como uma referência de abastecimento também tem que ter cultura”, sintetiza. Embora ele não leia os livros, afirma que conhece muito bem os títulos, porque há anos é ele quem faz o trabalho da compra de livros e revistas. “Sei o que está saindo ou não, o best-seller que está no topo. Se o cliente me perguntar se tenho tal título, eu sei de cabeça”, informa.

Hoje a banca opera com três funcionários. Um, inclusive, já com 10 anos de atividades. Qualquer um deles, afirma Julio, também está apto para responder e atender bem aos clientes. O movimento? A partir de março começa a esquentar e na metade do ano é o “grande momento”, que vai até dezembro. Em relação aos tempos mais antigos, ele lembra que antes “o pessoal lia bastante, não tinha computador, se vendia muito livro”. E lembra, também, que o Mercado, naqueles tempos, chegou a ter quatro bancas de revistas. Define a freguesia como “ótima”. Tem novos e velhos clientes, a cada ano se renovando, todos atrás da “velha maneira de ler um livro”. Mesmo tendo passado boa parte da sua vida no Mercado, Julio ainda trabalha 12 horas por dia. “Mas, chega no fim do dia, olho a recompensa, vejo que passei um dia maravilhoso”, diz. E no outro dia, abre “sorrindo, tem que passar essa alegria para o cliente”. E quando está de férias, já fica pensando em voltar para o Mercado, que é tudo para ele, mais do que o seu sustento e o de sua família. “É a alma mercadeira, a gente entra e sai e o Mercado está sempre com a gente”. Por tudo isto, ele acha que o Mercado tem que evoluir, mas sempre preservar as suas características. “Tem gente que queria ver ele como um shopping, mas o Mercado nunca vai ser isso. Ele é o que tu sente e vive dentro dele, o peixe que tu comes, a carne que tu compras. Quando se entra no Mercado, não tem hora para sair. O Mercado é o povo”, finaliza.

Foto: Letícia Garcia

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