José Carlos Antônio Vieira, o “Caroço”: “Eu me criei dentro do Mercado, e tudo o que eu tenho devo a ele”

Ele começou com 14 para 15 anos no Mercado, há praticamente 50 anos. Veio trabalhar com o pai, Adão Antônio Vieira, que tinha “uma banquinha” de peixe e ali fez o seu aprendizado. E, para quem chegou na Banca 43 sem saber a diferença entre um salame e um queijo, Caroço aprendeu muito, sendo hoje um dos balconista preferido dos mais antigos e exigentes fregueses. Alguns chegam a passar a lista dos produtos por telefone para este vovô coruja, principalmente da netinha Natália, de sete meses. Aposentado, já podia ter parado de trabalhar, mas não consegue ficar em casa: a falta do Mercado é grande.

 

            “Meu nome mesmo é Caroço, o apelido é José Carlos Antônio Vieira”, brinca ele. O apelido vem desde o berço, conforme explica o nosso brincalhão personagem: “Quando eu nasci, com cinco quilos e meio, meu tio disse que ‘rico carocinho’ e aquilo ficou para sempre”. Nascido em 30 de setembro de 1946, casado com Eva Silveira Vieira, com quem teve dois filhos, Carlos Augusto e Magda Suzana, que lhe deram quatro netos, aos 67 anos Caroço é só alegria nessa sua trajetória de quase meio século no Mercado Público. “Vim para cá na época em que existia (bancas) de peixe atrás do Mercado. Batia uma sineta às 11 horas e aí se cortava o rabo do peixe, ou botava creolina. Fechava, e as vendas eram encerradas, não se podia mais vender”. Eram os tempos da famosa “Coréia”, onde ficavam banquinhas de cimento, expondo os peixes. Tempos em que não existia refrigeração, apenas gelo, daí o rigor da fiscalização. O pai vendeu o ponto e o garoto foi trabalhar, então, na Peixaria São Pedro, uma das maiores na época, onde ficou nada menos que 25 anos. “Era balconista e subgerente, cuidava da frente. Foi aí que comecei a minha vida. Depois fui para a Banca 43, onde estou até hoje. Faz um bocado de tempo que estou aqui, até já me esqueci”.

 

De peixeiro a balconista da sofisticada Banca 43

 

            Mas Caroço não esqueceu da dura rotina dos tempos antigos, quando trabalhava sábados e domingos até a uma hora da tarde. “Era puxado, completamente diferente”, diz. Hoje ele trabalha das sete da manhã às cinco da tarde, mas quer ver se diminui ainda mais essa carga horária, já que está aposentado. “Mas o patrão não quer me largar, ele diz que eu sou a alma do time, o coringa”. O patrão, no caso, é o jovem empresário Jefferson Sauer, com quem Caroço tem uma relação quase paternal. “Aqui estava um pouco parado, agora o guri movimentou a Banca, ele tem uma ‘cabeça de rei’, fantástica. Ele coordena a banca sozinho, mas tem outras coisas por fora, o açougue do lado é do pai dele”. Aliás, uma coisa que ele se orgulha é de sempre ter tido bom relacionamento com os patrões, desde quando entrou, nos tempos de Arlindo Muskupff, o fundador da banca. Mas quem o levou (e ensinou) para a 43 foi Cláudio Klein, um dos sócios. “Apanhei bastante, o primeiro cliente era um advogado, que me chamava de ‘Cheirinho’, por causa da banca de peixe. Ele deixou uma lista enorme de compras para mim e foi almoçar. Quase morri, fiquei rodeando dentro da banca, procurando os produtos”, lembra hoje, com muito bom humor.

 

O balconista preferido e mais querido de todos

 

            Com tantos anos de banca e com o seu jeito paternal e afetivo, ele é muito requisitado na 43. Quando está atendendo, os seus clientes mais fiéis esperam. “Chegam a dizer para os que estão na fila, pode passar que eu quero ser atendido pelo José Carlos, o Caroço”, orgulha-se. Ele diz que a 43, uma banca conhecida por suas especiarias, tem uma freguesia “fantástica, uma classe mais avançada”, que faz questão de ser atendida por ele. O segredo? “Quando o cliente chega eu já sei o que ele quer, se é cortado grosso ou fininho. Chegam dizendo ‘olha, seu José, tudo nas suas mãos, o que temos de bom aí?’’. Com sua experiência, o velho Caroço tem suas técnicas. Por exemplo, nunca sugere para uma pessoa levar algo mais sofisticado se ela pede um simples queijo colonial. Sutilmente ele vai sugerir um queijo mais “cremosinho”, não esquecendo de oferecer uma provinha decisiva. E deliciosas sugestões é que não vão faltar, como o queijo de ovelha, amanteigado, Serra das Estrelas, que se come de colher, com uma boa chimia importada (claro), ou um presunto Jamón Pata Negra, espanhol ou italiano – maravilhas que custam a “bagatela” de 300 reais o kg. Por essas coisas ele pode dizer, sem falsa modéstia, que as suas vendas são o dobro do que “os guris” vendem. Para eles, sempre aconselha: “Te espelha em mim que tu vais ser um bom balconista amanhã”.

 

O Mercado, ontem e hoje

 

            As lembranças são muitas. Passou por três incêndios e viu a grande reforma nos anos 90 que “melhorou o Mercado uma barbaridade”. Hoje a sua grande preocupação é com a recuperação do Mercado e com a situação dos colegas que perderam tudo no incêndio. “Estamos sofrendo, não por nós, mas por nossos colegas. Eles estão apavorados, com os compromissos, filhos no colégio, faculdade para pagar. Tem muita gente desempregada”, diz. Acredita que o telhado poderia ficar pronto mais cedo. “No Japão não fizeram uma estrada em uma semana?”, compara. De qualquer forma, pensa que o saldo não foi tão negativo, no geral. “Quando olhei o incêndio achei quem em cinco anos não ia estar trabalhando ainda”. Por estas coisas ele se orgulha e valoriza muito o seu trabalho. “Tudo o que eu tenho, minha casa, meu carro, meus filhos, que ajudei muito e ajudo se precisar. O Mercado é tudo na minha vida, o que hoje eu tenho, agradeço a ele, é a coisa mais importante que eu tenho”, registra. Saudades? “A gente tem, mas do jeito que tudo está evoluindo, a gente esquece, deixa para trás. Mas foi onde eu comecei a minha vida também, tenho muito orgulho. Naquela época eu chegava em casa ‘morto’, não conseguia nem fazer um churrasco. Eu só peço a Deus que o Mercado nunca termine, não só para mim, mas para todos”. O que está faltando mesmo é um pouco mais de tempo – que ele vai ter, assim que puder passar, pelo menos, para meio turno, para poder desfrutar e “cuidar bem da esposa, filhos e netos”. E ir para a praia, uma das coisas que ele mais gosta.

 

Foto: Letícia Garcia

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