José dos Santos Loureiro: O Mercado foi a primeira casa dele

José dos Santos Loureiro: O Mercado foi a primeira casa dele

 

A história de José dos Santos Loureiro é semelhante a de muitos imigrantes portugueses que vieram para o Brasil, mais precisamente para Porto Alegre, cruzando com o Mercado Público nos seus destinos. Infelizmente hoje, depois de três infartos, ficou com sequelas neurológicas profundas. Limitado a uma cadeira de rodas, praticamente não fala e tem grande dificuldade de lembrar os fatos que marcaram sua vida. Certamente daria um testemunho riquíssimo da sua vida de mais de 50 anos de Mercado. Mesmo assim fomos fazer este precioso registro. Com a ajuda de um dos seus filhos, Marcos, e da sua esposa Matilde, conseguimos extrair um pouco da sua trajetória.

 

    

Foto: Letícia Garcia

Português, nascido em Póvoa de Varzim, em 23 de setembro de 1935, veio sozinho de navio para o Brasil, em 1956. Lembram os familiares que primeiro ele trabalhou em uma chácara de um tio. Depois em uma padaria, até começar como ajudante na cozinha do restaurante que faria parte da sua vida para sempre, o Santa Cruz, hoje comandado pelos filhos. No Mercado, o registro que se tem da sua chegada é 1957. O jovem foi rápido: da cozinha logo passou para a parte da frente e em seguida já era sócio do bar. Naquela época a clientela era composta, basicamente, de estivadores, prostitutas e populares em geral, servidos pelo incansável José. Os pratos, todos muito simples, tinham grande saída. Mocotó era o que mais vendia e logo já vinham o “completo” (hoje o atual prato feito), o “sortido” e “separado” – este assim chamado porque o feijão vinha numa travessa, separada. Também tinha a eterna ala minuta, embora vendesse menos que o imbatível “completo”. Peixe também não fica atrás, reforçando o Mercado como um ponto muito identificado com peixarias.

 

O começo e o trabalho de um obstinado

 

     O Santa Cruz naquela época tinha só uma porta e o espaço era a metade do que é hoje. Ao lado ficava uma banca de fumo em rama, produto (e hábito) hoje praticamente em extinção. Em 1986 essa banca foi comprada e o Santa Cruz aumentou seu espaço, passando a ter as duas portas atuais. Nesse período ele também teve Manuel Gomes Novo, o Manuelzinho, como sócio. A vida, como a de todos que trabalham no Mercado, era dura. Ele saía de casa às 4.30 da manhã e só voltava no fim da tarde. O restaurante, contudo, ia até às 10 da noite. Obstinado, trabalhava sábados, domingos e feriados e nunca tirou férias na vida. A única vez que parou foi para visitar sua terra, desta vez, de avião. Seus amigos do Mercado eram quase todos também de origem portuguesa. Além do sócio Manuel, Silvino Gomes Novo (que também trabalhou no Santa Cruz, antes de comprar o seu açougue), Luis Duarte, Hélio Belmiro, José Bolsinha, Carlos Santos (um dos mais antigos do Mercado, do Bar Santos, faz questão de registrar), assim como o Manoel Gueral. Mas, com tanto trabalho, pouco tempo para atividades mais amenas.

 

Formando a família

 

     Também fez muita amizade com a clientela. Até hoje, conta o filho Marcos, passa gente lá perguntando ou mandando um abraço para ele. “É muita gente, que eu nem sei quem é”, diz a esposa Matilde, que o conheceu em 1965. Nessa época ela morava com uma tia no bairro Santana, que tia um bar justamente do lado da padaria onde trabalhava o jovem português. Dois anos depois, estavam casados. Mas no começo ela frequentava pouco o Santa Cruz, por causa da clientela. O entorno também era um pouco perigoso, com muita malandragem e batedores de carteira. O lugar era simples, recorda. “Ele nem gostava que eu fosse lá”, diz ela. Da união resultaram três filhos, Vera, Marcos e Marcelo. Marcos, já há 20 anos trabalhando no Mercado, diz que a rotina de trabalho e a paixão do pai pelo Mercado eram grandes: “Acho que  não era nem a segunda casa dele, era a primeira”. Ao que a esposa acrescenta que isso era a vida dele, a única coisa que gostava. “Tudo o que conquistou foi dali”, resume.

 

De pai para filhos

 

     Durante a grande reforma dos anos 90, que deu nova feição ao Mercado Público, o bar ficou um pouco mais de dois meses fechado. A partir dali o público começou a mudar. Ainda é muito popular, mas “mais selecionado”, como diz Marcos, em relação à clientela anterior. Foi um dos poucos que permaneceu no mesmo lugar. “Mas até hoje ainda aparecem pessoas pedindo um “completo”. Como nos velhos tempos, todas as compras do bar são feitas no próprio Mercado, tudo fresquinho, como é a característica local. Já não é mais o bar de antigamente com apenas cinco mesas de quatro lugares e um balcão, mas ainda conserva alguns poucos clientes mais boêmios. Nada comparável aos velhos tempos, claro. O restaurante vende destilados para aperitivar, cervejas, mas o forte mesmo é a refeição, além de petiscos, sucos e bebidas em geral. Lá come-se, por exemplo, um excelente bife de fígado acebolado.

     O nome já existia quando o jovem José lá chegou, ele que ao longo do tempo foi fazendo várias reformas. O filho diz que a próxima é para a Copa. O importante é que a casa está bem cuidada, na mãos dos filhos. O guerreiro de 76 anos acha que o Mercado hoje está melhor. Para ele a luta não foi difícil, pelo contrário. Diz que tem ainda muitas saudades de trabalhar.

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