Jornal do Mercado como fonte de pesquisa acadêmica

REFERÊNCIA

Jornal do Mercado como fonte de pesquisa acadêmica

 

     Graduado em história pela UFRGS e com pós- graduação em museologia e urbanismo, Pedro Vargas tem uma intensa ligação com o Mercado Público. Foi diretor do Memorial do Mercado durante três anos, período em que desenvolveu, com pesquisas e exposições trabalho que tinha como objetivo aproximar o público com um olhar qualificado sobre as atividades do Mercado, dos mercadeiros, relações sociais e sociabilidades de vários grupos sobre o Mercado Público.

 

       Uma das grandes constatações dos estudos é a presença do negro no universo do Mercado, construído por escravos. Pedro faz um registro do fechamento temporário do Bar Naval, que desde o começo do século passado constituiu-se num dos principais redutos negros da cidade e dos marcos da chamada territorialidade negra. “Os militantes dizem que os negros nunca saíram do Centro porque ficaram em enclaves sociais, como o Mercado, o Bar Naval e o Bar Santos, mesmo com a periferização. Aqui na sede da FRACAB, por exemplo, foi fundado o MNU, Movimento Negro Unificado”, informa Pedro. Porém, ele constata que hoje são novos grupos que frequentam o Mercado, como famílias nos fins de semana para os restaurantes, os turistas e outros públicos. Ainda sobre o Jornal do Mercado, Pedro acredita que ele revelou muito a identidade dos mercadeiros com o prédio. O pesquisador também acredita que tanto eles como os pais de santos têm duas percepções do Mercado, uma para fora e outra para dentro. Para eles, diz Pedro, o verdadeiro patrimônio e com o qual eles se identificam, é o Mercado por dentro onde estão as relações mais diretas e as principais vivências.

       

 Presença negra

     Pedro, que também foi diretor do Museu Joaquim Felizardo e atualmente faz parte da equipe do Programa Monumenta, apresentou sua dissertação O Mercado Central de Porto Alegre e os Caminhos Invisíveis do Negro: uma Relação Patrimonial. “O contato primeiro com o Mercado foi no Memorial. Foi aí que nasceu o interesse de fazer um trabalho mais completo e acadêmico sobre o Mercado. Quando fui fazer o mestrado no PROPUR, Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da UFRGS, resolvi trabalhar o Mercado no sentido das interpretações que as pessoas têm enquanto um patrimônio tombado”, explica ele. Tendo como mote a restauração do Mercado e as percepções a partir dele, o trabalho foi dividido em quatro grupos: os arquitetos que dela participaram, os grupos religiosos, os mercadeiros (guardiães da memória) e os militantes negros. Segundo informa, ele se baseou nos depoimentos de cada grupo, e outras fontes, como jornais, documentos e “principalmente no Jornal do Mercado, que foi fonte fundamental para estes estudos”, diz. Pedro não se baseou apenas nos depoimentos e registros da seção “Personagens”, onde são retratados os perfis de mercadeiros históricos, mas também de arquitetos, historiadores e pessoas anônimas. “Ali eu apreendi várias percepções sobre o Mercado, foi muito rico”.

COMENTÁRIOS