José Oldair Silveira da Silva: “O peixe sempre chamou as pessoas para o Mercado”

Nascido e criado na Região das Ilhas, em 1º de fevereiro de 1972, “quatro filhos de sangue e dois de coração”, ele chegou ainda garoto nos balcões do Mercado. Seu pai, José Cláudio Silva, trabalhava na garagem da Aplub, nas proximidades do Mercado, onde grande parte dos mercadeiros deixava o carro, e conhecia muitos deles, como o dono da Banca do Holandês, Ernani Ernesto Agiova, junto com Renato Rosa, que ainda é proprietário da banca.

Foto: Letícia Garcia

“Entrei no dia 23 de abril de 1989, e lá fiquei três anos, atendendo no balcão.” Começava, assim, uma carreira que está completando quase 30 anos.  E que seguiria intensa: seu irmão mais velho, Manoel Luís, já falecido, trabalhava na Peixaria Japesca, e foi através dele que passou a trabalhar ali também, em 1992. Na peixaria, ficou mais três anos, ou seja, até 1995.  Na frente ficava a Flora Kolesar, da qual o gerente Darci Pereira da Rocha, era seu conhecido. “Ele me convidou para trabalhar ali, onde fiquei 15 anos.” Depois disso, ficou quase dois anos fora do Mercado, com outras atividades. “Nesse meio tempo um colega da Japesca, que era balconista, o Joás [da Silva Kaiper], se tornou gerente e me convidou para trabalhar com ele. Voltei para cá dia 4 de abril de 2011.” Mas a empresa tinha outra loja, a Propesca, onde Oldair, foi convidado para ajudar a gerenciar. Depois ela foi vendida e ele voltou novamente para a Japesca, onde está até agora e pretende se aposentar. “Ao longo dos anos, a gente vai pegando mais experiência. Hoje eu sou encarregado, faço a abertura da loja e outro colega faz o fechamento. Entro às 6h da manhã, faço a compras dos peixes, fazemos a montagem, abrimos a loja às 8h, aí às 17h eu vou embora.” Também faz parte do seu trabalho comprar os peixes, cuidar das notas, dos valores, entradas e saídas, porcentagens e fazer os pedidos para a distribuidora própria que a Japesca possui. E, além de tudo, também ajuda a atender.

Tempos da rádio no Mercado

Quando entrou em 1989, era o Mercado antigo ainda, com telhado de zinco. “Naquela época a gente trabalhava mais, até 13 horas por dia, era muito puxado, hoje é bem menos. O movimento antes era muito maior, hoje diminuiu, acho que porque tem muitos supermercados, peixarias. Mas era bom.” Naturalmente, tem muitas lembranças desse tempo, como da rádio que havia no Mercado. “Não me sai da memória: a Banca Central era bem no meio do Mercado e a Japesca era onde a Central está hoje. Tinha uma rádio no Mercado, com o locutor Lázaro Moreira. E quando abriam os portões, às 7h30, sempre com uma música ‘Porto Alegre é o pôr do sol’. Isso ficou marcado na minha vida, até hoje.” A rádio, recorda, animava e anunciava as ofertas das bancas, e depois da reforma não voltou mais. Segundo Oldair, naquele tempo tinha apenas um segurança e “na limpeza era, também, só um, ‘seu’ Antônio, que varria o Mercado”. Para ele, o peixe é a maior atração do Mercado. “Antigamente tinha a Coreia, com balcãozinho de pedra. Até hoje a gente nunca deixa de vender peixe. Nós, os ilheiros, acho que já temos no sangue essa tradição.”

Diferenças de ontem e hoje

Muitas coisas mudaram desde os seus primeiros tempos no Mercado: “Naquela época a gente trabalhava de bermuda, sem touca, só com a camisa da empresa ou jaleco. Hoje já não pode, tem que trabalhar de bota, mudou o jeito de trabalhar. Não tinha gelo, hoje é obrigado a ter”. De lembranças especiais e das quais tem mais saudade está a rádio. Acha que o novo Mercado, a partir da reforma, está mais bonito e bem melhor do ponto de vista da higiene, por exemplo. Em relação aos clientes, os mais antigos (que compravam na Banca do Holandês ou na Flora Kolesar) ainda continuam comprando e se lembram bem dele. “Como a dona Catarina, de 70 anos, que recentemente me disse ‘eu te conheço há quase 30 anos, todo esse tempo eu compro contigo’. E além dela tem muitos outros.” Popular, tem muitas amizades com os colegas mercadeiros. “Conheço quase todo mundo, meu apelido é ‘Primo’. Às vezes, tem uns novatos que passam por mim e falam: ‘e aí, Primo, beleza?’. Então, eu vou fazendo amizade – a gente é uma família aqui.”

Gratidão ao trabalho

Sobre o seu ambiente de trabalho, diz que é bem reconhecido nele. “Aqui, a gente costuma dizer, é a ‘família Japesca’. Eles ajudam, estendem a mão, muitas lojas aí, quando o movimento enfraqueceu, mandaram empregados embora. A Japesca não. Quando pegou fogo no Mercado, o patrão fez reunião com a gente, pagou todo mundo certinho, nos segurou, não despediu ninguém.” Entre os colegas mais antigos, além dele, estão o gerente-geral Joás Kaiper, Alceu Brandão, Gelson Santana e Luiz Carlos Brandão, que também é sócio – todos com mais de 30 anos de atividades. “Quando eu voltei, o Gabriel [Mendo da Cunha, proprietário] disse: ‘eu sabia, quando tu voltou, que era só te dar a camiseta que ia saber sair jogando’. Aquelas palavras nunca me saíram da cabeça até hoje. Aí eu pensei: ‘é aqui que eu vou ficar e me aposentar’.’’ Para a Japesca, ele também levou a filha, Shaiane Neves, que trabalha como auxiliar administrativa da empresa há três anos. “Ela está na faculdade, fazendo Administração – não falta nunca, como o pai.” Seu pai acabou ficando 44 anos na garagem e só parou porque adoeceu. “Todo mundo no Mercado conhece o meu pai, estão sempre perguntando por ele. Agora ele só está cuidando da bisneta.” Para Oldair, o Mercado representa tudo: “Minha vida é aqui, os meus amigos, irmãos. Eu não consigo mais viver longe do Mercado”.

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