Juliano Javoski – Ao som do chamamé

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Juliano Javoski canta a região platina há mais de 30 anos, carregando em seu canto as origens do chamamé, ritmo argentino que foi adotado no estado e desperta a adoração de muitos gaúchos. A missão de estudar e difundir o chamamé existe também nas pesquisas de Juliano em escritos e viagens, mostrando que sua paixão ultrapassa os palcos.

Foto: Letícia Garcia

Com cinco CDs gravados e mais de 400 composições, Juliano consolidou-se no ápice dos festivais de música regional dos anos 80. Sua história com a música nasceu aos sete ou oito anos de idade, quando ouvia programas de rádio com os avós maternos aos fi ns de semana. À afeição pelo ritmo regional somou- -se o contato com as terras interioranas, que conheceu através da família. “Eu não sou uma pessoa que tenha se criado no interior, mas para mim o grande momento era quando chegavam as férias e eu ia para fora andar a cavalo e aprender a laçar”, conta. Aos 25 anos, começou a passar este sentimento para a música, e em seguida entrou para os festivais. Apesar de trabalhar paralelamente com seguros, sua dedicação e paixão pelo canto trouxe diversos prêmios – na Califórnia da Canção Nativa em Uruguaiana, no Reponte da Canção em São Lourenço do Sul, no Carijo da CançãoGaúcha em Palmeira das Missões, entre outros. “Os festivais foram essenciais, foi onde iniciei minha carreira profissional”, diz. “Acho que é o melhor caminho para quem está começando na área de música nativa. Tá certo que tem seus problemas, é muito competitivo, mas acho que ainda é um bom caminho. O festival é um laboratório, tanto que vem se transformando de mês a mês”. Em 2004, passou a dedicar-se integralmente à música, em especial ao chamamé.

Senhor Chamamé

Juliano define seu trabalho como focado na cultura e no folclore, e não no entretenimento. Sua música abarca em especial o folclore latino-americano, mais especifi camente o folclore argentino, devido ao chamamé. Em 2009, na época em que cantava com o grupo Che Alma Guarani, gravou um CD apenas com canções do ritmo, chamado “Coração de chamamé”, onde resgatou temas argentinos clássicos. “Tento passar com a música muito do meu eu, só canto coisas que realmente gosto. Procuro ser o mais autêntico possível”, pontua. E tem conseguido: em apresentação na 22ª Fiesta Nacional Del Chamamé, em Corrientes/Argentina, foi aclamado como o brasileiro que faz o chamamé mais autêntico no sul do Brasil, com seu trabalho reconhecido. “Construí um lastro muito bom lá, fui criando vínculos, e a gente foi se descobrindo”, diz. Seu trabalho com o chamamé não envolve apenas composições e canto, mas também o estudo de suas origens e características. “Nossa música tem uma influência muito grande da música uruguaia e argentina, principalmente no que diz respeito ao chamamé”, afirma, destacando que o ritmo vem de regiões argentinas que fazem divisa com o Rio Grande do Sul: Corrientes, Missiones e Entre Rios. A pesquisa de Juliano foi reunida no livro “Caraí chamamé” – em guarani, “senhor chamamé” –, que tem projeto pela Lei de Incentivo à Cultura e atualmente está em fase de captação de recursos. “Como a essência do chamamé é de origem guarani, no livro vai se encontrar toda a temática voltada para esta parte índia”, adianta. A obra será acompanhada de um CD e deve ser lançada até o ano que vem.

Formação musical

Juliano destaca o mosaico que forma a música rio- -grandense, com infl uências da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e mesmo dos Açores, da Europa. “É um mosaico muito interessante e bonito, mas acho que (a música gaúcha) ainda está em processo de formação cultural-musical, de laboratório. Ainda não temos uma música gaúcha padrão, nada que tenha nascido aqui. Vanera, xote, essas coisas foram trazidas de fora e aqui foram se formatando”. A afirmação deve-se muito ao que Juliano vê em suas viagens à Argentina. “Eles dão mais valor à parte cultural da música, não pendem muito pelo lado comercial como aqui. Temos muito que evoluir em se falando de cultura musical, em se tratando de amor à raiz”, afirma, referindo-se à valorização argentina da cultura local, que considera o maior diferencial do país.

Canto e memória

Ainda para este ano, está previsto o lançamento de seu sexto CD, com foco, claro, no chamamé, mas também com acréscimos de música regional. O CD vai ter participações de nomes como César Oliveira e Rogério Melo, Luiz Carlos Borges e Grupo Missões. Entre suas parcerias musicais, o destaque vai para trabalhos com os célebres Jayme Caetano Braun e Aparício Silva Rillo, além de parcerias mais recentes com Diego Muller e com a gaita de Márcio Fagundes. Recordando suas composições, Juliano destaca a canção “De antigamente”, composta por ele, que venceu a 16ª Ronda de São Pedro, em São Borja, 1997. Interpretada com o violonista Marcello Caminha, Juliano diz que essa canção marcou sua história: “Antigamente a vida era assim: tão simples, pessoas e fatos. Pena que este tempo envelheceu, amarelando na moldura dos retratos”.

 

38ª Califórnia

As inscrições para a 38ª Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana estão abertas até dia 24. Nascido em 1971, o festival inspirou muitos outros e foi central para o fortalecimento da música regional. O evento é organizado pelo CTG Sinuelo de Pago e pela Fato Singular, com apoio da Prefeitura da cidade. A Califórnia será de 4 a 7 de dezembro, no Teatro Rosalina Pandolfo Lisboa. Informações pelo site 38californiadacancaonativa.com.br

COMENTÁRIOS