Júlio César de Souza: “O Mercado é a nossa segunda família”

 

Assim como muitos, Júlio César entrou para o Mercado Público através do seu pai, José Santos de Souza, também conhecido por alguns apelidos, como Zé do Bicho, Zé Bicheiro ou Zé Bonitinho. Não, ele não trabalhava no Mercado, mas vivia praticamente nele, vendendo bilhetes, fazendo jogo do bicho, rifas, etc. Tinha um bom entrosamento com “o pessoal do Mercado”. Este foi o começo no velho Mercado deste porto-alegrense, nascido em 4 de fevereiro de 1970, casado, pai de um menino – até hoje trabalhando na mesma banca que entrou, a Flora 49.

Foto: Letícia Garcia

O garoto sempre acompanhava o pai nas suas voltas, não só pelo Mercado, mas pelo próprio centro da cidade. E chegou o momento de prestar o serviço militar. “O Mercado foi ideia do meu pai. Quando chegou a hora de ir para o Exército, ele disse: ‘vai lá e vê como fica, se tu ficar liberado tenho um lugar pra tu trabalhar por uns tempos, no Mercado. Tenho um amigo que tem uma banca lá”. E assim foi: dispensado do quartel, passou a trabalhar na banca da qual nunca mais saiu, a 49, uma flora de produtos religiosos, em 6 de janeiro de 1989. O comércio estava no sangue – o pai também teve banca de verduras, na Praça Parobé, que acabou perdendo. A rotina dos tempos mais antigos ele define como “bem mais difícil do que hoje”. Lembra que a banca era menor, com pouco espaço. “Era só um balcão fininho, comprido, encostado na parede, onde ficavam quatro, cinco pessoas atendendo. Quando tinha festas grandes, como de Yemanjá, tinha que enrolar uma vela de um metro e meio no chão, porque não tinha espaço”. Eram outros tempos de Mercado, antes da grande reforma dos anos 90. “O movimento (do Mercado) não tem como dizer se era melhor ou pior. Na minha opinião, pior, porque era difícil o acesso. A pessoa entrava num corredor e nunca sabia onde estava, era muito escuro. Tinha gente que tinha medo de entrar, só se a pessoa conhecesse as lojas. Depois da reforma, abriu. Chamou mais a atenção das pessoas, era a modernidade”, recorda.

 

O movimento com as grandes festas religiosas

Ele também lembra que, depois da reforma, as bancas de produtos religiosos foram divididas: “Quando comecei, o corredor onde trabalhava era de frente para a avenida Júlio de Castilhos, e nele ficavam três floras. Na frente da nossa loja ficava a Banca 1, mais adiante a 45. Depois, no outro corredor, saindo para a (avenida) Borges, tinha a 37. Depois da reforma colocaram uma em cada corredor. E para nós ficou bom, porque ficou bem perto da saída dos ônibus”. Sobre a clientela, diz que na banca onde trabalha, ela é maior nas grandes festas de religião. A maior de todas é a de Yemanjá, em fevereiro. Depois vêm as de fim de ano, com a troca de santos – os que saem e os que entram para reger o ano, com as limpezas e oferendas –, a de Oxum (8 de dezembro) e a de São Jorge (23 de abril). E como é trabalhar neste ramo, tão específico? “Na nossa área a gente vê de tudo um pouco. Quem chega pela primeira vez na loja para comprar, vem meio assustado e perdido. Então não é só vender, tem que dar um apoio, orientar. Frequentar (cultos religiosos), eu não frequento, mas com certeza sei bastante coisa”, diz. Das lembranças mais antigas, não esquece o frio do inverno rigoroso, quando trabalhava para o lado do Guaíba: “A gente mal podia ficar na frente da banca, o vento gelado e a chuva que praticamente batia na porta da loja, bem diferente de hoje”.

 

As muitas lembranças do Mercado

Também lembra que a estrutura do Mercado era mais baixa, e a parte de cima tinha telhado de zinco. “A gente botava vasilhas de barro para aparar as goteiras, e no verão era quente demais, terrível, porque esquentava por causa da telha”, diz. Do incêndio de julho de 2013, que ele considerou “muito triste”, diz que, felizmente, a banca escapou ilesa – embora tenha fechado, assim como as outras, por quase 40 dias, com férias coletivas. “Aproveitamos para fazer umas reformas, limpezas e arrumações. Mas foi triste, eu tinha saído há uns 10 minutos, quando cheguei em casa e a minha esposa me chamou e disse, ‘senta um pouquinho para ver isso, está pegando fogo no Mercado’. Me deu uma coisa, só fui saber no dia seguinte que tinha queimado só em cima. Quem via as imagens, parecia que todo o Mercado tinha pegado fogo”, relata. Porém, a tristeza foi compensada no dia em que o Mercado reabriu, quando ele viu as pessoas entrando, batendo palmas e chorando de emoção. Com tantos anos de Mercado, ele vem acompanhando os clientes, gerações, alguns bem antigos que até hoje ainda compram na banca – desde os tempos do jovem e cabeludo Júlio Cesar. Afinal, o Mercado é uma história de vida para ele, onde começou a “viver de verdade, o primeiro lugar de carteira assinada”. Durante todo esse tempo, esteve fora apenas um ano e meio, quando fez concurso para a antiga Empresa Porto-alegrense de Turismo (Epatur) em 1992. Depois, nunca mais saiu do lugar que lhe deu tudo o que tem na vida. Por isso ele diz que o Mercado é, na verdade, um segundo lar, onde “a gente fica 12 horas. É como se fosse uma família”.

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