José Pinto de Miranda: repartindo o pão

ESPECIAL, Padarias do Mercado Público

 

No navio, que partia de Portugal o pai entregou o garoto de 14 anos que cruzaria os mares aos cuidados do comandante. Chegou em Porto Alegre em 1954, lembra que “estava tudo debaixo d’água”.

As lembranças do velho português José Pinto de Miranda vão longe. Foi no ano em que Getúlio Vargas se suicidou, o que causou grande comoção popular, fazendo o garoto imaginar que iria para guerra. Ele que, entre outros motivos, saiu de Portugal para não ir para a guerra em Angola, então uma colônia portuguesa. Pensou até em entrar para o seminário. Mas, como tantos outros portugueses que saíam em navios lotados para o Brasil, o jovem José acabou se iniciando com o comércio de pães.

Miranda, lembranças de um padeiro, com o famoso pão de bengala

No fim dos anos 50 ele tinha reparte de pão, na Padaria Santa Cruz, no Partenon. O trabalho repartidor mostra que Porto Alegre já viveu tempos mais humanos e fraternos. “Chegava a uma e meia da manhã, tinha uma mula e uma carroça”, conta ele. Com ela partia para a padaria perto da antiga fábrica Geral (de fogões), na Bento Gonçalves, onde ficava a padaria. Ali pegava as quantidades de pães e saía “repartindo” Partenon a fora. “Saía da rua Luís de Camões, passava nos padres capuchinhos, na Vila são José, todo o Partenon”, recorda. Eram tempos românticos, quando ele abria os portões das casas e deixava uma sacola de pães para os seus fregueses, anotava no caderninho, e depois as contas eram acertadas religiosamente no fim do mês. Inacreditável para os dias de hoje, mas ninguém roubava um único pão. Um milagre! A não ser, como ele conta, os próprios concorrentes, que queriam prejudicar o outro. Miranda conta a história de um repartidor apelidado de “Pintado”, assim chamado porque um dia roubou o burro de carga de um repartir e pintou o animal para que não fosse reconhecido… Era pão de meio kg e ¼ de kg e no fim de semana já tinha cuca, doce e, outras coisas que o pessoal queria variedades para o sábado e domingo. Ele lembra que a Padaria Santa Cruz chegou a ter 22 carroças de repartidores. Entregavam também doces, em tabuleiros, principalmente em bares. As carroças eram diferentes: as de doces eram altas, fechadas e a de pães, também fechadas, eram mais baixinhas, o pão ensacado em uma espécie de gaveta. Miranda, contudo, acha que o reparte poderá voltar, desta vez em condomínios, como já ocorre em Portugal.

 

Os anos dourados das padarias
Miranda diz que Porto Alegre nesta época viveu o auge das padarias. Lembra de algumas: Matheus, São Paulo, Cruzeiro, Cestari, Padaria Internacional, Popular, Nossa Senhora de Fátima, 3 Estrelas e Universal, que abasteciam a cidade. Para ele nesse tempo se consumia mais pão – hoje tem outras opções. Também afirma que foram os portugueses os responsáveis pela revolução na panificação no Brasil. Em 1959 ele já estava no Mercado Público, onde conheceu muita gente e fez amigos. Lembra que Luiz Salami vinha com a família tomar café na padaria. Cita João Fernandes, do Naval e o Antoninho, do Gambrinus, como grandes pessoas. Só para o Gambrinus, que tem o melhor mocotó da cidade, segundo ele, uma vez vendeu 450 pães para o almoço. Lembra de muitas brincadeiras, quando saía com a bandeira do Grêmio por dentro do Mercado nas segundas- feiras. Claro que, quando perdia não queria sair do escritório – mas mesmo assim, os colorados iam atrás dele para tocar flauta.

O homem que não tinha nada de “pão duro”
Miranda lembra que de manhã cedo quando abria a padaria já tinha uma fila de meninos à espera para ganhar um pãozinho para comer. Lembra de outra mulher muito “braba” que vinha para ganhar café e cigarro. Diz que os próprios parentes diziam que ele era “bom” demais. Ou seja, mão aberta. Mas, lembra também que eram tempos de muito trabalho e dureza. A fiscalização era dura, a padaria era obrigada a ter pão de “quilo”, se não era multada. Depois veio o pão de ½ kg, o pão bengala. “O padeiro dava dois cortes, ficava bonito”. E a produção não parava: chegaram a vender 22 sacas de pão por dia, algo em torno de 50 kg! A saída dos terminais dos ônibus, que ficava onde é hoje o Largo Glenio Peres, fez com que o movimento diminuísse muito, diz Miranda.

 

Como surgiu o “cacetinho”

Em todo o Brasil o pequeno pãozinho só é conhecido com este nome no Rio Grande do Sul e na Bahia. Miranda informa que antes era “tudo na mão”, não tinha divisórias como hoje. Então, o padeiro cortava a massa, utilizando um pequeno molde de madeira. Entre os padeiros um gritava para o outro na hora da produção “passa o cacetinho, passa o cacetinho” daí se originou o nome do pãozinho que não pode faltar na mesa no café e nas refeições. Eram, realmente outros tempos. A rotina mais pesada era a de entregar nos bares. E o drama era quando faltavam padeiros, principalmente de domingo para segunda-feira. Miranda trabalhou até 2004 e tem grandes lembranças dos anos que passou naquilo que ele chama de “Família do Mercado”. Recorda, nostálgico, dos tempos da boemia quando as pessoas iam lanchar na sua padaria de madrugada, tudo gente boa, mulheres bonitas, sem assaltos e quando se podia andar a pé de madrugada no centro. Mas até não muito tarde, porque no outro dia, cedinho, já tinha gente procurando pão na padaria…

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