José Carlos Lopes Tavares, o Zezinho: “O Mercado foi uma faculdade para mim”

O simpático e conhecidíssimo garçom está há 32 anos no Gambrinus. Zezinho, natural de Bagé, casado há 35 anos com Maria Laureci, dois filhos, forma, juntamente com Jorge Alberto, o popular Vovô, a dupla de garçons mais antiga do Mercado. Ele chegou ao Mercado com 14 anos. Tem muitas histórias para contar – que dariam um livro, afirma. Veio de Bagé, junto com os pais, numa viagem de trem que durou 23 horas, num “carro de segunda, um horror”.

Começou na Banca D, famosa por seus pastéis, “calibrados no vento”, diz ele, brincando. A banca, muito freqüentada e sempre cheia da manhã à noite, depois passou a ser um açougue e, por fim, uma corretora. “Foi um sucesso, propriedade do espanhol Fernando Gimenez, um pastel maravilhoso”, resume. Zezinho começou na pia, lavando xícaras, tarro de leite e copos. Seis meses depois, pulou para o balcão, na primeira vaga que abriu. Ali ficou durante anos. Porém, o espanhol ganhou uma concorrência em um restaurante na rua Siqueira Campos e levou o jovem junto com ele, onde permaneceu durante cinco anos, deixando o Mercado para trás. Nos anos 70, porém, teve uma breve passagem pelo Mercado, no Gambrinus: “Era casa lotada”. Mas a trajetória do jovem garçom continuou fora do Mercado: fez muitos “extras” (trabalhos fora) durante anos, no Plaza San Rafael, restaurantes e na Associação do Banco do Brasil. Depois, foi para a Tia Dulce, um famoso restaurante que havia na Av. Independência, reduto da boemia porto-alegrense e famoso pela sopa de cebolas que os notívagos iam tomar, para retemperar as forças na madrugada.

 

A volta para o Mercado

 

E foi no Tia Dulce que Antonio Melo, o Antoninho, dono do Gambrinus, falecido há poucos anos, reencontrou-o. “Falei para ele: qualquer coisa me chama. Mas, ele achou que eu estava muito malandro da noite e foi perguntar para os meus colegas, que me prestigiaram”. Resultado: desde 1980 ele passou a ser garçom do Gambrinus, onde está, portanto, há 32 anos, “na minha, no meu feijão com arroz, sem criticar ninguém, colega, nem puxar saco do patrão”, define. No novo trabalho ambientou-se rapidamente, com Melo, que define como um excelente patrão. “É uma das poucas casas que o empregado ganha filé, camarão, bacalhau, picanha. Mas a gente está há tantos anos aqui que prefere um arroz com lingüiça ou uma galinha com arroz”, brinca. Outros tempos, bem diferente do seu começo. A Banca D era só um “espacinho” sem os pratos de hoje. Eram ovo cozido, bolinho, bacalhau e um sanduíche de lombinho de porco, muito famoso na década de 70, recorda.

 

O velho Mercado

 

Apesar de estar a só 32 anos, Zezinho ainda tem boas reminiscências dos tempos mais antigos do Mercado. Aliás, para ele pouca coisa mudou. Ressalta, porém, que antes o movimento era bem maior. Para ele, isso se deve ao fato de que haviam poucos supermercados na cidade. “O Mercadão era lotado das sete às sete da noite, se trabalhava domingo até ao meio dia. A gente era jovem e nem notava o trabalho, passava despercebido”, diz. Sobre a boemia do Mercado, diz que eram tempos maravilhosos, em que se podia andar tranqüilo na volta do Mercado. Registra que a partir dos anos 80, começou a ficar “mais pesado”, com a falta de estacionamento e segurança. “As pessoas tem medo, outro dia um casal perguntou qual o lado mais fácil de sair para não ser assaltado”, conta. Por isso, faz questão de levar os clientes mais velhos até o táxi. Mas a boemia mesmo era com o Treviso, Graxaim e o entorno, com o Chalé da Praça XV e o restaurante Dona Maria. “A turma saía a pé, caminhando. Hoje nem com uma metralhadora”, exagera.

 

Mudanças, histórias e personagens

 

Mas se hoje “o Centro não ajuda para a vida noturna”, como ele diz, a região ainda conserva no Mercado a referência daqueles tempos de muito chope, trigo velho, conhaque, bolinho nos bares mais populares – e que eram as marcas do Gambrinus também, antes dos anos 80. “Depois o proprietário começou a qualificar os pratos e arrasou, ficou esta casa maravilhosa”, entusiasma-se. Lembra de personagens históricos, como o sr. Serrote que fazia limpezas nas chaminés, do Martini, que vendia roupa, sapato, parcelando com generosidade para os empregados do Mercado, do famoso Miguel “Sujo”, que nunca trocava de roupa e se dizia amigo do governador da época, ou do “Sacaria”, que vestia vários sacos de estopas, um em cima do outro. As lembranças são muitas, mas hoje com 65 anos, não se considera um saudosista daqueles tempos. Tem uma rotina agitada até hoje. Chega às 10 horas, lava a calçada, prepara os copos, açucareiro e tudo que for preciso para o movimento do meio dia. À tarde, tem um intervalo de duas horas e meia, tempo que aproveita para circular pelo Mercado, vendo os colegas nas bancas (“uma turma maravilhosa”) e, claro, tomar o seu cafezinho no Café do Mercado, ou comer um sonho na padaria Copacabana.

 

Uma vida no Mercado

 

Os clientes? Para ele, o importante é ver o sorriso de satisfação quando eles vão embora – sinal que gostaram de tudo. “É fora de série, tem que ter respeito ao cliente, de todos os tipos, com os de Fuca aos de Ferrari e Lamborghini”, diverte-se. Lembra-se dos tempos em que o restaurante era menor e os clientes tinham que dividir mesas – compartilhamentos que resultaram até em casamentos. Lembra, também, de muitos clientes que acertaram na loteria e morreram pobres. Dos clientes antigos, são dois ou três que ainda frequentam o Gambrinus. Hoje, depois de dois enfartes, já pega mais leve. “Ainda bem que tem a proteção do Dr. (Fernando) Luchese, que cuida do meu coração”. Encerra ali pelas nove horas da noite. Mas, antes já fez suas compras nas bancas do Holandês, Central, 38 ou 43. Para ele tudo é maravilhoso, bancas, colegas, clientes e proprietários. O trabalho? Hoje, diz, é mais pela necessidade. A esposa, que conheceu no Gambrinus, onde era ajudante na cozinha, já está aposentada e os filhos Luís Evandro, 24 anos e Áurea, 32, já estão encaminhados na vida. “Estou muito bem, graças a Deus. Carteira assinada, recebendo salário, adoro. Fico dois dias em casa e já tenho que vir para o Mercado, que foi uma grande faculdade para mim”, finaliza.

 

 

Foto: Letícia Garcia

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